NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.
Os Fenômenos de Consciência São a Única Realidade
1. Do ponto de vista do conhecimento direto e livre de suposições, a realidade consiste apenas nos fenômenos de consciência, isto é, nos fatos da experiência direta, sendo qualquer outra noção de realidade mera suposição gerada pelas exigências do pensamento, que, não ultrapassando o âmbito desses fenômenos, não possui capacidade mística de intuir uma realidade além da experiência, e cujas suposições a esse respeito são conceitos abstratos formulados para organizar sistematicamente os fatos da experiência direta.
2. O pensamento altamente crítico, que descarta toda suposição arbitrária e parte do conhecimento direto mais certo, é inteiramente incompatível com o pensamento que supõe uma realidade exterior aos fatos da experiência direta, contradição da qual nem grandes filósofos como Locke e Kant escaparam, impondo-se abandonar todo pensamento hipotético em favor do pensamento crítico, via também trilhada, na história da filosofia, por Berkeley e Fichte.
3. O fenômeno de consciência, habitualmente visto como algo que acompanha o sistema nervoso animal no domínio dos objetos materiais, revela-se, à reflexão, como o fato mais direto e primordial, anterior aos fenômenos materiais.
4. Embora se creia haver dois tipos de fatos experienciais, fenômenos de consciência e fenômenos materiais, há na verdade apenas os primeiros, sendo os fenômenos materiais abstrações de fenômenos de consciência comuns a todos e mantidos em relação invariável entre si.
5. A crença de que um númeno de qualidades fixas existe independentemente da consciência, dando origem aos fenômenos de consciência, não se sustenta, pois o númeno é algo imaginado pelas exigências do pensamento, e a existência da coisa, mera suposição explicativa.
6. Os materialistas, ao tomar a existência da matéria como fato indubitável e evidente e dela partir para explicar também os fenômenos mentais, invertem a ordem das coisas, pois, do ponto de vista da experiência pura, não há fatos independentes e autossuficientes à parte dos fenômenos de consciência, como na fórmula de Berkeley “Ser é ser percebido” (Esse est percipi), sendo o mundo constituído por esses fatos e todos os sistemas filosóficos e científicos meras explicações deles.
7. A expressão “fenômenos de consciência” não significa que só exista a mente separada da matéria, pois a verdadeira realidade não é fenômeno de consciência nem fenômeno material, e mesmo o “esse est percipi” diverge dessa posição, já que a realidade direta não é algo passivo, mas atividade independente e autossuficiente, devendo-se antes dizer: “Ser é agir”.
8. A reflexão profunda conduz inevitavelmente a essa conclusão, que à primeira vista contraria o senso comum e, ao explicar os fenômenos do universo, depara-se com diversas dificuldades, muitas das quais derivam não da adesão ao ponto de vista da experiência pura, mas de suposições dogmáticas a ele acrescentadas.
9. A primeira dificuldade é o risco de solipsismo e a questão de como se relacionam consciências supostamente independentes, que se resolve ao reconhecer que a exigência de que a consciência seja de alguém significa apenas que ela deve ter unidade, e que essa unidade não implica distinção absoluta em relação a outras unidades de consciência.
10. Todo o conteúdo do pensamento e do sentimento é geral, podendo comunicar-se entre pessoas separadas por milhares de anos ou de quilômetros, como um princípio matemático que é o mesmo sempre, em toda parte e para quem quer que o pense, ou como uma grande personalidade que influencia, une e governa muitos por meio de seu espírito comum, tornando o espírito do povo uma unidade.
11. A segunda dificuldade de tomar os fenômenos de consciência como única realidade consiste em saber de onde surgem e para onde vão, se não são coisas fixas, mas sucessão de eventos em constante mudança, questão oriunda da lei de causalidade, que exige relação de causa e efeito entre as coisas e cujas exigências precisam ser examinadas.
12. A lei de causalidade não exige uma coisa em si fixa por trás do fenômeno, mas significa, como disse Hume, apenas que ao surgimento de certo fenômeno precede necessariamente outro fenômeno determinado, sem nada além dos fenômenos, de modo que a suposta contradição entre o fato diretamente dado e essa lei resulta de sua má compreensão.
13. A lei de causalidade é, assim, um hábito de pensamento derivado das mudanças dos fenômenos de consciência, o que se evidencia quando, aplicada ao universo como um todo, cai em autocontradição, pois exige um começo do mundo e, fixado um ponto inicial, exige ainda a causa desse ponto, revelando sua própria imperfeição.
14. A terceira e última dificuldade é a exigência causal de que o ser não surja do nada, a qual não se aplica à consciência, que, não sujeita aos limites quantitativos de tempo, lugar e força nem à lei mecânica da causalidade, é inteiramente qualitativa e nela se desenvolve um “uno” oculto, sendo o que Hegel chama o infinito (das Unendliche).
15. Por isso a sensação de uma única cor inclui diferenças ilimitadas, que se tornam perceptíveis à medida que a consciência se torna mais precisa, e as discriminações sensoriais atuais provavelmente evoluíram por diferenciação, sendo possível um sistema como o de Wilhelm Wundt, que trata as qualidades das sensações em gradações diversas, justamente porque essas qualidades surgem da divisão de uma única entidade universal.