A reflexividade da música pode se revelar no fato de uma peça citar diferentemente, como as marchas militares nas sinfonias de Mahler ou o anacronismo intencional da valsa em O cavaleiro da rosa, ampliando-se essas possibilidades quando unida à poesia, como nos Mestres cantores de Wagner ou em Ariadne auf Naxos e Capriccio de Richard Strauss
As obras de arte também se mostram em sua perceptibilidade enquanto eminentemente perceptíveis, tornando uma imagem experimentada como obra possível um ver distinto do olhar casual cotidiano, subordinando-se tudo o que nela se apreende ao ser-visto
A razão disso é que a imagem como tal está investida no ser-visto e colocada em relação especial com o ver, sendo um engajamento visível com a visibilidade como tal, podendo por isso tirar aquilo que mostra de suas percepções habituais
O mesmo vale para as outras artes: a música é experiência do audível, a literatura molda o dizível em sua dizibilidade, a dança faz experimentar abertamente o movimento corpóreo vivo, e a arquitetura, quando arte, revela a espacialidade do espaço visível e acessível
As considerações até aqui apenas circunscreveram o mostrar automostrante das obras, devendo o esboço bastar para ver as possibilidades de preenchê-lo, especificando-se o caráter mostrativo próprio de imagem, poema ou peça musical conforme as formas básicas da arte
Mas a arte não possui apenas formas, permitindo sua perceptibilidade que seja também “material” ou “feita de matéria”, inscrevendo-se as formas artísticas na materialidade das obras, só se mostrando ao pertencer a essa matéria