Nishida

CARTER, Robert Edgar. The Kyoto school: an introduction. Albany (N.Y.): State university of New York press, 2013

Contexto

1. A formação intelectual de Nishida desenvolveu-se no contexto da abertura japonesa ao pensamento ocidental, marcado pelo progressivo predomínio da filosofia alemã sobre o empirismo e o evolucionismo ingleses e pela intensa recepção de Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche e Hartmann, sem que essa apropriação significasse simples abandono ou conservação defensiva da tradição japonesa, mas antes sua submissão à crítica filosófica rigorosa.

2. A trajetória filosófica de Nishida caracteriza-se por sucessivas reformulações destinadas a superar insuficiências anteriores e reconsiderar os mesmos problemas segundo novas perspectivas, articulando-se predominantemente em torno da experiência pura, da autoconsciência, do basho entendido como lugar ou campo e, por fim, do complexo mundo dialético absolutamente contraditório e autoidêntico do uno e do múltiplo.

3. A compreensão nishidiana da tradição japonesa foi profundamente configurada pelo zen-budismo, cuja prática durante aproximadamente uma década forneceu uma perspectiva decisiva para sua visão filosófica do mundo, mesmo quando o zen raramente era mencionado explicitamente em seus escritos e se recusava a redução de sua filosofia a essa tradição.

Os primeiros anos: educação

1. A educação secundária de Nishida combinou estudos intensivos de língua e literatura chinesas, matemática, línguas ocidentais, história e ciências, mas sua crescente oposição à disciplina militarista e ao caráter rigidamente regulamentado da instituição levou-o a abandonar a escola em busca de uma formação autônoma, experiência que terminou por revelar a necessidade de mestres intelectualmente fortes e de uma aprendizagem ordenada.

2. Reconhecida a dificuldade de uma formação inteiramente autodidata, Nishida ingressou em 1891 no Departamento de Filosofia da Universidade de Tóquio com estatuto acadêmico limitado em razão do abandono prematuro da escola secundária, concluindo sua formação com uma tese sobre a teoria da causalidade de Hume e iniciando sua produção filosófica com um estudo da ética de T. H. Green durante o período em que permaneceu sem emprego docente.

3. O início da carreira profissional de Nishida foi marcado pela instabilidade, com a obtenção de um cargo de professor responsável por uma escola secundária em Nanao, seu casamento com Takuda Kotomi, o fechamento posterior da instituição e o retorno à antiga escola de Kanazawa como professor de alemão, ao mesmo tempo em que se constituía sua vida familiar com o nascimento da primeira filha.

4. As responsabilidades familiares, a separação temporária da esposa e da filha, a perda do emprego e as dificuldades profissionais intensificaram a prática zen de Nishida, que procurou conciliar longas sessões de meditação, vida doméstica e atividade docente até alcançar, em 1903, a solução de seu kōan e a experiência de kenshō, entendida como visão da própria natureza verdadeira.

5. A morte do irmão Kyōjirō na Guerra Russo-Japonesa provocou um longo período de sofrimento no qual o zen ainda ofereceu amparo, mas coincidiu com o encerramento da prática zen formal de Nishida e com sua concentração crescente na filosofia, especialmente na ética, na psicologia e na elaboração do ensaio sobre experiência pura, cognição, vontade e intuição intelectual que constituiria a primeira parte de seu primeiro livro.

6. A consolidação acadêmica de Nishida iniciou-se com o ensino de filosofia em Tóquio e prosseguiu na Universidade Imperial de Kyoto, onde alcançou o doutorado, a estabilidade e a cátedra, enquanto sucessivas doenças e perdas familiares aprofundavam uma experiência pessoal de sofrimento que posteriormente se integraria à convicção de que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia emergem da provação existencial.