10 Realidade única

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

1. A realidade é a atividade da consciência, e a visão usual de que essa atividade surge em momentos particulares e logo desaparece, sem poder ligar-se eternamente como uma só, conduziria à conclusão de que a experiência de vida e o próprio desenvolvimento do universo seriam, como alucinações e sonhos vazios, pura confusão sem base unificadora, quando na verdade a realidade surge por inter-relação e o universo é a atividade única da realidade única (yui-itsu).

2. A atividade da consciência estabelece-se numa certa esfera em virtude de uma unidade, e a crença de que tal unidade não se estende além dela, como a de que as consciências de ontem e de hoje são totalmente independentes, é, do ponto de vista da experiência direta, distinção relativa e não última.

3. A união da consciência abrange a união simultânea da percepção, a contínua da associação e do pensamento e a que se estende por toda a vida na autoconsciência, diferindo em grau, mas partilhando o mesmo caráter, e a tese de que a consciência muda a cada instante e jamais se repete inverte a relação entre consciência e tempo, pois não é a consciência que se submete ao tempo, mas o tempo que se estabelece pela atividade unificadora da consciência.

4. Do ponto de vista da experiência direta, consciências de mesmo conteúdo são a mesma consciência, e assim como a verdade é a mesma não importa quando e por quem seja pensada, as consciências de ontem e de hoje, pertencendo ao mesmo sistema e tendo o mesmo conteúdo, unem-se diretamente numa só, sendo a vida de um indivíduo o desenvolvimento da consciência que constitui esse sistema único.

5. Na base da mente há sempre uma realidade imutável que amplia dia a dia o desenvolvimento da consciência, sendo a passagem do tempo a mudança contínua do centro unificador que acompanha esse desenvolvimento, centro que é sempre “o presente”.

6. A força unificadora imutável na base da consciência não se reduz ao cérebro, como pretende a psicologia, pois a suposição de um corpo material independente é inferência a partir da união invariável dos fenômenos de consciência, sendo o fato fundamental a atividade unificadora por trás dessa união, que não emerge de outra realidade, mas estabelece a realidade.

7. O princípio não se confunde com a atividade que rege a ligação das ideias na consciência subjetiva, que é apenas vestígio de seu funcionamento, pois ele é criativo e, embora se possa tornar-se ele e agir de acordo com ele, não pode ser visto como objeto da consciência.

8. Existir no sentido comum significa existir com certa forma em certo tempo e lugar, mas a existência do princípio é diversa, pois, restrito a um lugar, ele não poderia exercer sua função unificadora nem ser um princípio verdadeiro e vivo.

9. Assim como a consciência individual é uma realidade única em que se unem as consciências de ontem e de hoje, e a consciência de toda uma vida pode ser vista como singular, também a própria consciência pode ligar-se à de outrem e formar com ela uma só, pois há algo universal na base das consciências.

10. A união das consciências de duas pessoas e a das consciências de ontem e de hoje numa só pessoa são idênticas, parecendo a primeira indireta e externa e a segunda direta e interna, de modo que, vistas ambas de fora, as consciências presente e passada de uma pessoa ligam-se por signos de uma espécie de sensação interna, como as consciências entre indivíduos se ligam por signos linguísticos e outros, e, vistas ambas de dentro, as consciências entre indivíduos unem-se diretamente por um único fundamento comum.

11. O chamado mundo objetivo não existe à parte da subjetividade, pois sua força unificadora é idêntica à da consciência subjetiva e ambos se estabelecem segundo o mesmo princípio, razão pela qual se pode compreender o princípio fundamental constitutivo do universo pelo princípio interior ao eu, já que um mundo diverso da unidade da consciência seria inalcançável, e o mundo cognoscível e compreensível se estabelece por uma força unificadora idêntica à da consciência.