TREMBLAY, Jacynthe. Auto-éveil et temporalité: les défis posés par la philosophie de Nishida. Paris: l’Harmattan, 2007.
O tempo gira no agora eterno
1 — Transição para o agora eterno
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O agora eterno ocupa, na temporalidade, a posição abrangente que o nada absoluto ocupa na lógica do basho: o tempo, o presente e o si são compreendidos por suas relações de englobamento e autodeterminação, até o nível em que o agora eterno coincide, em última instância, com o basho do nada absoluto.
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O tempo tem seu lugar no presente, que engloba passado, presente e futuro cronológicos; o próprio presente, por sua vez, tem seu lugar no si, de modo que o verdadeiro si é aquele que se autodetermina como presente.
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A eternidade deixa de ser concebida como permanência alheia ao que passa: a história gira no agora eterno, e o presente constitui o lugar em que passado e futuro se encontram e se transformam.
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A proximidade com
Agostinho reside na recusa de reduzir o tempo a uma sucessão exterior ao espírito; a diferença decisiva está em situar o agora eterno na articulação efetiva entre temporalidade humana e história, e não além do mundo histórico.
2 — Uma lógica da história
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O aprofundamento histórico da filosofia de
Nishida desloca a primazia da consciência individual para o mundo no qual o si nasce, age e morre; o verdadeiro si constitui uma expressão singular desse mundo, ao mesmo tempo que o transforma.
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Mundo e indivíduo mantêm uma relação de determinação recíproca: o mundo histórico constitui o si, mas a ação do si modifica o mundo, impedindo que qualquer dos dois seja tomado como princípio isolado e imóvel.
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A relação religiosa também se estabelece historicamente, pois o encontro entre o ser humano e Deus não pode ser separado da vida concreta, das relações com outros e da história em que ambos se manifestam.
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Uma concepção religiosa do mundo nasce do próprio mundo histórico como lugar da revelação e da autonegação divina; ela se concentra nas condições efetivas da existência e da ação, em vez de reduzir a relação religiosa a uma experiência interior excepcional ou à observância exterior de ritos e dogmas.
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O budismo acentua a imanência e o cristianismo acentua a transcendência, mas uma compreensão mais ampla da religião exige sua articulação: a transcendência se manifesta na imanência sem se confundir simplesmente com ela.
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O «fundo ordinário» (fond ordinaire) da vida cotidiana constitui o basho dessa articulação, pois nele o próximo e o distante, o humano e o divino, a imanência e a transcendência podem relacionar-se sem perder suas diferenças.
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A transcendência imanente designa, assim, a profundidade da existência histórica comum na qual o si, o mundo e o divino se implicam reciprocamente.
3 — O nunc æternum
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Em
Platão, o tempo aparece como imagem móvel da eternidade, enquanto a eternidade permanece una e transcende a sucessão; o agora eterno nishidiano requer, porém, que passado e futuro infinitos sejam reunidos e negados no ponto presente em que o tempo efetivamente surge.
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A plenitude do tempo aproxima o agora eterno da possibilidade de reunir no instante aquilo que ocorreu e aquilo que ocorre, fazendo do presente uma abertura à totalidade temporal, e não apenas uma posição numa série de instantes.
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Em
Agostinho, passado e futuro só se tornam acessíveis como presente do passado e presente do futuro no espírito, ao passo que a eternidade divina, sem sucessão, fornece o horizonte pelo qual a distensão e a finitude do tempo humano se tornam pensáveis.
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A criação do mundo e do tempo exclui um «antes» temporal da criação: a anterioridade divina exprime uma relação de transcendência, pois não poderia haver um tempo anterior à origem do próprio tempo.
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O contraste agostiniano entre o presente eterno e o presente que passa intensifica a experiência humana da temporalidade, marcada pela distância entre memória, atenção e expectativa.
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A retomada nishidiana desloca essa relação: a eternidade não se limita a um horizonte situado fora da história, pois o agora eterno engloba o tempo e se manifesta na autodeterminação do presente histórico.
4 — O papel da vontade
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A vontade reúne diretamente o si presente e seus atos passados, de modo que a unidade da consciência não depende da simples continuidade objetiva entre estados psíquicos, mas do contato imediato entre vontades.
