2 Zen

Oriente de Heidegger. Barcelona: Herder, 2004

A CONFRONTAÇÃO COM O BUDISMO ZEN

1. PRIMEIROS ENCONTROS

1. Já nos anos vinte Heidegger teve a possibilidade de estabelecer contatos diretos e indiretos com estudiosos budistas japoneses, como recorda K. Tsujimura em seu discurso pronunciado em Meßkirch em 26 de setembro de 1969, por ocasião da celebração do octogésimo aniversário de Heidegger, quando no ano de 1921 um japonês estudou pela primeira vez com o pensador durante sua docência em Friburgo, chamado Tokuryū Yamanouchi, mais tarde fundador do Instituto de Filosofia Grega na Universidade de Kioto, e um ano depois, em 1922, chegou a Friburgo seu mestre Hajime Tanabe, que foi, a seu ver, o primeiro a descobrir a importância do pensamento heideggeriano não só no Japão, mas talvez no mundo inteiro.

2. Naqueles anos, apenas eram acessíveis aos leitores ocidentais pouquíssimos textos sobre o zen: os artigos publicados em The Eastern Buddhist, a revista da Eastern Buddhist Society de Kioto, publicada de forma irregular desde 1921 a 1939 sob a direção de D. T. Suzuki, mas sobretudo, em tradução alemã, K. Okakura, Der Buch des Tee (O livro do chá) (1919) e Die Ideale des Ostens (Os ideais do Oriente) (1923); R. Otto, Zazen als Extrem des numinosen Irrationalen (1923); Id., Meister Eckeharts Mystik im Unterschiede von östlicher Mystik (1925); Id., Die östliche Buddhist (1925); Id., West-Östliche Mystik (1926); K. Nukariya, The religion of the Samurai (1923); Zen, der lebendige Buddhismus in Japan (ed., S. Ohasama – A. Faust) (1925, com Prefácio de R. Otto).

2. O ENCONTRO COM SHUZO KUKI

1. A profunda amizade que uniu Heidegger e Shūzō Kuki (1888-1941), um pensador que reveste uma singular importância dentro do panorama filosófico japonês e europeu do século passado, remonta ao período marburguês, quando durante uma longa estância na Europa por estudos, de 1921 ao final de 1928, Kuki conheceu Rickert e Herrigel em Heidelberg, Husserl em Friburgo e Heidegger em Marburgo (verão 1927 – verão 1928) e, finalmente, ao jovencíssimo Sartre em Paris, que soube de Heidegger pela primeira vez pelo refinado barão japonês.

2. D. T. Suzuki, num escrito que será comentado mais adiante, recorda que antes de se despedirem, Heidegger lhe mostrou três ou quatro fotos da tumba de Kuki, e que Kuki, terminados seus estudos com Heidegger, foi-se a Paris, onde, buscando um professor de francês, encontrou nada menos que Sartre, que soube da filosofia de Heidegger por Kuki, e que ao ver as fotos lhe veio à mente que a caligrafia sobre a lousa sepulcral é uma das últimas caligrafias de Nishida, cuja mulher lhe contou que se havia fatigado muitíssimo ao compô-la, vindo-lhe à mente que talvez também por isso a doença de Nishida se agravou.

3. A TRADUÇÃO JAPONESA DE WAS IST METAPHYSIK?

1. Outro episódio importante, que Heidegger recordou em diversas ocasiões, situa-se no começo de seu período docente em Friburgo: a tradução imediata ao japonês, em 1930, de Was ist Metaphysik? (Que é metafísica?), a cargo de seu aluno Seinosuke Yuasa (1905-1970), tendo Heidegger assinalado repetidas vezes a plena compreensão que este texto alcançou no ato no Japão frente à errônea interpretação de nihilista que recebeu na Europa.

2. Compare-se com a seguinte passagem da carta aberta de Heidegger a Takehiko Kojima de 18-8-1963, que se apresenta a seguir: um dos primeiros escritos (Was ist Metaphysik?, 1929) caracteriza a situação pela qual o homem corresponde à chamada do Ser, preparando assim um lugar de custódia para sua manifestação (Offenbarkeit), com a expressão: o homem é o lugartenente da Nada.

3. Do mesmo modo, no discurso de agradecimento pronunciado em 1969 em Meßkirch para a cerimônia de celebração de seu octogésimo aniversário, dirigindo-se a K. Tsujimura, Heidegger disse que em 1929, como sucessor de seu mestre Husserl em Friburgo, ofereceu uma dissertação com o título Was ist Metaphysik?, na qual o discurso versava sobre a nada, tendo intentado mostrar que o ser, diferentemente de todo ente, não é um ente e que, neste sentido, é uma nada.

