NISHIDA, Kitarō. Ser Humano (“Ningenteki sonzai”, 1938)
1. O mundo efetivo é mundo de determinação mútua de singularidades, mundo do lugar e do universal dialético, em que a singularidade, determinando-se inteiramente a si mesma e sendo singular apenas em oposição a outras, é mediada contraditoriamente, interna-soku-externamente e externa-soku-internamente (soku significando autoidentidade contraditória), mundo que se forma a si mesmo, não autotélico nem mecanicista, em que o dado é dado como feito e em que o sujeito (shutai) faz continuamente o meio e o meio faz o sujeito, falando-se por isso de mediação sem mediador e de mundo absolutamente dialético.
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A formação não é mera automediação interna, como o desenvolvimento biológico, nem mediação meramente externa.
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O numênico não pode ser concebido, interna ou externamente, como fundamento do mundo formador, pois, pensado assim, este seria mecanicista ou autotélico.
2. Tal mundo formador é mundo de forma expressiva, pois o movimento do feito ao que faz não é exprimível pela lógica formal: o feito passou, o passado não volta e deve ser nada, e o tempo, movimento do passado ao futuro, exige certa simultaneidade de ambos, surgindo porque o presente determina o próprio presente, de modo que deve ser concebido como continuidade de ruptura, mediado não interna nem externamente, mas pelo transcendente, pela negação absoluta e pela expressão criativa, sendo por isso singular e sendo todo mundo espaço-temporal, até o físico, mediado pelo transcendental e “espaço histórico”.
3. O mundo da autoidentidade contraditória, em que a singularidade é ao mesmo tempo mediada internamente e externamente por outras, forma-se absolutamente a si mesmo no movimento do feito ao que faz, que é a vida histórica, em cujo limite extremo o dado, a ser inteiramente negado, faz o mundo cair em autocontradição e a coisa singular, negando-se, torna-se autoconsciente e pessoal, surgindo a autoconsciência individual não como separação da atividade histórica de formação, mas como seu limite último.
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Dizer que o mundo é criativo é dizer que a singularidade se torna singular ao mediar-se a si mesma, sendo o mundo físico concebível como feito mas não fazedor e o mundo, como feito e fazedor, como vida infinita.
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Por isso a vida é convocada pela palavra material, e a intuição ativa é a provocação da ação pela expressão objetiva, sendo a poiesis própria do logos e o logos próprio da poiesis.
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O desenvolvimento criativo do mundo é a passagem do mundo da atividade instintiva ao da produção social, do corpo biológico ao corpo histórico, onde surge a consciência.
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No limite, a produção torna-se intelectual, produção sem produto, concebível como cogito ergo sum, autocontradição latente desde o início da vida do que, criado, cria.
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Nesse limite, a vida cai contraditoriamente na negação absoluta e contradiz infinitamente o que a exprime, o Absoluto, que ganha vida nova porque os seres humanos morrem.
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Mediado pela expressão objetiva do infinito absoluto, o mundo torna-se pessoal: o eu só é eu diante do tu, e a determinação mútua de singularidades torna-se determinação mútua do eu e do tu.
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O pessoal desenvolve-se da produção histórico-social dos eus corpóreos, e sem essa base a autoconsciência individual seria mera vontade abstrata, sem significado prático.
4. Afirmar que a formação histórica é mediada pela expressão objetiva ou que a vida é convocada pela palavra não significa que o sentido provoque a atividade nem que o mundo seja de sentido, mas que o mundo da atualidade histórica é mundo de coisas expressivas, de expressão material, em que coisa e expressão se ligam, sendo por isso dialético e já autocontraditório, e a ação intencional é o fazer coisas que surge dessa expressão material, na qual eu e coisa se medeiam pela negação absoluta.
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A coisa confronta o eu expressivamente ao pressioná-lo como eu presente, dado para ser negado, e não como mera substância material nem como mero sentido, seja uma pessoa diante do eu, seja o alimento diante do animal.
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No mundo histórico da atividade expressiva, pessoa e coisa se codeterminam dialeticamente, e nascer nesse mundo é trabalho e sofrimento e, ao mesmo tempo, criação.
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A expressão objetiva que medeia a formação é algo como a palavra no sentido cristão da “Palavra de Deus”, distinta do logos grego, aquilo pelo qual se vive e se morre e que tem significado criativo, embora a análise não parta da religião, mas da lógica da atividade histórica de formação.
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No mundo histórico o transcendental atua imanentemente, isto é, expressivamente, de modo simbólico ou semiótico, sendo nesse sentido o sentido algo efetivo, e essa mediação não é a de um deus ex machina.
