Acepção primeira de
eigen:
ser de, como forma germinal de todo
ter, implicando uma dupla relação com o que se tem.
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O que é meu só é verdadeiramente meu se eu não cesso de verificar que está, em mim, em mãos próprias.
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Esta coisa que tenho assim, posso a cada instante cedê-la a outrem, em quem estará melhor em mãos próprias.
Apropriação não é um ato simples de transformar algo em meu; é um processo complexo de reciprocidade.
Apropriamento, termo antigo, deixava entrever esta reciprocidade inerente a tudo o que é próprio e a necessidade de se reapropriar sem cessar o que nunca se pode possuir de uma vez por todas.
Apropriar-se significaria, então, tornar-se apto a ter relação com a coisa que se vai ter, tanto quanto com a que já se tem.
Limitação crucial desta abordagem etimológica:
das Ereignis não tem relação real, além da homonímia, com o adjetivo
eigen.
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Heidegger toma cuidado em recordar que das Ereignis é originalmente das Eräugnis, onde murmura a palavra das Auge (o olho).
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O verbo eräugen (também escrito ereigen) significa: fazer ver ao levar a abrir os olhos.
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O sufixo -nis em Eräugnis-Ereignis serve para dizer o que eclata uma vez que, tendo sido levado a abrir os olhos, um ser humano está em estado de ver o que há para ver.
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Portanto, Ereignis não tem, na origem, a menor parentesco lexical com eigen ou eignen.
Problema da tradução de
das Ereignis persiste.
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Obstáculo formidável: convicção absurda de que a cada palavra de uma língua deve corresponder uma única palavra em outra.
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Mesmo dentro de uma língua, há várias maneiras de dizer o ser.
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Heidegger afirma:
A linguagem é muito mais pensante, isto é, muito mais apta a nos abrir o espírito do que nós próprios o somos.
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Das Ereignis, tal como Heidegger o escuta, diz: aquilo que faz ver ao nos levar a abrir os olhos.
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A tarefa do tradutor: olhar na direção que a palavra da outra língua indica e ver se em nossa língua algo, à sua maneira, se aproxima do que Ereignis dá a pressentir.
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Isto não pode faltar em nenhuma língua, pois o ser fala, de fato, nas modalidades mais diversas e constantemente, através de toda língua.
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Pista importante: a maneira como Heidegger ele mesmo traduz um termo alemão para o francês na
Carta sobre o Humanismo.
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Frase: Das Denken ist auf das Sein als das Ankommende [l’avenant] bezogen.
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Tradução: Pensar, não é menos que se reportar ao ser como ao avenant.
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Das Ankommende, superficialmente, é
o que chega (evento). Heidegger o ouve de outro modo, dando peso ao prefixo
An- (aproximação, contato).
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Tradução por
l’avenant testemunha uma fina compreensão do francês.
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O avenant é mais do que o que simplesmente chega; é o que vem até nós porque esta vinda nos concerne, nos regarda.
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Nomear o ser de avenant é dizer que não seríamos quem somos se não acabássemos por reconhecer a graça que nos é feita ao vir o ser até nós, tocando-nos no mais profundo.
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Gênese da tradução
avenance para
das Ereignis.
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Possibilidade surgiu em conversa com Henri Crétella.
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Crétella preferia l’avenant, mas o particípio presente precedido de artigo em francês alivia e personaliza demasiado, perdendo o neutro.
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Opção por avenance: o sufixo -ance responde exatamente ao sufixo -nis de Ereignis.
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Definição fenomenológica do que
Ereignis nomeia.
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O ser, tal como aparece quando não mais o pensamos centrados no que é, é algo que se desloca, quer se elevar, algo que se teria desancorado, a uma grande profundidade (Proust).
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Heidegger acrescenta: algo cujo deslocamento, uma vez desancorado do peso de tudo o que é, vem até nós, se dirige a nós e nos convida a lhe responder.
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Das Ereignis é o vocábulo que, em resposta ao ser (ao ser mesmo, não ao ser do ente; ao ser percebido em seu próprio movimento), Heidegger ousa ouvir nomear: aquilo que faz ver ao nos levar a abrir os olhos.
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Proposta de
avenance como tradução constitui, em nossa língua, uma saudação adequada (
seyante [esserante]) ao que o ser não cessa de fazer.