4. A CONVERSAÇÃO COM DAISETZ TEITARO SUZUKI

1. Se no final dos anos 30 Heidegger está em contato com K. Nishitani, que assiste em Friburgo a suas lições sobre Nietzsche e o nihilismo, é nos anos 50 e 60 quando as relações com os estudantes budistas japoneses se intensificam, sendo a primeira entrevista documentada a já mencionada, que teve lugar com D. T. Suzuki em 8 de julho de 1953.

2. Refere Suzuki que conversaram durante uma longa hora, sendo o tema principal da conversa o pensamento em sua relação com o ser, e quando disse que o ser está ali onde o homem que medita sobre o ser se adverte a si mesmo, sem por isso separar-se do ser, o professor Heidegger lhe perguntou de que forma pode ser expresso isso linguisticamente, e quando a respeito desta questão lhe falou de Tokusan, o professor, sem fazer nenhum comentário, mostrou sua aprovação em silêncio.

3. E, a propósito da confrontação entre o pensamento ocidental e o oriental, Suzuki conta que perguntou a Heidegger o que pensava da filosofia de Nishida, e a resposta foi: Nishida é ocidental.

5. A CONVERSAÇÃO COM TOMIO TEZUKA

1. Mais rico em referências teoréticas é o relato já citado que T. Tezuka faz do mesmo diálogo que Heidegger reconstrói no citado Gespräch, sendo T. Tezuka (1903-1983), docente de Literatura Alemã na Universidade de Tóquio, autor de estudos sobre a poesia alemã contemporânea e tradutor, além de textos de Heidegger sobre Hölderlin e Rilke, de textos de Goethe, Hölderlin, Kleist, Rilke, Nietzsche e Hesse.

2. A seguir, a propósito da sensibilidade artística japonesa, na que uma Ding minúscula ou uma Sache insignificante eleva seu significado, seu ser-assim, por estar situada num espaço vasto e através do sensível é suscitado o espiritual, Heidegger perguntou quais são em japonês as palavras correntes que expressam Erscheinung, o fenômeno, e Wesen, a essência, não se referindo à terminologia técnica, e se não se encontram na linguagem habitual as palavras correspondentes.

3. Depois, prossegue Tezuka, se falou sobre o filme Rashomon, do que Heidegger quis saber qual era sua fonte literária e ao que definiu como interessante, dizendo Tezuka que a espécie de indeterminação que mostra este filme acerca do conhecimento da realidade, talvez pudesse haver-lhe interessado como um rasgo oriental, e se pode ou não considerar-se a esta obra uma representação pura do carácter oriental é outra questão.

6. AS CONVERSAÇÕES COM HÓSEKI SHIN'ICHI HISAMATSU

1. Em 18 de maio de 1958 na Universidade de Friburgo, Heidegger e Hóseki Shin'ichi Hisamatsu conduziram um breve seminário no que participaram, entre outros, K. Tsujimura, Max Müller e Egon Vietta.

2. A discussão se inicia com a petição dirigida por Heidegger a Hisamatsu de precisar a noção japonesa de arte ou o próprio termo que a designa, ao que Hisamatsu responde que a resposta é simples: arte no sentido moderno (ocidental-estético) existe no Japão desde há uns 70 anos e é uma tradução, e os japoneses adotaram todos os conceitos ocidentais e os traduziram a partir das raízes antigas próprias, e na tradução destes conceitos ocidentais se formaram sobretudo nomes compostos, e assim Gei significa originariamente arte como capacidade, habilidade, e o composto Gei-jitsu é, em cambio, a tradução do conceito ocidental-estético de arte.

3. Quanto à relação entre a arte e o budismo zen, Hisamatsu acrescenta que na arte zen a capacidade tem um duplo significado: em primeiro lugar, o homem é conduzido da realidade à origem da realidade, sendo a arte uma via com a qual o homem é introduzido na origem; em segundo lugar, a arte encontra sentido no fato de que o homem, uma vez introduzido na origem, volta à realidade, consistindo a essência autêntica da arte zen neste retorno.

4. Neste ponto, Heidegger e Hisamatsu intercambiam o denso diálogo que segue sobre o carácter da obra de arte, no qual Heidegger diz que gostaria de voltar sobre a conversa que manteve em Viena com o senhor Hisamatsu, para poder dar um passo adiante na questão que os ocupa: o ser da arte europeia se distingue pelo carácter da apresentação, apresentação, Eidos, fazer visível, e ao contrário, no mundo asiático, a apresentação é um obstáculo, e o que há numa imagem, a imagem que faz visível, constitui um impedimento.