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A vontade transcende a sucessão temporal sem abandonar a existência concreta: como unidade ativa da consciência, ela contém o tempo em si e torna possível a combinação de experiências físicas, psíquicas e históricas.
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O impulso e a vontade permanecem presentes mesmo quando se dirigem ao passado ou ao futuro; a vontade de conhecer a verdade, por exemplo, não se reduz ao instante cronológico em que determinado pensamento ocorre.
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O contato imediato entre a vontade atual e as vontades passadas manifesta o agora eterno como profundidade atuante do presente, na qual momentos distintos pertencem a uma mesma unidade sem perder sua diferença.
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O si presente se autodetermina historicamente como basho da temporalidade: memória, atenção e expectativa são formas de sua relação com passado, presente e futuro, e esses momentos constituem, por sua vez, modos de autodeterminação do agora eterno.
5 — O basho e suas determinações
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O tempo retilíneo só se torna efetivo porque o presente se autodetermina; esse presente engloba os três momentos cronológicos e possui a profundidade do universal do nada, que não recebe sua determinação de um princípio anterior.
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O agora eterno exprime essa autodeterminação no nível mais abrangente da temporalidade: o tempo nasce nela e nela desaparece, enquanto o presente, o si e os acontecimentos históricos constituem determinações relacionadas entre si.
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A autodeterminação não é uma produção unilateral de conteúdos por um princípio fixo, pois aquilo que se determina e aquilo que surge como sua determinação mantêm relações dinâmicas de modificação recíproca.
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O nada absoluto não constitui uma coisa originária da qual o mundo emanaria para depois retornar; sua autonegação torna pensáveis a realidade histórica, a diferença entre seus níveis e as relações que continuamente os transformam.
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O indivíduo singular excede o universal do juízo, que classifica objetos segundo predicados; sua singularidade exige o basho mais abrangente do nada, no qual pode autodeterminar-se e participar da determinação do mundo.
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O tempo também excede a determinação por conceitos e objetos: compreendê-lo como autodeterminação do nada absoluto permite pensar conjuntamente sua sucessão, a singularidade de seus momentos e seu fundamento no presente.
6 — A autodeterminação do agora eterno
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A determinação do agora eterno ocorre quando o presente se autodetermina: tempo que passa e eternidade entram em contato nesse presente, cuja profundidade constitui o sentido efetivo da eternidade.
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O presente absoluto reúne passado e futuro infinitos sem fixar-se como ponto imóvel; a cada instante pode iniciar um curso temporal novo, razão pela qual o tempo gira no agora eterno.
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O agora eterno assemelha-se a um círculo sem circunferência, cujo centro está em toda parte: cada presente constitui uma de suas inúmeras determinações circulares e um centro possível de temporalidade.
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Seu caráter espacial designa a função de basho, isto é, a capacidade de englobar tempos distintos; não se trata de um espaço físico, mas do lugar em que momentos e direções temporais podem relacionar-se.
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No presente histórico, o passado ainda atua embora já tenha desaparecido, e o futuro já se anuncia embora ainda não tenha chegado; ambos se unem por uma identidade contraditória que conserva sua oposição.
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Tempo e espaço constituem direções inseparáveis da formação do mundo concreto: a análise abstrata pode distingui-los, mas a autodeterminação do presente articula a sucessão dos acontecimentos e a coexistência de suas múltiplas determinações.
7 — A determinação dialética do tempo
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O tempo toca o agora eterno em cada instante ao desaparecer e nascer: sua extinção exprime o aspecto da morte, e seu surgimento exprime o aspecto da vida, formando uma continuidade da descontinuidade.
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A determinação a partir do passado vincula o ser humano à matéria, ao corpo e à necessidade de um meio que o precede; a determinação a partir do futuro abre a liberdade pela qual ele age e transforma esse meio.
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O si atuante reúne as duas direções: é constituído corporalmente por um passado que não escolheu e, ao mesmo tempo, participa da criação de seu futuro e da transformação do mundo que o determina.
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Vida e morte constituem aspectos reciprocamente implicados da autodeterminação do agora eterno; o mundo objetivo tanto limita e nega o indivíduo quanto oferece o lugar em que ele nasce, vive e age.
