Existência em Tugendhat

STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.

Tugendhat e os conceitos de existência (Marcos Fenton)

1. Uma das características mais marcantes do filósofo tcheco Ernst Tugendhat é sua capacidade de dialogar com diversas posições e tradições filosóficas, exemplificada em Lições introdutórias à Filosofia analítica da linguagem, obra que constrói ponte entre a Filosofia analítica e a Filosofia tradicional.

2. O estilo de filosofar das Lições origina-se da importância que ambas as tradições, analítica e tradicional, possuem para o autor, tendo a aprendizagem da Filosofia analítica em Michigan, nos anos 60, provocado uma revolução mental na qual a proveniência de Husserl e Heidegger se fez significativa e deu direção a seu trabalho.

3. A Filosofia analítica argumenta que só nos relacionamos com objetos, com o real e conosco mesmos porque já compreendemos sentenças que destacam tal objeto enquanto objeto, sendo a suposta independência extralinguística que o filósofo tradicional em nós sugere apenas algo insinuado pela própria palavra, cabendo ao analista da linguagem primeiro estabelecer a relação com as coisas ao não se satisfazer com a palavra e perguntar o que se quer dizer com ela.

4. Uma primeira concepção de Filosofia elaborada por Tugendhat é metodológica: o filósofo analítico deve refletir sobre as pressuposições de nossa compreensão não reflexiva, articulando o significado das expressões linguísticas pressuposto em toda compreensão de sentenças, revelando-se assim o caráter apriorístico dessa versão analítico-linguística da Filosofia, que, desde Sócrates e Platão, tem a ver com a clarificação de conceitos, diferindo porém radicalmente da tradição ao não encarar mais o significado das sentenças como um objeto ou como estando por um objeto.

5. A pretensão de universalidade dessa posição filosófica dá-se pela formalização das sentenças como um todo e de todas as formas sentenciais, encaradas como unidade mínima de significado, perguntando-se não pelo significado das sentenças, mas por como é possível compreendê-las e qual a contribuição de seus componentes estruturais, simbolizada essa formalização por variáveis que determinam cada classe semântica.

6. Por meio desse procedimento, desenvolve-se uma segunda concepção de Filosofia, com contornos temáticos mais claros e pergunta-guia fundamental: a semântica formal pretende constituir-se como ciência formal universal, tão fundamental quanto a própria ontologia o foi, sendo ocupação central das Lições, cujo resultado é o traçado de um panorama da semântica formal como um todo.

7. Daí a resistência de Tugendhat a explicações metateóricas e a adoção do dictum de Wittgenstein, segundo o qual o significado de uma palavra é o que a explicação do significado explica, como princípio fundamental da Filosofia analítica.

8. Pretendendo substituir os modelos tradicionais orientados pelo esquema sujeito-objeto, a semântica formal inicia seu trajeto pela análise das sentenças assertóricas, consideradas pela ontologia aristotélica o modelo fundamental e as mais familiares, entendidas como aquelas que erguem pretensão de verdade e sobre as quais podemos responder por tomada de posição sim ou não.

9. O resultado das Lições restringe-se à análise linguística das sentenças assertóricas predicativas mais elementares, sentenças sobre objetos perceptíveis, sendo o fio condutor explicar como entendemos uma sentença do tipo “a xícara é vermelha”, compreendendo uma sentença assertórica quando sabemos em quais condições ela é verdadeira ou falsa, o que significa explicar sua regra de verificação e, concomitantemente, sua regra de uso, havendo fusão entre verificação e uso.

10. A investigação semântica analisa também as contribuições das classes semânticas componentes, surgindo a sentença assertórica predicativa da combinação de termo singular e termo geral, cuja compreensão se realiza mediante a compreensão de ambos.

11. Percorrido esse caminho, chega-se à fórmula de que a afirmação de que a é F é verdadeira se e somente se o predicado F é aplicável ao objeto pelo qual está o termo singular, explicação que sofrerá modificações até resultar no complexo mecanismo de identificação espaço-temporal de objetos, englobando concepção específica de objeto espaço-temporal e de verdade.

12. Uma terceira concepção de Filosofia busca justificar a não arbitrariedade do modo de filosofar analítico-linguístico, entendendo Tugendhat o filosofar como atividade específica que requer justificação, alcançada não pela investigação da palavra Filosofia, mas pela justificação de nossa motivação para filosofar, perguntando-se se há alguma atividade teórica cujo engajamento seja recomendável, denominando-se Filosofia essa atividade teórica motivada pela pergunta sobre o que nos é recomendável fazer.