5. Chegamos assim, desde uma perspectiva meontológica, ao momento mais interessante, quando Hisamatsu diz que no Ocidente a origem é em algum modo um ente, eidético, e no zen a origem é informe, o não-ente (nicht-Seiende), e no entanto, este não não é uma mera negação, e esta Nada carece de toda forma, com o qual, enquanto que totalmente informe, pode se mover totalmente livre, sempre e por todas as partes, e neste movimento livre consiste o movimento pelo qual a obra de arte é produzida.

6. Hisamatsu diz que está completamente de acordo com o criar-espaço, e que este criar espaço deve estar sempre livre de toda atadura, deve estar desligado da objetividade e da validez, sendo o livre obrar da vida, próprio da verdade zen mesma, e nisso consiste a beleza de uma obra de arte no zen: o informe se apresenta em algo figurativo, e sem este apresentar-se do Si mesmo informe no formal, a obra de arte zen é impossível, e a beleza no zen deve ser pensada, portanto, sempre junto à liberdade do Si mesmo originário.

7. Heidegger conclui o seminário dizendo que ficou claro que nós com nossas representações (isto é, com a representação de uma via direta e contínua) não podemos chegar ali onde os japoneses estão já, e gostaria de concluir com um kōan, o kōan preferido do Mestre Hakuin: (erguendo uma mão) escuta o som do aplauso de uma só mão!

8. No dia seguinte, 19 de maio de 1958, teve lugar uma conversa privada entre Heidegger e Hisamatsu na residência de Heidegger em Friburgo, gravada por um aluno japonês de Hisamatsu e publicada no Japão, encontrando-se agora em Japan und Heidegger, com o título Wechselseitige Spiegelung (Espelhamento recíproco).

9. Logo depois, Hisamatsu pergunta a Heidegger sobre os desenvolvimentos mais recentes de seu pensamento, e este, referindo-se à mencionada conferência sobre George, diz que tem ideias novas, mas ainda não definidas de todo, que as pôs por escrito, mas ainda não as apresentou, e avança lentamente, passo a passo, dependendo da linguagem.

7. A CORRESPONDÊNCIA COM TAKEHIKO KOJIMA

1. Em 1965, por iniciativa de Heidegger, foi publicado na revista suíça Begegnung (Encontro), com o título Martin Heidegger, Briefwechsel mit einem japanischen Kollegen (Martin Heidegger, correspondência com um colega japonês), agora novamente publicado em Japan und Heidegger, um intercâmbio epistolar entre Takehiko Kojima e Heidegger mantido dois anos antes.

2. Quando a conferência foi difundida no Japão, diz Kojima, lhes pareceu quase como se Heidegger, professor, houvesse querido dirigir-se a eles os japoneses, e de fato, sobretudo no Japão, explica Kojima, a época da noite do mundo se empobrece cada vez mais, ou bem, citando ao próprio Heidegger, já se empobreceu tanto que não é capaz de reconhecer a falta de Deus como uma falta.

3. No entanto, a Kojima lhe parece que precisamente esta questão escatológica fica obstruída para a consciência extremo-oriental e japonesa, e os japoneses se sentem custodiados pelo abraço da natureza, e para o japonês, a natureza é um sentimento do Ser omnicompreensivo, aberto, no que se percebe uma sede que quereria apurá-lo tudo até o fundo.

4. Na sua carta, datada em 18 de agosto de 1963, Heidegger articula a intervenção de Kojima em três perguntas: (1) Que significa europeização do mundo? (2) Que se entende com a expressão ausência do homem? (3) Onde se mostra um caminho para a peculiaridade do homem?

5. No entanto, explica Heidegger, para que este discurso sobre a europeização do mundo não se fique num título histórico-geográfico superficial, faz falta meditar sobre a peculiaridade da potência do instalar e se perguntar se o pensamento ocidental com sua tradição tem a capacidade para fazê-lo, e em realidade, o pensamento ocidental-europeu que, por primeira vez, se interessou por esta potência do instalar e foi planteado desde ela, em sua forma até agora existente, já não é suficiente para interrogar a potência do instalar desde sua peculiaridade.

6. Todo isto mostra, segundo Heidegger, que a assunção do homem no comissionar (isto é, para a exploração do mundo como algo técnico) demonstra a pertença do homem à peculiaridade do Ser, e esta forma o que é próprio de sua humanidade, pois só no fundamento de sua pertença ao Ser, o homem pode advertir (vernehmen) o Ser.

