No mundo do autoevidente abre-se uma fenda sutil quando algo, para ser adequadamente entendido, exige indagação por um conceito subjacente, tratando-se então o objeto como efeito possível somente através de um conceito desse efeito
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o conceito precede aquilo a ser determinado como “fundamento real de sua possibilidade”, coincidindo, quando reconhecido em sua finalidade, o conceito cognoscente com o conceito subjacente ao cognoscido
A fenda aberta pela duplicação de conceitos pode persistir mesmo sem se pressupor um conceito do lado do cognoscido, sendo então o cognoscido sem fundamento quanto à sua cognoscibilidade, permanecendo, contudo, algo possível
Só se pode falar do cognoscido como sem fundamento se ele ainda for concebido com referência a um fundamento, estando este em jogo como o que falta, podendo a relação, como diz Heidegger, persistir precisamente por sua ausência
Examinando de perto, porém, o vazio aberto não se concebe por referência a algo específico que o preenchesse, mas é a própria pergunta que avança além do dado rumo a uma abertura em que um fundamento real poderia estar, conduzindo ao “abismo”
É assim que se deve pensar o “sem fim” da determinação kantiana da beleza, sendo o possível cuja possibilidade não pode ser determinada por meio de outra coisa, ainda que a pergunta pela sua proveniência seja evidente sem ser posta como pergunta por um fundamento específico
A pergunta pelo fim de algo conduz a considerar sua finalidade, sendo algo experimentado como final quando sua compleição induz à pergunta de onde provém, existindo então segundo “medidas do fim”, como formula
Platão no Górgias sobre a ordem (κόσμος) enquanto disposição (τάξις)
Pode também haver coerência sem disposição, como no caso do feliz acaso reconhecido como tal, cuja ordem não é arranjo, e por isso se risca a noção de finalidade, sendo a experiência do coerente sem fundamento, que é algo possível, a própria experiência da beleza
Kant procura fazer justiça a essa essência incomparável do belo através de exemplos incomuns como papagaios, colibris, aves do paraíso, certos crustáceos marinhos, desenhos à la grecque, ornamentos de rendas ou papel de parede, jardins ingleses e móveis barrocos
Gadamer viu com olhar crítico o que está em jogo, pois para
Kant as únicas coisas belas seriam coisas da natureza sem nenhum sentido humano nelas depositado, ou coisas humanas conscientemente retiradas de qualquer atribuição de sentido, sendo a arte menos bela que o design decorativo
Essa acusação acerta um ponto decisivo mas erra o que realmente importa, pois o conceito kantiano do belo busca “beleza livre de conceitos e sentido” sem se orientar por meros jogos mundanos de cor e forma, já que esse jogo livre só é provocado por algo que desperta a cognição e ao mesmo tempo se subtrai a suas sínteses
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é assim com a plumagem colorida de papagaios, colibris e aves do paraíso, ou com a beleza do jardim inglês, como o parque do Ilm em Weimar, que não reside no inventário de suas árvores e gramados, mas na configuração sempre nova de imagens conforme o ponto de vista
Aquilo que
Kant procura elucidar com seus exemplos é a coerência dentro das coisas e entre elas, radicalmente distinta de sua ordem imanente e conceitualmente apreensível, tratando-se de “belezas livres” que agradam livremente e por si mesmas
Esse resultado esclarece como se deve conceber a liberdade no jogo das faculdades cognitivas, só podendo ser suscitada pela liberdade do belo, nada tendo a ver com a liberdade ética que
Kant concebe como autonomia
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apesar do paralelo traçado pelo próprio
Kant entre liberdade estética e moral, a espontaneidade não é autonomia, sendo a reflexão estética um livre jogo sem lei, esclarecível apenas a partir da beleza livre nela experimentada
Kant elucidou a beleza livre como pulchritudo vaga, distinguindo-a da pulchritudo adhaerens, que é mais perfeição que beleza, servindo essa distinção de refutação estética do classicismo antes mesmo de
Hegel elevá-lo à noção condutora da filosofia da arte
Kant elaborou essa coerência não regulada do belo por meio de um processo natural chamado “formação livre”, como a cristalização, podendo-se também designar assim a “ideia estética” elucidada por meio da poesia
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ideias estéticas são apresentações da imaginação ligadas a tal multidão de apresentações parciais em uso livre que nenhuma expressão pode designar um conceito específico, como no “reino dos bem-aventurados”, no “reino do inferno”, na “eternidade” ou na “criação”, exemplificadas na Divina Comédia de Dante e no Paraíso perdido de Milton