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A vida humana não se esgota nas determinações biológicas ou cósmicas, pois sua dimensão histórica envolve ação pessoal, relações sociais e a abertura de possibilidades que ultrapassam o passado dado.
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A determinação oriunda do futuro assume a forma do dever: ao agir segundo uma exigência que ultrapassa seus impulsos, o indivíduo manifesta concretamente sua liberdade e sua condição de autodeterminação do agora eterno.
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A história gira no agora eterno porque, a cada época, indivíduo e meio se determinam reciprocamente no plano em que morte e vida, necessidade e liberdade se encontram.
8 — O auto-despertar do nada absoluto
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O tempo se estabelece e desaparece na autodeterminação do agora eterno, que é também autodeterminação do nada absoluto; por isso, nenhum momento pode simplesmente retornar ao anterior ou assegurar uma ligação definitiva entre passado e futuro.
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O auto-despertar do nada absoluto designa o plano em que o tempo começa e termina a cada ponto, permitindo que inúmeros presentes e inúmeras temporalidades se estabeleçam sem depender de uma única linha objetiva.
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A direção noemática do auto-despertar corresponde à determinação temporal contínua e objetivável, enquanto a direção noética, mais abrangente, engloba essa continuidade e alcança a profundidade atuante da vida social.
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A relação entre noese e noema é dinâmica: aquilo que engloba uma determinação pode, por sua vez, ser englobado por outra mais profunda, e cada conteúdo surge como autodeterminação do basho em que se situa.
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O mundo da natureza exprime predominantemente a direção noemática, ao passo que o mundo histórico e a determinação social aprofundam a direção noética, na qual seres atuantes participam da formação do mundo.
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Situado nessa dimensão social e histórica, o si concreto engloba o tempo ao agir a partir do presente e em direção ao futuro; sua vida reúne determinação recebida e capacidade de transformar aquilo que a determina.
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O movimento temporal apresenta continuidade do ponto de vista noemático, mas, do ponto de vista noético, consiste no nascimento e desaparecimento de momentos irredutíveis: a continuidade resulta da articulação dialética dessas descontinuidades.
9 — O instante, limite da determinação do presente
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O instante constitui o limite mais profundo da autodeterminação do presente: não pode ser fixado como objeto ou ponto de uma duração, pois é justamente aquilo a partir do qual o tempo se determina.
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A imagem de um cone cuja base se amplia à medida que seu vértice se aprofunda exprime a relação entre a profundidade do instante e a abrangência do tempo; compreendida a partir da autodeterminação do instante, a própria extensão temporal encontra nele sua condição.
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Entre movimento e repouso, o instante marca a possibilidade da passagem de um estado ao outro sem pertencer a uma duração intermediária; sua profundidade dialética simultaneamente nega e torna possível a oposição.
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Passado e futuro infinitos procedem da determinação do instante, na qual os fatos se autodeterminam, desaparecem e surgem; a continuidade retilínea do tempo é a expressão objetiva desse processo descontínuo.
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Cada instante mantém sua singularidade em relação aos demais, mas sua passagem a outro não depende de uma ligação objetiva exterior: ocorre pela autonegação que o atravessa e o relaciona ao nada absoluto.
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O presente é o meio abrangente em que os instantes se autodeterminam e se determinam reciprocamente, assim como os indivíduos são constituídos por seu meio e, em retorno, participam da determinação dele.
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A dialética do basho reúne instantes e indivíduos sem dissolver suas diferenças num universal fixo; sua unidade nasce da negação absoluta que atua no fundo de cada determinação singular.
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O si livre é o instante que se autodetermina como auto-despertar do nada absoluto: ao englobar seu próprio tempo, não recebe uma essência definitivamente pronta, mas se constitui continuamente em suas relações e ações históricas.
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A unidade entre o «eu» de ontem e o «eu» de hoje depende dessa autodeterminação do instante, que une consciências distintas mediante uma continuidade da descontinuidade.
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Na decisão em que a própria vida está em jogo, o si toca a eternidade no fundo do instante; essa eternidade nasce e morre com a autodeterminação do presente, permanecendo inseparável da existência histórica.