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La logica del luogo e la visione religiosa del mondo. Introdução e tradução de Tiziano Tosolini

1. Assim como quem não é artista pode compreender algo da arte, todo ser humano, mesmo sem ser religioso ou crente, é capaz de compreender de algum modo a religião, como mostram a comoção diante das confissões ardentes de um crente ou das expressões de fé de um grande homem religioso e o sentimento religioso que brota nos recessos do coração diante de uma grave desgraça.

2. Sendo a religião um fato espiritual, cabe ao filósofo não construí-la a partir de seu próprio sistema de pensamento, mas explicá-la tal como se encontra no coração e na mente humana, o que exige que ele compreenda pessoalmente o que é o sentimento religioso, ainda que a experiência religiosa autêntica pertença às pessoas religiosas.

3. Diferentemente da consciência moral, que ninguém nega possuir sem se degradar, muitos, sobretudo os estudiosos, orgulham-se de não ter compreensão alguma da religião, tratando-a como algo não científico, ilógico, mera intuição mística, criação humana ou ópio do povo; com tais pessoas, porém, não há diálogo possível, como não se fala de cores a cegos nem de sons a surdos, e a recusa em expor a religião a elas não decorre de ser a religião anticientífica ou ilógica.

4. Antes de discutir a religião é preciso esclarecer o que é o sentimento religioso, cujo conceito fundamental é Deus, que aparece como fato espiritual assim como as cores aparecem aos olhos e os sons aos ouvidos, não podendo ser apreendido de modo meramente intelectual, sem que por isso seja algo simplesmente subjetivo.

5. Kant compreendeu com clareza a consciência moral, a partir da racionalidade moral do senso comum, e captou bem a essência da consciência estética ao definir o belo como prazer desinteressado, mas tratou a religião apenas como função subsidiária da moralidade, reduzindo Deus e a imortalidade da alma a postulados da consciência moral, sem alcançar o caráter peculiar da consciência religiosa, que não cabe nos limites da simples razão.

6. A consciência religiosa ou sentimento religioso é um problema que deve ser investigado a fundo tanto subjetiva quanto objetivamente, mas não se pode abordar a realidade religiosa a partir da posição da lógica do objeto, pois dessa posição tal realidade permanece invisível.

7. O si é algo que age, e agir é antes de tudo uma relação de negação mútua que é ao mesmo tempo afirmação mútua, na qual as coisas se opõem e se particularizam enquanto se enlaçam numa única forma; essa lógica da identidade contraditória explica o mundo material, mas não permite pensar o que age verdadeiramente, isto é, o que move o outro e age a partir de si mesmo, pois no mundo material tudo é relativo e as forças agentes são puramente quantitativas.

8. Para pensar o que verdadeiramente age é necessária uma ideia de ordem ou de sequência e de tempo irreversível, próprio do mundo da vida, no qual o mundo passa do formado ao formante como identidade contraditória do uno e do múltiplo, num processo infinito e teleológico em que a vida contém em si a autoexpressão e a autonegação e se forma infinitamente por negação da negação, constituindo assim a direção do tempo.

9. Como identidade contraditória, o mundo contém em si seu ponto focal dinâmico e se determina infinitamente tendo-o como eixo, de modo que toda ação deve orientar-se para a autoformação do mundo e possuir uma direção pensável como fim; o si, embora biológico e corpóreo, enquanto indivíduo único do mundo histórico como identidade absolutamente contraditória, age conhecendo o fim, isto é, é autoconsciente.

10. O mundo que existe e se move por si como identidade absolutamente contraditória é ao mesmo tempo espacial, ao negar-se, exprimir-se e existir simultaneamente nos muitos, e temporal, ao passar do determinado ao determinante; é o mundo criativo e sem fundamento da autodeterminação do presente absoluto, no qual os seres que agem são eles próprios mundos que se opõem a outros mundos, e no qual o si, ao exprimir o mundo em si mesmo, torna-se ponto de autoformação do mundo, sendo essa a operação da consciência.

11. O espaço presente à consciência espelha a si mesmo em si mesmo, e seu ponto focal dinâmico é o próprio si, cuja atividade possui sempre direção temporal e consciência de seu fim; o si é um ponto focal no qual o mundo reflete a si mesmo, e sua autoconsciência não surge num si fechado, mas apenas quando ele transcende a si mesmo e se opõe a um outro, de modo que, como na Monadologia, cada indivíduo exprime o mundo e constitui uma perspectiva particular de sua autoexpressão.

