15-16 Conduta

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

Conduta (I)

1. Esboçada a realidade, cabe examinar questões práticas como o que se deve fazer, o que é o bem e qual deve ser o fundamento da ação humana, e, como os diversos fenômenos do domínio prático podem ser subsumidos na categoria de conduta, impõe-se primeiro esclarecer a natureza da conduta.

2. Vista de fora, a conduta é movimento do corpo, distinto de movimentos físicos como o fluir da água ou a queda de uma pedra por ser orientado a um fim e possuir certa consciência, e distinto tanto dos movimentos reflexos dos organismos, finalísticos mas inconscientes, quanto da ação instintiva dos animais superiores, finalística e algo consciente, mas sem conhecimento claro dos fins, sendo a conduta a ação física cujo fim é claramente conhecido na consciência, e só ela, entre os variados movimentos corporais humanos, inclusive reflexos e instintivos, pode ser chamada propriamente atividade do eu.

3. A conduta costuma acompanhar-se de movimento no mundo externo, mas seu elemento decisivo é a presença de um fenômeno de consciência no mundo interno, e, sendo ação física surgida de um fim consciente, isto é, ação querida, examinar a consciência nela envolvida é examinar a vontade, termo que indica sobretudo os fenômenos internos, enquanto conduta inclui a ação externa.

4. O corpo humano está fundamentalmente constituído para realizar movimentos adequados à preservação e ao desenvolvimento da própria vida, e a consciência que surge com eles é inicialmente simples sentimento de dor ou prazer, mas à medida que as ideias do mundo externo se tornam mais claras e a associação se ativa, os movimentos deixam de ocorrer inconscientemente em resposta a estímulos e passa-se a gerar primeiro a ideia de um resultado, depois a ideia dos movimentos que servem de meio para ele e, por fim, o movimento efetivo, surgindo assim a vontade.

5. O surgimento da vontade requer uma causa física ou mental que determine inicialmente a direção do movimento ou, em termos de consciência, a direção da associação, causa que aparece na consciência como uma espécie de sentimento impulsivo e que, sem indagar se é inata ou adquirida, pode ser chamada força da vontade ou, aqui, motivação.

6. A motivação deve acompanhar-se da ideia de um resultado, isto é, de um fim, adquirida pela experiência e evocada pela associação, ideia que se chama desejo, por nela já se estabelecer a forma da vontade, e que constitui seu primeiro estágio, de modo que um único desejo gera ações junto com uma ideia de movimento, e dois ou mais geram conflito, no qual o mais poderoso, ocupando a posição principal na consciência, produz a ação, o que se chama decisão, sendo a vontade a totalidade desses fenômenos e, em sentido estrito, a atividade no momento da passagem à ação ou à decisão.

7. O essencial da conduta é a vontade como fenômeno interno de consciência, e não a ação externa, de modo que o conceito de conduta abrange até atos puramente internos.

8. Do ponto de vista psicológico, a vontade é atividade que unifica ideias e, portanto, uma espécie de apercepção, pois das duas atividades que ligam ideias na consciência a associação tem a causa da união sobretudo em condições externas e direção obscura, sendo sentida como passiva, enquanto a apercepção tem a causa na própria consciência e direção claramente consciente, sendo sentida como união ativa.

9. A atividade aperceptiva da vontade relaciona-se com o pensamento e a imaginação, que também são apercepções, pois neles uma ideia unificadora serve de base para unificar conceitos de modo adequado a seus fins, sendo idênticos à vontade quanto ao papel das ideias e tidos por atividades distintas apenas porque diferem os fins das unidades e, portanto, suas leis, o que exige examinar em que se distinguem e em que coincidem.

10. A imaginação visa à imitação da natureza e unifica as ideias conforme o verdadeiro estado dela, enquanto a vontade visa ao movimento e as unifica conforme os desejos do eu, mas essa diferença é quantitativa e não qualitativa.

