1 Taoismo

Oriente de Heidegger. Barcelona: Herder, 2004

1. O INTERESSE POR CHUANG-TZU

1. A primeira confrontação documentada de Heidegger com o taoísmo é o episódio que H. W. Petzet, crítico de arte e antigo amigo de Heidegger, narra em Die Bremer Freunde (Os amigos de Bremen) e, sucessivamente, em sua apaixonada biografia do pensador, referindo-se à conferência que Heidegger pronunciou em Bremen em 8 de outubro de 1930 com o título Vom Wesen der Wahrheit (Da essência da verdade), publicada depois em 1943, a qual, pronunciada numa aula repleta do Realgymnasium, havia deixado o público visivelmente impressionado.

2. O INTERESSE POR LAO-TZU

1. Se a longa assiduidade de Heidegger ao Chuang-tzu fica atestada por episódios esporádicos, sua confrontação com o pensamento poetizante de Lao-tzu revela-se ainda mais significativa e envolvente, devendo-se sobretudo a Paul Shih-yi Hsiao o testemunho desse profundo interesse, estudioso chinês de filosofia e psicologia que desde 1938 se havia estabelecido na Europa, assistido a cursos de filosofia em Milão e Friburgo, publicado em 1941 uma tradução italiana do Tao Te Ching e ensinado desde 1955 a 1969 língua e filosofia chinesas na Universidade de Friburgo, e de 1974 a 1986, ano de sua morte, Filosofia na Universidade de Taipei.

2. Hsiao conta que soube do interesse de Heidegger por uma tradução do Tao Te Ching de Lao-tzu na primavera de 1946, durante o encontro na Holzmarktplatz de Friburgo, quando este lhe propôs colaborar numa tradução do Tao Te Ching ao alemão durante o verão, em sua cabana de Todtnauberg, já que só então gozaria de uma pausa em seu trabalho, tendo Hsiao aceitado entusiasmado, convencido de que as ideias de Lao-tzu contribuiriam para oferecer aos alemães, e no fundo a todo o mundo ocidental, uma ocasião para a reflexão após a catastrófica Guerra Mundial.

3. Hsiao havia conhecido Heidegger em 1942, quando a Universidade do Sacro Cuore de Milão, na qual estava ampliando seus estudos de filosofia, lhe permitiu assistir como ouvinte a seus seminários em Friburgo, e de vez em quando lhe apresentava fragmentos de sua tradução do Tao Te Ching ao italiano, cuja publicação Benedetto Croce havia tornado possível.

4. Heidegger apresentou a proposta a Hsiao em 1946 na antiga Holzmarktplatz de Friburgo, entre os escombros que ainda rodeavam a esplêndida catedral gótica, encontrando-se na época submetido ao processo de desnazificação e queixando-se disso a Hsiao, que recorda terem vindo em sua ajuda umas palavras consoladoras de Mêncio (Meng-tzu), o maior confucionista depois de Confúcio, sobre como o Céu, quando está a ponto de conferir a um homem graves responsabilidades, primeiro atormenta seu coração e sua vontade, fatiga seus músculos e seus ossos, faz passar fome a seu corpo, empobrece sua pessoa, transtorna seus empreendimentos, estimulando assim seu coração, temperando seu caráter e reparando sua incapacidade.

5. Assim, no princípio do verão de 1946, teve início a tarefa comum de tradução que se prolongou durante toda a estação, chegando Hsiao cada sábado de motocicleta até Heidegger na cabana de Todtnauberg.

6. Hsiao decidiu não continuar e se dedicou a dar uma série de conferências em universidades europeias sobre pensamento comparado, ocidental e chinês, reconhecendo que já durante seu trabalho em comum não lograva livrar-se do temor de que as notas de Heidegger talvez pudessem ir mais além do requerido a uma tradução.

7. Certamente, afirma Hsiao, ainda que os oito capítulos traduzidos constituam tão só uma pequena parte do Tao Te Ching, exerceram uma influência significativa em Heidegger.

8. Das traduções realizadas por Heidegger, Hsiao menciona só duas linhas do capítulo XV que, segundo diz, traduzidas literalmente rezam: quem pode, aquietando, esclarecer lentamente o turvo? Quem pode, movendo, reavivar lentamente a calma?

9. Isto poderia ser considerado também um signo do interesse nem ocasional nem efêmero que o pensador sentiu pelo taoísmo, nem tampouco limitado ao grave estado de crise psicológica que Heidegger atravessou em 1945-46.

10. Também em sua apaixonada biografia, H. W. Petzet dedica um capítulo inteiro, Der Mönch aus Bangkok (O monge de Bangkok), ao interesse que Heidegger cultivou toda sua vida pela cultura do Extremo Oriente, declarando na conclusão do capítulo haver tido notícia do intento de tradução do Tao Te Ching só após a morte de Heidegger.

3. A CONVERSAÇÃO COM CHUNG-YUAN CHANG

1. Em julho de 1949 houve um importante congresso internacional sobre Heidegger and Eastern Thought (Heidegger e o pensamento oriental) na Universidade do Havaí, organizado pelo Departamento de Filosofia local que, repetidas vezes desde 1939, havia se distinguido por promover e incentivar a realização de cursos e publicações de Filosofia comparada, sobretudo através do valiosíssimo trabalho editorial da revista Philosophy East and West, fundada pelo próprio Departamento em 1951, podendo ler-se nesta revista (20, 3, 1970) as Atas do Congresso antes mencionado.

2. Segundo R. May, que entrevé no Heidegger tardio um intento de enmascarar e cifrar sua dívida global com o pensamento oriental, esta identificação é um mal-entendido, sendo a identificação essencial clara, em cambio, entre Lichtung (clareira) e wu.