Ser humano (II)

NISHIDA, Kitarō. Ser Humano (“Ningenteki sonzai”, 1938)

1. O mundo efetivo é mundo de determinação mútua de singularidades, mundo do lugar e do universal dialético, em que a singularidade, determinando-se inteiramente a si mesma e sendo singular apenas em oposição a outras, é mediada contraditoriamente, interna-soku-externamente e externa-soku-internamente (soku significando autoidentidade contraditória), mundo que se forma a si mesmo, não autotélico nem mecanicista, em que o dado é dado como feito e em que o sujeito (shutai) faz continuamente o meio e o meio faz o sujeito, falando-se por isso de mediação sem mediador e de mundo absolutamente dialético.

2. Tal mundo formador é mundo de forma expressiva, pois o movimento do feito ao que faz não é exprimível pela lógica formal: o feito passou, o passado não volta e deve ser nada, e o tempo, movimento do passado ao futuro, exige certa simultaneidade de ambos, surgindo porque o presente determina o próprio presente, de modo que deve ser concebido como continuidade de ruptura, mediado não interna nem externamente, mas pelo transcendente, pela negação absoluta e pela expressão criativa, sendo por isso singular e sendo todo mundo espaço-temporal, até o físico, mediado pelo transcendental e “espaço histórico”.

3. O mundo da autoidentidade contraditória, em que a singularidade é ao mesmo tempo mediada internamente e externamente por outras, forma-se absolutamente a si mesmo no movimento do feito ao que faz, que é a vida histórica, em cujo limite extremo o dado, a ser inteiramente negado, faz o mundo cair em autocontradição e a coisa singular, negando-se, torna-se autoconsciente e pessoal, surgindo a autoconsciência individual não como separação da atividade histórica de formação, mas como seu limite último.

4. Afirmar que a formação histórica é mediada pela expressão objetiva ou que a vida é convocada pela palavra não significa que o sentido provoque a atividade nem que o mundo seja de sentido, mas que o mundo da atualidade histórica é mundo de coisas expressivas, de expressão material, em que coisa e expressão se ligam, sendo por isso dialético e já autocontraditório, e a ação intencional é o fazer coisas que surge dessa expressão material, na qual eu e coisa se medeiam pela negação absoluta.

5. Caracterizar o mundo da formação histórica como atividade expressiva não o torna hermenêutico ou artístico, pois nem a cognição vê o mundo de fora, mas surge no limite extremo da atividade histórica de formação, dentro do mundo do devir, e, no limite da criação do criador, o dado a ser inteiramente negado faz a formação, transcendendo o corpóreo, tornar-se atividade expressiva semiótica, isto é, intelecção, correspondendo o mundo dos objetos cognitivos a um “dever” intelectual que se impõe objetivamente como comando.

6. Ver o mundo como formação expressiva não é vê-lo subjetivamente, pois o mundo absolutamente dialético da complementaridade de sujeito e objeto transcende a atividade subjetiva, que emerge de seu movimento, e o mundo verdadeiramente objetivo não é o que se opõe como objeto cognitivo, mero mundo externo como o da coisa em si kantiana, mas o que nega absolutamente o sujeito e, ao mesmo tempo, o faz nascer, o mundo da coisa em si histórico-social, cuja matéria é expressiva e se move formadoramente, de modo que o que aparece é atualidade e existe efetivamente na medida em que se forma expressivamente.

7. O mundo da matéria, como concebido pelo materialismo histórico, não se move mecanicamente nem se desenvolve biologicamente, mas forma-se continuamente em atividade expressiva, na produção, em que o ser humano faz o meio e o meio o faz, sendo a matéria histórica dotada de expressividade e a força física, antes, força de formação expressiva, força produtiva e criadora, e o mundo, mediado pelo nada absoluto, move-se do feito ao que faz de modo que o que faz nasce do fundo da negação absoluta.

8. O mundo que se constitui em atividade expressiva como autoidentidade contraditória é mundo em que ver é agir e agir é ver, movendo-se do feito ao que faz em torno da atualidade histórica produtiva, onde a história vive, e sendo, por isso, mundo inteiramente mediado externamente, de causa e efeito, o mundo físico, embora visto inteiramente em atividade expressiva, ao passo que o mundo da atualidade produtiva não se reduz ao mecanicista nem ao teleológico, abstrações do movimento do feito ao que faz, sendo ser-enquanto-nada e nada-enquanto-ser.

9. O mundo da atualidade histórica, sendo autocontraditório, transcende-se continuamente a si mesmo e, por isso, possui atualidade própria, tendo sua autoidentidade não em si, mas no absolutamente outro, sendo mediado pelo nada absoluto, isto é, pelo absolutamente transcendental, de modo que no presente histórico se toca o absoluto que não pode ser tocado, não havendo caminho do criado ao criador, mas sendo a atualidade sempre mediada por esse absoluto, que se mostra como lugar do confronto.

10. A atualidade histórica que se forma expressivamente transcende sempre a si mesma, e é como aspecto ativo desse mundo, elementos criativos de um mundo criativo, que os seres humanos têm vida e ser autocontraditório, tocando, mediados pela negação absoluta, o absoluto intocável, e é na vanguarda dessa vida, ao confrontar a expressão objetiva absolutamente infinita, a chamada palavra de Deus, que se tornam autoconscientes e pessoais, sendo verdadeiramente humanos apenas quando se situam no limite extremo dessa vida em suas atividades cotidianas.