11. O pensamento visa à verdade e liga as ideias segundo as leis da lógica, não se querendo necessariamente o que se tem por verdadeiro nem se julgando verdadeiro o que se quer, e sua unidade é de conceitos abstratos, enquanto a da vontade e da imaginação é de ideias concretas, distinção que, à primeira vista evidente, não se sustenta com rigor.

12. As apercepções do pensamento, da imaginação e da vontade são atividades unificadoras fundamentalmente idênticas, sendo pensamento e imaginação unificações de ideias referentes a todos os aspectos do eu e das outras coisas, e a vontade unificação de ideias referentes apenas à ação do eu, de modo que aqueles são unidades meramente ideais, isto é, possíveis, e esta é unidade efetiva, culminação da unidade.

13. Também nas demais uniões de ideias, como a associação e a fusão, há unidade interna, pois na associação o fator que determina a direção da união, embora situado no mundo externo, difere apenas em grau, havendo atividade unificadora que não aparece claramente na consciência, e na amálgama de ideias a união é ainda mais inconsciente, sem que falte unidade interna, de modo que todos os fenômenos de consciência têm a mesma forma da vontade e, em certo sentido, são vontade, e, chamando-se eu à força unificadora em sua base, a vontade é a atividade que mais claramente o exprime e na qual mais claramente se tem consciência de si.

Conduta (II)

1. Tratada psicologicamente a conduta como fenômeno de consciência, resta examinar a origem da força unificadora da vontade que a fundamenta e o significado dessa força na realidade, o que exige esclarecimento filosófico do caráter da vontade e da conduta.

2. Do ponto de vista científico de que nada existe além da matéria, a unidade da vontade, que unifica internamente as ideias segundo um fim, proviria do corpo, organismo sistemático como o dos animais, que pelo sistema nervoso central realizam, com ou sem espírito, movimentos mecanicamente ordenados, reflexos, automáticos e instintivos complexos.

3. É difícil, porém, situar o fundamento da vontade na força material e explicar as exigências sutis e profundas da vida humana pelo mero desejo de viver, pois, ainda que o desenvolvimento de uma vontade elevada acompanhe o florescimento das funções vitais, o fim supremo está naquele e não neste, que é antes meio para ele, questão que se deixa para depois, cabendo agora indagar que capacidade se deve supor na matéria se a vontade surge da atividade física dos organismos.

4. O movimento teleológico dos organismos pode ser derivado da matéria de duas perspectivas, uma que concebe a natureza como teleológica e supõe na matéria uma força finalística latente, semelhante à que atua nas sementes, e outra que atribui à matéria apenas força mecânica e tem por fortuitos os fenômenos aparentemente finalísticos, perspectivas que, embora a segunda seja a dos cientistas rigorosos, não divergem fundamentalmente.

5. Contra essa perspectiva, é correto dar maior ênfase à síntese que à análise e ver a natureza finalística como avançando por estágios da diferenciação individual rumo a uma síntese maior, manifestando assim seu verdadeiro sentido.

6. Sendo o “corpo material” apenas nome dado a uma relação invariável entre fenômenos de consciência, não são os corpos materiais que geram a consciência, mas a consciência que os cria, e a vontade, força unificadora mais profunda da consciência, é também a expressão mais profunda da força unificadora da realidade, de modo que a natureza é expressão da vontade.

7. Essa perspectiva coincide com a dos cientistas que veem no movimento mecânico dos corpos e na finalidade dos organismos o mesmo fundamento da vontade e identificam as atividades dos corpos, dos organismos e da vontade, mas se opõe diametralmente a eles quanto ao que constitui esse fundamento, que para eles é a força material e aqui é a vontade.

8. Vontade e ação, embora tratadas como distintas na análise da conduta, não se relacionam como causa e efeito, mas são dois lados de uma mesma coisa, sendo a ação expressão da vontade e o que de fora se vê como ação, visto de dentro, vontade.