13. A possibilidade de realizar essa pergunta prática reside em nossa capacidade de deliberação, na liberdade de perguntarmos se queremos agir de tal modo dentro de um âmbito de outras possibilidades, realizando-se essa deliberação por enunciados práticos, sentenças intencionais que expressam nossa intenção e procuram justificar nossas ações, identificáveis pela forma “é bom (melhor) que…”.

14. Perguntar por que fazemos enunciados práticos ou por que pretendemos justificar nossas ações leva, em último caso, à reflexão sobre a possibilidade da razão, isto é, de sermos seres racionais e, com isso, de fazermos Filosofia, advertindo Tugendhat que, embora essa questão seja metodologicamente prévia à pergunta prática, não deve precedê-la na prática, pois a pergunta prática fundamental não admite adiamento.

15. Após descrever os traços gerais da posição filosófica de Tugendhat, expõem-se seus três conceitos de existência, desenvolvidos de acordo com o princípio fundamental da Filosofia analítica: existência como identificação, existência temporal e existência como relacionar-se de si consigo mesmo, cuja conexão sistemática e pertencimento a um mesmo programa teórico requerem justificação.

16. O primeiro conceito, identificação, é desenvolvido nas Lições e remete ao delineamento do panorama da semântica formal, perguntando-se ao final dessa obra pelo significado do verbo “está/é” nas sentenças existenciais, que expressa a presença de um objeto em área espaço-temporal, remetendo essa intuição ao conceito de existência como predicado, tratado no artigo Existência no espaço e no tempo, anterior às Lições mas por elas referido.

17. O conceito de existência como relacionar-se de si consigo mesmo recebe elaboração em Autoconsciência e autodeterminação, posterior às Lições, obra na qual Tugendhat distingue seu projeto do da semântica formal, afirmando pretender confirmar que o método analítico-linguístico é também o único adequado para a interpretação de toda a Filosofia anterior.

O problema da existência na Filosofia analítica — Da existência à identificação

18. O conceito de existência nas Lições discute-se a partir das teorias de Russell e Strawson, encaradas como diferentes explicações sobre o modo como nos referimos a objetos, a função dos termos singulares, gerando a discussão das sentenças existenciais deslocamento do conceito de existência pelo de identificação.

19. A pergunta-guia sobre os termos singulares é: por quais expressões devem ser complementados os termos gerais para que aquilo obtido com seu uso possa ser verdadeiro ou falso, exigindo essa formulação linguagem na qual só se pode usar verdadeiro e falso se o interlocutor puder verificar que o falante usa a expressão do mesmo modo em situações diferentes.

20. No âmbito das sentenças assertóricas elementares, tais exigências preenchem-se pelos termos singulares dêiticos, cuja função inovadora não apenas identifica a situação em que o falante se encontra, mas antecipa a referência a essa mesma situação por outras expressões dêiticas do mesmo grupo, havendo remissão sistemática e recíproca entre elas mediante o signo de identidade.

21. Como a regra de uso dos dêiticos depende de sua situação de emprego, e como as situações de percepção mudam constantemente, é necessário estabelecer ponto de referência, preenchido pela marcação de um ponto zero subjetivo com o dêitico expresso pelo falante, compreensível intersubjetivamente apenas se apoiado em localização objetiva convencional, um ponto zero estável no sistema de coordenadas, possível mediante o fato contingente de haver objetos espaciais invariáveis e regularidade de eventos temporais na natureza.

22. A partir de termos singulares que indicam a situação de percepção, um predicado perceptual pode ser aplicado verificável ou falsificavelmente, especificando um objeto perceptível enquanto objeto individual, alcançando-se assim conceito específico de identificação, que implica novo conceito de relação de objetos: a distinção dos objetos perceptíveis particulares depende da existência de multiplicidade de situações de emprego de predicados elementares, conectando-se a existência de objetos individuais perceptíveis com o fato de haver multiplicidade de situações de percepção referíveis umas às outras.