O que
Kant diz sobre formação livre e ideias estéticas permanece indicativo e alusivo, sendo ainda assim o ponto em que mais consegue apresentar a coerência sem fundamento que, a seu ver, constitui o belo
Deve-se retomar a indicação kantiana do caráter tecidual de certas formações livres, pois uma ordem bela nunca tem caráter de figura fixa, sendo antes tecido que construção rigidamente articulada, mais horizontal que vertical, irregular no sentido estrito de não seguir regra
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uma ordem bela pode ser copiada mas não repetida como uma construção geométrica, sendo seus momentos variáveis e podendo cada um entrar em nova correspondência conforme o momento a partir do qual se olha, de modo que a ordem se concebe por cada um de seus momentos e é, portanto, descentrada
As ordens descentradas continuam sendo ordens, podendo ser muito exatas e específicas, não devendo ser confundidas com vagueza, apenas não sendo apreensíveis num relance, mas somente ao se envolver com elas de modo concentrado e rigoroso
Kant apreendeu a essência do belo como ordem descentrada com notável intuição, mas a dificuldade do empreendimento residia na natureza da matéria e no fato de que a beleza, sendo sui generis, não se deixa aplicar pelos conceitos usuais de coisa, fim ou sensação
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a beleza situa-se na periferia das coisas ou em seus interstícios, não na sua determinação conceitualmente apreensível, o que explica os exemplos kantianos e não uma preferência bizarra pelo decorativo
Essa inesgotabilidade e esse caráter periférico e descentrado do belo são essenciais aos fins sistemáticos de
Kant, ligando-se diretamente à questão condutora da Crítica do juízo sobre o alinhamento entre liberdade humana e natureza
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se houvesse finalidade e determinação conceitual claramente reconhecíveis na natureza correspondentes à posição humana de fins, o ser humano apenas se encontraria a si mesmo no estranho, tornando supérflua a questão da concordância entre humanos e natureza
Ao manter a concordância entre liberdade e natureza vinculada a uma finalidade que dispensa um fim,
Kant não recua filosoficamente, mas oferece a solução mais radical frente ao Idealismo alemão, pois são as ordens descentradas, e não fins derivados, que tornam concebível tal concordância
Kant pouco explora essa concordância demonstrada entre liberdade e natureza, já cumprido o objetivo sistemático da Crítica do juízo, permanecendo em aberto quais possibilidades de exploração ainda restam à reflexão estética como tal
Não bastam os limites temáticos da Crítica do juízo para esclarecer o desinteresse kantiano por uma determinação mais exata da reflexão estética, sendo significativo que, para
Kant, essa reflexão seja não regulada e fundamentalmente incontrolável em seu exercício
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essa falta de controle é mais suportável porque a reflexão estética não deve ser autônoma, unindo-se antes ao intercâmbio social, sem que
Kant preveja uma interpretação sistemática das obras de arte
A ausência de autonomia na reflexão estética liga-se à concepção kantiana da beleza como “qualidade” das coisas, sendo a reflexão dedicada ao belo tão periférica quanto o próprio belo, um acréscimo independente da determinação das coisas
Procedendo assim, a reflexão estética corresponde inteiramente a seu objeto tal como
Kant o entende, sendo a obra de arte uma “bela apresentação de uma coisa”, ou mais precisamente a forma de apresentação de um conceito enriquecida por “noções acompanhantes” associadas a ele
Essa concepção não é adequada, pois segundo ela já se apreenderia o decisivo de um romance como Guerra e paz por seu título, quando na verdade o romance só entrega à compreensão aquilo que o título anuncia sendo a própria ordem descentrada que realiza como narrativa
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a ordem descentrada não é ingrediente adicional em nenhuma obra poética, mas a própria obra de arte, sendo esta uma ordem descentrada autônoma, e não mero conjunto de “noções acompanhantes”
Kant não possui termo para essa autonomia, que lhe permanece inconcebível, pois como “qualidade” o belo jamais poderia ser autônomo, conduzindo o passo seguinte da discussão do belo para além de
Kant, a fim de mostrar que o belo é também aparência, existindo uma ordem descentrada por aparecer