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Contradição interna e intuição enquanto formação são dois lados de uma mesma coisa: da contradição interna surge transcendentalmente a forma, e quando o eu ativo parece desaparecer na contradição, a forma aparece em intuição ativa e dela o eu vive.
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A forma vista transcende a atividade e é o expressivo que exerce força através da expressão simbólica, mas nunca se separa da atividade, ligando-se a ela contraditoriamente e sendo vista como o que deve ser negado, pois a coisa provoca a atividade negando-se a si mesma.
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Para a lógica simbólica, isso pareceria imediato, com coisa e eu tornando-se um, sem nada que se possa chamar ver, quando ver concretamente exige que o eu ativo seja contraditoriamente envolvido, sempre diante da negação absoluta.
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Por isso a vida histórica em intuição ativa inclui essencialmente o momento da autoalienação, sem o qual não haveria vida, e no limite da autonegação o eu ativo-intuitivo torna-se mero eu cognoscente, sendo a vida radicalmente lógica e a lógica concreta uma lógica da formação expressivo-ativa.
5. Caracterizar o mundo da formação histórica como atividade expressiva não o torna hermenêutico ou artístico, pois nem a cognição vê o mundo de fora, mas surge no limite extremo da atividade histórica de formação, dentro do mundo do devir, e, no limite da criação do criador, o dado a ser inteiramente negado faz a formação, transcendendo o corpóreo, tornar-se atividade expressiva semiótica, isto é, intelecção, correspondendo o mundo dos objetos cognitivos a um “dever” intelectual que se impõe objetivamente como comando.
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O eu corpóreo histórico torna-se intelectual em sua ponta mais avançada, e o mundo visto pela autonegação desse eu não é constituído subjetivamente, mas aparece objetivamente, embora isso não seja reconhecido porque o eu intelectual se nega a si mesmo.
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Ver em atividade expressiva é a atividade envolvida dialeticamente no mundo das coisas, e também o mundo físico, no limite da autotranscendência do eu produtivo, é visto pela formação expressiva semiótica.
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O mundo do número pareceria transcender inteiramente o dado corporal, embora a matemática também se desenvolva historicamente, ao passo que o mundo da física parte sempre do dado corporalmente.
6. Ver o mundo como formação expressiva não é vê-lo subjetivamente, pois o mundo absolutamente dialético da complementaridade de sujeito e objeto transcende a atividade subjetiva, que emerge de seu movimento, e o mundo verdadeiramente objetivo não é o que se opõe como objeto cognitivo, mero mundo externo como o da coisa em si kantiana, mas o que nega absolutamente o sujeito e, ao mesmo tempo, o faz nascer, o mundo da coisa em si histórico-social, cuja matéria é expressiva e se move formadoramente, de modo que o que aparece é atualidade e existe efetivamente na medida em que se forma expressivamente.
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A ação intencional desenvolve-se da autoidentidade dialética de ver e agir, produtivamente.
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Fora da coisa que se mostra expressivamente não há mundo oculto da coisa em si, e uma materialidade sem expressividade formadora é mera materialidade pensada.
7. O mundo da matéria, como concebido pelo materialismo histórico, não se move mecanicamente nem se desenvolve biologicamente, mas forma-se continuamente em atividade expressiva, na produção, em que o ser humano faz o meio e o meio o faz, sendo a matéria histórica dotada de expressividade e a força física, antes, força de formação expressiva, força produtiva e criadora, e o mundo, mediado pelo nada absoluto, move-se do feito ao que faz de modo que o que faz nasce do fundo da negação absoluta.
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Que a coisa se exprima significa que ela se nega absolutamente e se torna nada, não mero latente, e ao mesmo tempo se faz aparecer e se sustenta, sendo assim que existe, princípio que talvez fundamente a concepção física da unidade contraditória de partícula e onda.
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A dialética anterior não tomou verdadeiramente a negação absoluta como mediação e subsumiu a expressão na atividade subjetivista, sem concebê-la como essência da coisa.
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O mundo histórico não é mediado externa nem internamente, nem é imediato como unidade estática de sujeito e objeto, própria da lógica do juízo.
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O feito entrou no passado, e do passado, necessidade sem liberdade, o que faz não pode surgir, sendo o movimento histórico afirmação da negação, nem mecânico nem teleológico: o passado, inteiramente determinado, é dado para ser negado, e sua negação é o nascimento do futuro.
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O passado é passado por negar o futuro e o futuro é futuro por negar o passado, constituindo-se o tempo como autoidentidade contraditória, e o passado dado para gerar o futuro é dado para ser visto em atividade expressiva, no espaço histórico da copresença de ambos.
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A ação intencional produtiva surge de ver a coisa, e mesmo quando no limite parece agir a partir de um eu abstrato, nunca se separa da constituição histórico-social, sendo até a ação moral sua continuação, donde se poderia pensar “deves, logo podes”.