23. Os objetos que as expressões dêiticas identificam não são os objetos perceptíveis, mas posições espaço-temporais individuais nas quais tais objetos podem ou não se encontrar, decidindo-se a partir delas pela identidade, isto é, pela objetualidade, dos objetos perceptíveis, compreendendo-se um objeto perceptível individual apenas a partir de sua relação com uma posição espaço-temporal.

24. A identificação de posições espaço-temporais requer, por sua vez, referência a objetos perceptíveis que as marquem, exigindo caracterizar a constituição dos objetos espaço-temporais perceptíveis pela aplicação de predicados “sortais” (como gato, xícara), cuja função é especificar quais posições espaço-temporais pertencem a determinado objeto.

25. Alcança-se assim tese de dependência recíproca entre o sistema de relações espaço-temporais e os objetos perceptíveis: embora o sistema identificador de posições dependa da identificação de alguns objetos materiais ou eventos, a identificação de cada objeto particular refere-se à identificação de posições correspondentes, que representam as situações de verificação nas quais se estabelece se o objeto existe ou não nessa posição, não fazendo sentido, porém, questionar a não existência de posições espaço-temporais nem falar da existência de tais objetos de forma alguma.

26. Essa formulação requer a substituição das sentenças existenciais sobre objetos perceptíveis por sentenças assertóricas predicativas elementares, já que todas as sentenças existenciais com função de identificação, direta ou indireta, são de um único tipo, ao asserirem a única existência de um F em determinado lugar e tempo, não se perguntando mais se aderimos uma propriedade a um objeto, mas se existe um e somente um objeto em determinada posição espaço-temporal, sendo essa própria situação nenhum objeto existente.

Existência temporal

27. Ao final da análise dos termos singulares nas Lições, pergunta-se se a expressão “está/é” das sentenças assertóricas elementares não significa a presença de um objeto em posição espaço-temporal, havendo, nesse caso, asserção da existência de um indivíduo, compreendida como predicado relacional de dois lugares, conceito temporal de existência que examina se determinado objeto se encontra em dada situação nos instantes tl e tn, e não apenas se se encontra numa situação de percepção isolada.

28. Tugendhat oferece duas interpretações para essa noção: em Existência no espaço e no tempo e na Propedêutica lógico-semântica, corrige a formulação reduzindo-a a sentença com quantificador existencial, deixando a existência de ser interpretada como predicado; ou depende de ser possível utilizar existência como predicado em sentenças assertóricas, com peculiaridades em sentenças práticas, interpretação que desembocará no conceito de existência como relacionar-se de si consigo mesmo.

29. Na formulação final, o conceito de existência define-se como a presença de um objeto material em posição espaço-temporal determinada, constituindo-se tais objetos como unidade independente por poderem mudar de posição no sistema de coordenadas, sendo, no caso de objetos vivos, capazes de nascer, crescer e morrer.

30. Identifica-se um objeto perceptível constatando sua presença em posição espaço-temporal designada pelas expressões correspondentes, dando-se a objeção contra a existência como predicado pelo conceito de identificação: aplicar expressão de classificação como existência pressuporia já poder identificar o objeto, verificando sua existência, mas essa operação não afirma que o objeto é para depois estar presente numa duração de tempo, constituindo-se a própria objetualidade do objeto perceptível apenas em sua presença no espaço em tempos determinados.

31. Pelo mecanismo de identificação espaço-temporal, podemos batizar um objeto e traçar seu caminho de vida continuamente por posições espaciais durante diversas posições temporais, rompendo-se essa trajetória caso o objeto cesse de existir, significando a completa identificação de um objeto perceptível durante sua existência o traçado, através de todas as localizações que ocupa em seu tempo de vida, apenas dos predicados fundamentais, sem enumerar todos os predicados ou relações verdadeiros dele durante esse tempo.

Existir é o relacionar-se de si consigo mesmo

32. Os dois primeiros conceitos de existência fazem parte da análise de sentenças assertóricas elementares, ao passo que o terceiro se atém à análise de sentenças práticas, integrando a proposta mais ampla de comprovar que o método analítico-linguístico é o único adequado para interpretar toda a Filosofia anterior, construindo-se a noção de relacionar-se de si consigo mesmo sobre interpretações de Kierkegaard, Heidegger, Mead e Hegel, propondo-se aqui exposição limpa desse conceito em sua formulação analítico-linguística genuína.

