1 Introdução

MARTÍN MORILLAS, Antonio Miguel. La nada en el segundo Heidegger y el vacío en oriente hermenéutica constrastativa. Granada: Editorial de la Universidad de Granada, 2007.

1. A pesquisa parte da aparente contradição entre o senso comum de que nada se pode dizer com conteúdo sobre o nada e o vazio e a suspeita, desenvolvida ao longo do trabalho com Martin Heidegger e o pensamento oriental, de que o nada pode ser uma realidade de outra ordem e o vazio uma fonte de plenitude.

2. O terreno da investigação remete ao segundo Heidegger e sua relação com o pensamento oriental, tomando como eixo central o estudo das temáticas gerais do nada e do vazio.

3. A pesquisa conta com uma pista fundamental: a crescente bibliografia sobre Heidegger e Oriente, cujo primeiro objetivo é conhecer o que ela diz.

4. Para cobrir esses objetivos, a investigação estuda o tema do nada em Heidegger à luz de seu contraste com o tratamento dado por autores ou escolas relevantes do pensamento oriental.

5. Existem provas de que Heidegger estava familiarizado com a filosofia oriental, e algumas ideias importantes de sua filosofia guardam parecido com termos, locuções e sintaxe de traduções alemãs que ele manejou.

6. Entende-se assim a recente aparição de número cada vez maior de artigos e monografias sobre o parecido entre diversas escolas orientais, principalmente taoísmo e budismo zen, e determinados hitos do caminho do pensar de Martin Heidegger.

7. O tema do nada permite estudar a influência (May), a correspondência (Strolz, Parkes) ou a convergência entre o pensamento de Heidegger e a filosofia do Extremo Oriente.

8. A apresentação é resultado de uma primeira fase de familiarização com os escritos de Heidegger e com os mais famosos do Oriente.

9. Reconhece-se a possibilidade de efetuar melhor articulação da exegese dos materiais, tanto em Heidegger quanto no Oriente, possibilidade entendida como dívida a ser abordada em trabalhos posteriores.

10. Aprecia-se de entrada um neto contraste entre os estilos mentais de Heidegger e dos pensadores orientais: uma finalidade fundamentalmente ontológica no caso de Heidegger e uma atitude mais sapiencial e ético-soteriológica entre os orientais.

11. Entre as monografias existentes, há estudos que enfocam diversos paralelismos entre o pensamento de Heidegger e o pensamento oriental sobre pontos concretos.

12. No que se refere a Heidegger, o problema do nada pode ser posto em relação com algumas ideias matrizes chaves para a compreensão de seu segundo pensamento.

13. Menos fixa é a questão da negatividade no relativo à filosofia oriental.

14. Uma vez compreendido que no segundo Heidegger o nada serve de pano de fundo nas questões do essenciar-se do ser como acontecimento propiciante, da diferença ontológica como duplicidade do essenciar-se do ser do ente, do claro da desocultação do ser, do silêncio da linguagem originária e da passividade da ética da serenidade, decidiu-se organizar os materiais da leitura de Heidegger segundo essas mesmas questões.

15. Echando a mirada a Oriente, os temas heideggerianos da dimensão ética do homem, com o problema da finitude e da existência caída, assim como a necessidade de um novo início do habitar no mundo, parecem prometedores se vinculados ao budismo mahayana.

16. Em resumo, a contrastação hermenêutica entre o segundo Heidegger e o taoísmo e o budismo mahayana orientais avança em cinco passos, tratando de cingir-se ao seguinte mapa:

1. SEGUNDO HEIDEGGER

1. Acontecimento propiciante (Ereignis), diferença ser-ente (e acontecimento-ser), o claro (Lichtung), fala silente do ser e serenidade (Gelassenheit).

2. TAOÍSMO

1. Caminho (Tao), diferença Tao-cosas, o vazio (Xu), a linguagem do Tao e não-agir (Wu-wei).

3. BUDISMO MAHAYANA

1. Dharma (cooriginación interdependiente (Prattiya-samutpada) e nirvana), diferença vazio-fenômenos, a vacuidade (Sunyata), linguagem convencional e linguagem da verdade última, não-eu e não-mente (as quatro nobres verdades e o nirvana).

17. Dentro da necessária modéstia e prudência a guardar nessas questões, acredita-se que o esforço se vê recompensado com sua contribuição, de certa relevância para o panorama filosófico espanhol, em concreto para os interessados em Heidegger, ao informar que o filósofo alemão conhecia o Oriente e que existe um debate sobre sua relação com a cultura oriental.

18. Finalmente, esta investigação se pode enquadrar na necessidade e oportunidade de um diálogo filosófico em profundidade entre Oriente e Ocidente.