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Por ser a força constitutiva histórico-social expressivo-ativa, a atualidade é lógica: a lógica atua dentro da atualidade, que se move segundo uma lógica dialética, e a lógica abstrata surge no limite de sua mediação negativa, quando a atividade expressiva se torna juízo.
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A socialidade da atividade histórica de formação decorre da própria expressividade da matéria histórica.
8. O mundo que se constitui em atividade expressiva como autoidentidade contraditória é mundo em que ver é agir e agir é ver, movendo-se do feito ao que faz em torno da atualidade histórica produtiva, onde a história vive, e sendo, por isso, mundo inteiramente mediado externamente, de causa e efeito, o mundo físico, embora visto inteiramente em atividade expressiva, ao passo que o mundo da atualidade produtiva não se reduz ao mecanicista nem ao teleológico, abstrações do movimento do feito ao que faz, sendo ser-enquanto-nada e nada-enquanto-ser.
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O feito entrou no passado e é coisa morta, mas no espaço histórico torna-se algo visto, que provoca a atividade expressiva, e sem entrar no passado nada poderia nascer, pois sem causa não há efeito.
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A substância física deve ser expressiva, sendo em um aspecto movimento ondulatório, e a atualidade histórico-corpórea, inteiramente mediada negativamente, torna o corpo inteiramente logos e a coisa inteiramente nominal.
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Quando a atualidade é pensada como o que passa e surge como efeito do passado rumo ao futuro, pode-se ver, transcendendo-a, o mundo físico expresso apenas matematicamente, sendo a forma matemática a forma pura da autoidentidade dialética de objeto cognitivo e atividade, e até o experimento físico um ver em atividade expressiva.
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O mundo da física contemporânea, dito não intuitivo, constitui-se inteiramente a partir da atualidade pela experimentação.
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O passado só é passado como o que o futuro nega, e não há passado sem futuro, e quando o futuro é pensado no passado concebe-se um mundo teleológico, sem produção nem autonomia da atividade, subsumida no objeto e o ver no visto.
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No mundo histórico nada é meramente dado, e até o mundo material, como feito e fazedor, torna-se meio do mundo histórico e adquire o caráter de passado como fundamento, pois na intuição ativa o visto existe apenas no aspecto do passado.
9. O mundo da atualidade histórica, sendo autocontraditório, transcende-se continuamente a si mesmo e, por isso, possui atualidade própria, tendo sua autoidentidade não em si, mas no absolutamente outro, sendo mediado pelo nada absoluto, isto é, pelo absolutamente transcendental, de modo que no presente histórico se toca o absoluto que não pode ser tocado, não havendo caminho do criado ao criador, mas sendo a atualidade sempre mediada por esse absoluto, que se mostra como lugar do confronto.
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O mundo físico e mesmo o mundo teleológico da vida biológica, como até aqui concebidos, não se transcendem nem se destroem a partir de dentro, sendo mera geração espontânea.
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Só quando o eu sai de si para o mundo pode-se falar de ser autocontraditório que se transcende continuamente a partir de si.
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O mundo que se forma em intuição ativa não tem autoidentidade nem no lado da coisa vista nem no lado do ver, nem é mediado externa nem internamente.
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O absoluto não é apenas inacessível, mas nem sequer pode ser confrontado, e a autoidentidade não existe neste mundo.
10. A atualidade histórica que se forma expressivamente transcende sempre a si mesma, e é como aspecto ativo desse mundo, elementos criativos de um mundo criativo, que os seres humanos têm vida e ser autocontraditório, tocando, mediados pela negação absoluta, o absoluto intocável, e é na vanguarda dessa vida, ao confrontar a expressão objetiva absolutamente infinita, a chamada palavra de Deus, que se tornam autoconscientes e pessoais, sendo verdadeiramente humanos apenas quando se situam no limite extremo dessa vida em suas atividades cotidianas.
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Também a vida animal é ser contraditório e historicamente formadora, pois, como disse
Hegel, os animais também celebram os mistérios heroicos, mas adere ao aspecto do feito, à superfície das coisas.
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A vida humana e a animal estão em polos opostos da vida histórica, que, como autoidentidade contraditória absoluta, possui ambos, sendo a vida cotidiana em grande parte animal no aspecto carnal e meramente costumeira no aspecto espiritual.
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Fora desse limite, a vida é apenas animal ou socialmente automática, pois, como diz
Bergson, o fluxo da evolução criadora solidifica-se como um lingote de ferro, e a vida histórica, inscrita na superfície do feito, torna-se automática e mecânica, o lado da morte.
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A vida vive enquanto é criativa em intuição ativa, e só o concreto é passível de corrupção, o que significa também poder tocar o absoluto.