33. O problema subjacente à existência em Autoconsciência e autodeterminação, apenas indicado na concepção prática de Filosofia das Lições, é o das condições de possibilidade da formulação racional de questões sobre o que é mais relevante para nossa vida, referindo-se, em última instância, à pergunta pela possibilidade da razão e da liberdade.

34. O conceito de existência elabora-se a partir de sentenças práticas como “eu quero ser capitão de um navio”, nas quais a aplicação do predicado ao termo singular eu depende apenas do próprio falante, diferentemente das sentenças assertóricas dependentes da situação de verificação, tomando a investigação como material sentenças com o termo singular eu somadas a predicados que expressam atividades.

35. A inevitabilidade de relacionarmo-nos com nossa existência a partir de sentenças práticas significa relacionarmo-nos inevitavelmente conosco mesmos por tomadas de posição sim/não quanto ao modo como queremos realizar nossa existência, ilustrada pela pergunta de Hamlet, “ser ou não ser?”, cujo conteúdo prático somente pode ser respondido por decisão insubstituível do próprio termo singular eu.

36. Essa inevitabilidade constitui o momento de necessidade prática, expressando que sempre nos encontramos em situação prática na qual temos de decidir como realizar nossa vida, possuindo cada situação campo de jogo de possibilidades de atuação que revela o momento de possibilidade prática, sendo ambos os momentos intrínsecos ao modo de relacionamento prático volitivo-afetivo consigo mesmo.

37. O momento de necessidade prática revela-se pela afetividade, que possibilita experimentar algo como bom ou mau para nós mesmos, revelando respostas como “estou irritado” ou “estou triste” o estado de ânimo (Stimmung) no qual nos encontramos, o modo como experimentamos o todo de nossa existência numa escala do pleno de sentido ao sem sentido, significando os estados de ânimo, sem objeto determinado, esse encontrar-se afetivo total unitário que revela nossa disposição para viver.

38. Em toda situação prática escolhemos possibilidades sabendo do que elas tratam, de nós mesmos e de nossa vida, articulando-se essa escolha por sentenças como “posso ser capitão de um navio”, constituindo essa articulação saber prático sobre si mesmo que expressa a possibilidade de atuar desta ou daquela maneira.

39. Essa consciência de várias possibilidades de ação e de existir corresponde a predicados de segundo grau, determinações adverbiais do existir que correspondem ao modo de existir do próprio sujeito, dependendo a possibilidade de aplicá-los de meu próprio querer, do que decorre, caso já estejamos numa situação prática global, a exigência de deliberação sobre o que se quer fazer, característica da liberdade humana a possibilidade de nos determos para perguntar se é melhor querer isto ou aquilo formulado na sentença intencional.

40. A possibilidade de deliberarmos, de relacionarmo-nos com nosso ser como poder-ser, significa também termos consciência do futuro, dando-se a formalização das sentenças práticas com sentenças intencionais no futuro, guiando essa consciência nosso fazer e agir, projetando-se, como poder-ser, um sentido ou propósito para nossas ações sem o qual não haveria sequer compreensão de si mesmo.

41. Revela-se aqui o âmbito social em que sempre nos encontramos, estando a situação prática global de cada sujeito inserida em comunidade organizada constituída por normas que regulam a cooperação entre sujeitos atuantes, encontrando-se em cada comunidade conjunto de papéis sociais, um nó de direitos e deveres cooperativos de que cada indivíduo pode se apropriar, correspondendo a cada papel expectativas normativas recíprocas dos membros do grupo.

42. Esse conjunto estrutural, englobando o âmbito individual e social da necessidade e possibilidade prática, denomina-se relacionar-se de si consigo mesmo, recebendo a qualificação de reflexivo o significado de deliberação, de realização de perguntas práticas sobre nós mesmos e sobre a comunidade em que vivemos.

43. A realização da pergunta prática fundamental sobre o todo de nossa vida pode nos levar ao modo de existir como autodeterminação, no qual decidimos por nós mesmos quem queremos ser, entendendo de modo excelente nosso campo de possibilidades sem deixá-lo encoberto por expectativas normativas ou pelo desamparo da singularidade.