8. A CONVERSAÇÃO COM MAHA MANI

1. Na sua biografia, como já se disse, H. W. Petzet dedica um longo parágrafo, Der Mönch aus Bangkok (O monje de Bangkok), ao interesse de Heidegger pela cultura asiática, e além dos detalhes já mencionados, neste capítulo recorda os encontros com os alunos japoneses, sobretudo com Sh. Kuki; a amizade com Julius Bisser e Mark Tobey, artistas sensíveis à arte zen; a amizade, desde os tempos das conferências privadas no sanatório Bühlerhöhe, com Emil Preetorius, durante muitos anos diretor da Academia de Belas Artes de Munique, grande experto e colecionador de arte asiática; a competência que Heidegger demonstrava acerca da arte zen; a aversão, comum a ambos, para com a língua inglesa; mas também a atitude prudente, se não cética, com que comentava o interesse despertado no Japão.

2. Em cambio, quase todo o capítulo está dedicado à minuciosa descrição de uma conversa privada que Heidegger manteve com Maha Mani, um monje budista tailandês de tradição Theravada, tendo a conversa tido lugar em 27 de setembro de 1964 na residência de Heidegger em Friburgo, e no dia seguinte, nos estúdios Südwestfunk em Baden-Baden, se haveria realizado a gravação e a retransmissão televisada de um debate entre ambos sobre o papel da religião.

3. Assim, descreve Petzet a Maha Mani: o monje veste uma simples toga de linho, cor rosa (que, segundo se diz, denota o rango mais elevado da Ordem), e esta recorda a toga da antiguidade colocada igualmente para trás sobre o ombro direito, e caminha com os pés descalços, com levíssimas sandálias abertas, que deixam livres os pés e o maléolo, e seus pés são tão menudos como suas mãos, de dedos delicados.

4. A conversa se desenvolveu em inglês, Petzet fez de intérprete, e conta que já desde o início, sobre o tema da técnica, a compreensão se faz difícil, e o discorrer da língua inglesa em cada palavra faz compreender claramente o pouco apta que resulta superadas as coisas banais, e por outra parte, o monje adverte muito bem que aqui não tem cabida a banalidade, e disgustado, sacode a cabeça e murmura que em inglês não saberia achar nenhuma palavra adequada para o que quer perguntar ou dizer.

5. Em síntese, a conversa tratou sobre a questão do Ser planteada por Heidegger, a conexão essencial entre a filosofia e a ciência modernas e a técnica, e as dificuldades de um encontro entre o pensamento ocidental e o oriental.

6. Por último, um ponto decisivo, cedemos a palavra a Petzet: Heidegger havia falado de abandono, de abertura ao mistério, e assim, ao final se fala da essência da meditação (Meditation): que significa para o homem oriental?, e o monje responde com total simplicidade: recolher-se.

7. Ao final de seu relato, Petzet volta sobre o desacordo entre Heidegger e Maha Mani sobre as possibilidades da tecnologia e dos meios de comunicação de massas: aproximadamente um ano depois do encontro com o monje (ou talvez mais?), um dia lhe chamou: queria lhe comunicar algo triste: o monje com quem teve aquela agradável conversa abandonou sua ordem e aceitou um posto numa sociedade televisiva americana.

9. UM TESTEMUNHO DE KÖICHI TSUJIMURA

1. Concluímos apresentando um fragmento significativo de um texto de Kōichi Tsujimura, aluno de filosofia de H. Tanabe e K. Nishitani e, na prática do zen, de H. Sh. Hisamatsu e D. R. Ōtsu, tendo K. Tsujimura (nascido em 1922) estudado desde 1956 a 1958 com Heidegger em Friburgo.

2. Considerado por Heidegger um excelente filósofo, pronunciou em 1969 em Meßkirch, como se recordou, o discurso para o octogésimo aniversário do pensador, no qual, além de delinear os motivos do profundo interesse japonês pelo pensamento de Heidegger, leva a cabo uma interpretação magistral da passagem de Heidegger dedicada à árvore em flor (em Was heißt Denken?, Tubinga, 1954; trad. cast., ¿Qué significa pensar?, cit.), enlaçada com a do célebre Kōan de Chao-Chou do cipreste no jardim.

3. Tsujimura pergunta se há então uma afinidade entre o pensamento de Heidegger e o budismo zen, e responde que sim, e que ainda que não suficientemente aclarada, há uma afinidade muito íntima, na qual, no entanto, se abre um profundo sulco, e pergunta onde se adivinha esta afinidade, podendo aduzir aqui só um exemplo.

4. Mas, pergunta Tsujimura, onde se abre o profundo sulco que mantém separados um do outro ao pensamento de Heidegger e o budismo zen?, e responde que é difícil de nomear, se não se quer fazer desaparecer esta vagada invisível, que é uma e idêntica para ambos os flancos, numa mera uniformidade, e no entanto, até o mais obscuro abismo pertence ao céu e, isto é, à Abertura, pois o céu reina inclusive no abismo.