8. O §65 mostra que a temporalidade (
Zeitlichkeit) constitui o sentido do ser do ser-aí, exigindo libertar-se da concepção quotidiana e cronológica do tempo, evidenciando-se o primado do porvir (
Zukunft), no qual se funda o deixar-vir-a-si próprio da resolução e do precorrimento da morte, do ser-já-sido (
Gewesenheit), que dá sentido ao ser-lançado, e do presentificar (
Gegenwärtigen), que possibilita o ser-junto aos entes intramundanos em sua presença (
Anwesenheit).
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O tempo originário configura-se assim como temporalização (
Zeitigung) da temporalidade, que não é, mas se temporaliza (sich zeitigt).
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9. Permanece incompleta a promessa do título da primeira parte, restando determinar o sentido temporal não apenas da existência, mas do ser em geral e dos demais modos de ser — disponibilidade, simples presença, vida — não tratados na obra publicada, confirmando-se seu caráter de obra aberta.
A relação entre tempo e ser
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1. O curso Os problemas fundamentais da fenomenologia, do semestre de verão de 1927, definido como nova elaboração da terceira seção não publicada da primeira parte de Ser e Tempo, oferece, em sua primeira parte, discussão fenomenológico-crítica de teses tradicionais sobre o ser em confronto com
Kant, o pensamento medieval,
Descartes,
Aristóteles e teorias lógicas modernas, mostrando como se desenvolveria a destruição da história da ontologia projetada para a segunda parte inacabada da obra maior.
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2. O curso aborda o tema da Temporalidade do ser (
Temporalität, distinta de Zeitlichkeit, temporalidade existencial), mas apenas quanto ao vir-à-presença dos entes disponíveis e simplesmente subsistentes, interrompendo-se antes de tratar os demais aspectos vinculados a passado ou futuro essenciais e o tempo próprio dos seres viventes.
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3. Fala-se de êxtases (
Ekstasen) temporais para indicar a estrutura dinamicamente aberta da temporalidade existencial, orientação denominada, com termo kantiano, esquema, ao qual corresponde um vir-ao-encontro do próprio ser, também temporalmente caracterizado, não mais como Zeitlichkeit, mas como Temporalität, articulada nos diferentes modos em que o ser se diz, analisando-se aqui apenas a dimensão da presença (
Präsenz).
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4. A presença, enquanto horizonte temporal parcial do ser dos entes que vêm ao encontro do projeto do ser-aí, constitui ulterior interpretação da verdade como desvelamento, denominando-se diferença ontológica (ontologische Differenz) a separação entre ser e entes.
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5. Ressalta-se o multiplicar-se dos níveis de investigação, possibilitado pelo caráter aberto e transcendente não só do ser-aí, mas do próprio ser, radicando-se a transcendência na temporalidade e, portanto, na Temporalidade do ser, sendo o tempo o horizonte primário da ontologia, o horizonte transcendental, tornando-se a filosofia, em sentido corretamente entendido, filosofia transcendental.
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6. Configura-se assim ampliação, ou antes ressemantização, da noção tradicional de metafísica, devendo esta abranger não apenas o ser do ser-aí, ente metafísico por excelência, mas também e sobretudo o ser como tal em sua diferença de todo ente, e estender-se à dimensão temporal, conduzindo, nas lições do semestre de verão de 1928, Princípios metafísicos da lógica a partir de
Leibniz, último curso em Marburg, à introdução da expressão meta-ontologia, para distinguir a própria filosofia das ontologias do passado.
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7. Conclui-se que o inacabamento de Ser e Tempo corresponde ao inacabamento de seu próprio objeto — o ser como tal —, impossível de ser propriamente definido em razão de sua estrutura dinâmica e temporal, exigindo-se outros caminhos e perspectivas para aproximar-se de fenômeno que, enquanto tal, não pode ser determinado.