44. Como não podemos nos relacionar de forma nova sem nos relacionarmos de outra maneira com as relações sociais, devemos justificar a todos os membros da comunidade nossa concepção de vida, tomando o componente intersubjetivo da decisão a forma de um falar consigo mesmo, antecipação das possíveis tomadas de posição dos outros, levada de maneira verdadeiramente inovadora apenas se for uma luta até o fim, regulando-se a crítica aos papéis sociais estabelecidos por apelo ao consenso num diálogo universal, já que não há critérios materiais para decidir o que é bom.

45. Esse diálogo com todos os seres racionais encontra ponto culminante: numa decisão vital concreta, quem nos aconselha dará primeiro razões, mas ao final dirá que é nossa vida e somente nós podemos decidir o que é melhor para nós, restando, se nosso querer se apoiasse apenas em razões, ausência de um ponto de gravidade que nos permitisse chamar a tomada de posição de nossa, ilustrada essa ideia pelo conselho de Rilke ao jovem poeta Kappus de voltar-se para si mesmo, apoiando-se o querer deliberativo em penúltima instância em razões e restando componente volitivo irredutível.

46. Que a autodeterminação inclua esse componente irremediavelmente individualizante e volitivo da escolha de si mesmo não exclui, mas inclui, que um critério do correto dessa via encontre aprovação daqueles que entendem do assunto, desembocando a elaboração do conceito de existência como relacionar-se de si consigo mesmo na noção de responsabilidade em sentido estrito: viver responsavelmente é poder dar razões últimas para o próprio atuar, justificando-o até onde é justificável e dando conta do resto, significando essa responsabilidade adotar a concepção de vida boa no modo da pergunta pela verdade e da autodeterminação, entendida a pergunta pela verdade em sentido tríplice, sobre o que é real, o que é possível e o que é melhor entre as possibilidades dadas.

Continuidade e transformação de um conceito fenomenológico

47. Os três conceitos de existência elaborados por Tugendhat fazem parte de questão fundamental comum, o modo de relacionamento que temos com objetos: o conceito de identificação descreve a objetualidade de objetos perceptíveis, o de existência temporal descreve, de modo impreciso e abstrato, sua temporalidade, e o de relacionar-se de si consigo mesmo descreve a subjetividade do sujeito como ser racional e livre.

48. Os dois primeiros conceitos recebem exposição clara e sistemática, reelaborando posições tradicionais para diálogo mais profícuo, enquanto o terceiro elabora-se diretamente a partir de interpretações de Kierkegaard, Heidegger, Mead e Hegel, admitindo o próprio Tugendhat, quanto à interpretação de Heidegger, que suas leituras foram em parte forçadas intencionalmente, pois seu propósito não foi apresentar Heidegger fielmente, mas retirar de seu pensamento o que se precisava para a problemática objetiva visada.

49. Os conceitos de existência diferem também no modo de investigação: o de identificação tem como pergunta-guia a explicação dos termos singulares que suplementam predicados para obter sentença verdadeira ou falsa; o de existência temporal pressupõe essa investigação e adiciona o traçado das posições espaciais de um objeto ao longo do tempo; o terceiro pressupõe a possibilidade do uso do termo singular eu, condição mínima para falar de relação consigo mesmo.

50. Quanto à conexão sistemática dos três conceitos com o princípio fundamental da Filosofia analítica, os dois primeiros não apresentam maiores problemas, explicando-se a repetibilidade intersubjetiva das expressões dêiticas e o acréscimo temporal entre os instantes tl e tn, mas o conceito de existência como relacionar-se de si consigo mesmo apresenta dificuldades adicionais, pois sentenças práticas não erguem pretensão de verdade, mas de objetividade e justificação, culminando o diálogo racional num ponto em que não se pode mais dar razões e se tem de dar conta do resto.

51. Se essa hipótese for plausível, questiona-se como aceitar o princípio fundamental da Filosofia analítica que reduz o significado ao modo de uso intersubjetivamente acessível, alcançando-se concepção não dogmática do princípio de Wittgenstein ao admitir, como caso-limite, a possibilidade de significados que alguém pode esclarecer apenas para si mesmo, distinguindo-se, porém, tal caso da linguagem privada wittgensteiniana pelo fato de um estado de ânimo não ser dor corporal nem possuir objeto definido, e de o princípio de simetria veritativa não funcionar para estados de ânimo, entrando estes como componentes de significado das sentenças práticas.