12. O mundo como autodeterminação do presente absoluto forma-se em torno de seu ponto focal dinâmico, e cada si, como um desses pontos, exprime o mundo e mantém sua direção ao longo da direção de autoformação do mundo, nisso consistindo a ordem moral; o si é, portanto, uma existência autocontraditória, centro do presente absoluto que abraça o eterno passado e o eterno futuro, refletindo o mundo em si e possuindo-se num outro absoluto.

13. Kant pensou o conhecimento objetivo como síntese de forma e conteúdo intuitivo e introduziu a problemática coisa em si, enquanto os neokantianos afirmaram que o dever precede o ser, entendendo por ser apenas o ser objetivo pensado segundo formas epistemológicas; desse ponto de vista, contudo, o sujeito pensante fica ausente, e como não se pode falar de um nada que pensa nem definir o eu apenas negativamente, o si deve ser compreendido logicamente como negação-e-contudo-afirmação, à maneira da identidade contraditória.

14. O si não pode ser pensado como o sujeito aristotélico que nunca se torna predicado, nem como mônada de predicados infinitos ou como enteléquia, mas como aquilo que predica de si mesmo e exprime a si mesmo, isto é, como autoconsciência que o é diante de um absolutamente outro; o juízo forma-se na identidade contraditória entre o que exprime e o que é expresso, razão pela qual tornando-se coisa se pensa e tornando-se coisa se age (diventando una cosa pensiamo, diventando una cosa agiamo).

15. O conhecer não pode ser pensado como simples atividade, dogmatismo do qual nem Kant escapa na introdução da Crítica da razão pura, pois a união de coisas que se negam reciprocamente exige um meio (medium) que seja em si identidade contraditória, do qual os termos em interação são como dois polos; o centro dessa autodeterminação é o ser locativo (essere locativo), onde o uno se torna múltiplo e o múltiplo uno, e onde o si se opõe a si mesmo e se unifica pela autonegação, de modo que toda relação expressiva, inclusive a relação eu-tu, é sempre pensada a partir do ponto de vista da autoconsciência.

16. A direção em que o lugar se autodetermina ilimitadamente é objetiva para a lógica objetiva e subjetiva para a lógica do juízo, mas ambas podem ser invertidas e compreendidas como autodeterminação do lugar, de modo que ao ser como sujeito se contrapõe o ser como predicado e ao ser objetivo se contrapõe o ser locativo, isto é, o ser autoconsciente, no qual se situa a existência do si como centro de um lugar predicativo e cuja reflexão é a atividade do lugar que reflete a si mesmo.

17. O mundo da vida constitui-se onde o mundo contém suas autoexpressões e se forma autoexpressivamente, tornando teleológica e ordenada a relação entre os indivíduos; contudo, só no mundo histórico, identidade absolutamente contraditória de tempo e espaço, uno e múltiplo, ser e nada, criativo e sem fundamento, o mundo é temporal e realmente concreto em sua direção autoformadora, e espacial, ideal, abstrato e conforme à lei em sua direção autoexpressiva, sendo a lei a forma abstrata de sua autodeterminação.

18. No mundo histórico, aquilo que interage contém em si um ponto focal do mundo e, como um canto do mundo (angolo di mondo), forma o mundo inteiro por oposição e determinação mútuas ao longo do eixo do tempo histórico, de modo que a atividade do si como microcosmo é única, concreta e ligada ao tempo histórico, e ao mesmo tempo autonegação do mundo, autoexpressiva, ideal, abstrata e axiológica, não existindo valor que não se refira a um dever moral.

19. O mundo autoconsciente do si consciente, como aspecto autoexpressivo do mundo histórico, contém sempre uma autodeterminação objetiva e um aspecto temporal de meio infinitamente expressivo, e do ponto de vista do juízo é um ser predicativo no qual o predicado nunca se torna sujeito, em contraposição ao ser subjetivo de Aristóteles, coincidindo com o eu do “eu penso” kantiano que acompanha todas as representações, o que permite compreender a filosofia de Kant a partir desse ponto de vista, como já indicado no Ensaio sobre a filosofia de Descartes.

20. Agir não é simples determinação mútua de opostos que ignore a distinção entre fenômenos físicos e mentais, mas implica uma relação entre o indivíduo e a totalidade, como bem esclarece a metafísica de Lotze, exigindo que se pense em que mundo e em que lugar ocorre; por isso a atividade da consciência, como autoexpressão de um mundo singular, é o processo da autodeterminação singular que se forma de maneira autoexpressiva.