52. Esse questionamento discute um dos pilares da concepção prática de Filosofia analítica de Tugendhat, resultando na indagação sobre uma concepção de verdade que extrapola a verdade de sentenças, permanecendo tais afirmações como hipóteses para estudo posterior, preferindo-se, por ora, ouvir o próprio filósofo, para quem a palavra verdade é usada também no sentido de “digam-me toda a verdade”, expressão de Homero, consistindo a Filosofia em perguntar pela verdade e não apenas fazer sentenças verdadeiras, aspecto que ultrapassa o conceito de verdade da sentença sem se identificar com o desvelamento.

Para concluir

53. A proposta deste estudo foi expor os conceitos de existência em Heidegger e Tugendhat e refletir sobre sua plausibilidade dentro de suas respectivas posições filosóficas, utilizando-se a distinção metodológica entre palavra, conceito, problema e posição filosófica como guia de leitura e, sobretudo, como base para comparar as propostas dos dois autores.

54. Em Heidegger, a posição filosófica fenomenológico-hermenêutica apresenta, em Ser e tempo, três conceitos de existência sistematicamente conectados: existência como todo o ser do Dasein, designando a estrutura ontológica específica desse ente; existência como momento constitutivo do cuidado, explicitando a compreensão como modo de ser do Dasein; e existência como ex-sistência, evidenciando a relação de transcendência entre Dasein e mundo.

55. Em Tugendhat, a posição filosófica analítico-linguística apresenta, em três textos principais, três conceitos de existência: identificação, tratando das condições de possibilidade da objetualidade de objetos perceptíveis; existência temporal, explicitando a presença de um objeto material em posição espaço-temporal determinada; e existência como relacionar-se de si consigo mesmo, descrevendo as condições de possibilidade da subjetividade, da razão e da liberdade.

56. O conceito de identificação em Tugendhat não encontra correspondência com nenhum dos conceitos heideggerianos analisados, por visar problema distinto, indicando essa constatação a necessidade de buscar em Ser e tempo outros conceitos que tratem da relação com objetos perceptíveis, como os de ente disponível (Zuhandenheit) e ente simplesmente dado (Vorhandenheit), possibilitando complementaridade entre os dois autores apesar da distância que ainda os separa.

57. O conceito de existência temporal encontra imensas dificuldades de comparação, pois Heidegger descreve conceito fenomenológico de temporalidade enquanto a formulação de Tugendhat se aproximaria das críticas a um conceito vulgar do tempo, devendo a comparação iniciar-se pelo caráter projetivo da linguagem, em que já se antecipa uma situação de verificação ou de justificação, retomando essa tese a afirmação heideggeriana de que a questão do significado do ser e do não ser deve colocar-se a partir do horizonte do tempo.

58. O conceito de relacionar-se de si consigo mesmo é o único que encontra correspondente imediato em Heidegger, por descrever o modo de existir do ser humano e as condições de possibilidade desse ente ser humano, situando Heidegger, segundo Stein, esse relacionar-se prático no horizonte de uma Filosofia ontológico-transcendental, enquanto Tugendhat critica essa unilateralidade suplementando-a com o âmbito social e normativo, reformulando a pergunta pelo sentido do ser como pergunta pelo sentido de uma vida boa.

59. Apesar das discrepâncias, os conceitos de existência como todo do ser do Dasein e como relacionar-se de si consigo mesmo compartilham ponto em comum fundamental, a descrição filosófica da existência humana como singular, finita e insubstituível, que cada um precisa levar a cada momento, surgindo daí conceito de verdade não universalizável, com componente não expresso linguisticamente mas dado como componente prático motivacional volitivo-afetivo, revelando essa consideração a inovação propriamente filosófica desse novo conceito de existência.

60. Além da formulação de um novo conceito de existência dentro de uma posição filosófica, outra motivação para a escolha de Heidegger e Tugendhat foi explorar a possibilidade de diálogo entre posições filosóficas diferentes, buscando examinar, de modo introdutório e programático, o fenômeno que Puntel denomina mutismo filosófico, a incapacidade de correntes e filósofos contemporâneos dialogarem entre si, sendo essa possibilidade de diálogo elemento fundamental para a Filosofia, dado ser impossível encontrar posição filosófica definitiva apoiada exclusivamente em razões sem o componente motivacional e sem discussão com outras posições, pois, fosse tal posição definitiva possível, não teríamos mais a possibilidade de perguntar pela verdade por nós mesmos, de trilhar nosso próprio caminho.