21. A vida começa onde o mundo contém em si sua autoexpressão e se forma, sendo primeiro biológica e instintiva em seu aspecto espacial e autonegativo, mas tornando-se sempre histórica ao concretizar-se em seu aspecto temporal e autoafirmativo, onde se opõem o aspecto negativo, como mundo material, e o positivo, como mundo da consciência.

22. A determinação que possui um aspecto autoexpressivo do mundo e contém seu ponto focal corresponde espacialmente ao instinto e temporalmente à atividade da consciência, e pela autodeterminação desse ponto focal no si constitui-se o mundo da liberdade, em que a vontade é a autodeterminação temporal em torno desse centro e a razão é a autodeterminação temporal que é sempre predicado e nunca sujeito; esse mundo da razão prática é o mundo moral de Kant, mundo da pura lei, no qual a vontade moral consiste em seguir a lei pela lei, como imperativo categórico.

23. O si torna-se pessoa ao reconhecer outra pessoa, e vice-versa, na identidade contraditória de dois indivíduos, o que corresponde ao princípio kantiano de tratar a humanidade sempre como fim e nunca como meio e ao mundo moral como reino dos fins, mundo do eu puro e do puro dever que constitui a quintessência da filosofia de Kant quando se aborda o mundo do ato objetivo a partir do simples si consciente.

24. Quando o mundo da identidade contraditória é determinado subjetivamente a partir de seu próprio ponto focal, torna-se causal, o mundo da natureza, temporal enquanto o uno é autonegação do múltiplo e espacial enquanto o múltiplo é autonegação do uno, e esquemático se esse ponto for tomado como eixo; nessa perspectiva, a coisa em si é o lugar da existência do próprio si, o mundo histórico imediato ao si, o que permite assimilar a filosofia de Kant à lógica do lugar.

25. O mundo histórico, em que a totalidade do uno e a multiplicidade dos indivíduos se relacionam por identidade contraditória, é sempre autoexpressivo, exprimindo-se por autonegação e por signos, e nele o aspecto subjetivo procede por autodeterminação autoafirmativa e o predicativo por autodeterminação autonegativa, ambos em relação de frente e verso (davanti e dietro), dentro e fora, sem fundamento próprio e sem constituir totalidade, como autodeterminação do universal dialético, isto é, do lugar.

26. O mundo que se forma no tempo e no espaço como identidade contraditória do uno e do múltiplo determina-se inteiramente por autonegação, isto é, exprimindo-se, e no limite dessa autonegação, como autodeterminação por signos, a atividade formadora torna-se atividade de juízo, na qual o aspecto predicativo e o subjetivo se opõem como atividade e objeto: o lugar assume o aspecto de objeto em relação à forma fixada e o aspecto de atividade em relação ao que se autodetermina em toda parte.

27. Da direção predicativa, onde o juízo é autodeterminação do universal, o aspecto subjetivo aparece como atividade pura que possui a si mesma, o que significa que o universal se possui numa autodeterminação sem fundamento próprio, particularizando-se e, no limite, individualizando-se, sem ser determinado pelas coisas individuais, mas possuindo-se ao negar o individualmente determinado, isto é, numa autonegação de sua própria autodeterminação.

28. A autodeterminação como atividade, isto é, como autodeterminação do lugar, é também autodeterminação em seu aspecto temporal, implicada em toda atividade da consciência, e por isso o mundo que se forma autoexpressivamente, em que exprimente e expresso são um, pode ser visto em seu aspecto subjetivo como o mundo da substância de Spinoza e em seu aspecto predicativo como o mundo lógico transcendental de Kant, sendo, desse ponto de vista, inteiramente racional, ao mesmo tempo dever e ser, no qual deves porque podes (tu devi in quanto puoi).

29. Em relação ao aspecto subjetivo, o universal possui-se numa autonegação em que se autodetermina, sendo unidade sintética como autonegação singular que é ao mesmo tempo autoafirmação do universal e tendo o caráter de consciência em geral, de modo que matéria e forma se opõem: o dado no aspecto subjetivo é individual e material, o dado no aspecto predicativo é formal e sintético, e a autodeterminação predicativa, como forma da estrutura cognitiva, pode ser considerada categorial (categorica).

30. No juízo, como autodeterminação do mundo que se exprime por signos, o aspecto do sujeito opõe-se ao do predicado e o do objeto ao da atividade, e embora se possa pensar o ser em cada uma dessas direções, a verdadeira realidade, que existe e se move por si, encontra-se apenas na identidade contraditória delas; assim, o si não existe apenas como ser predicativo ou atividade de juízo, mas como atividade volitiva, à maneira da autoformação do mundo histórico que forma a si mesmo na transição do criante ao criado (dal creante al creato) como identidade contraditória.