Existência em Heidegger

STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.

Os conceitos de existência em Heidegger

1. Desde Ryle, autor da primeira resenha de Ser e tempo em 1929, até autores contemporâneos, encontram-se diversas reações contra o método fenomenológico-hermenêutico de Heidegger e contra sua terminologia filosófica, por vezes ambígua, obscura ou mesmo misteriosa.

2. O conceito de existência parece incorrer na mesma imprecisão, formulando-se a hipótese de trabalho de que se podem encontrar nada menos que três conceitos de existência em Ser e tempo: existência como o todo do ser do Dasein, existência como um dos momentos constitutivos do cuidado ao lado da faticidade e da decaída, e existência como ex-sistência, na qual se destaca o caráter transcendente do Dasein.

3. A expressão fenomenológico-hermenêutico designa a posição filosófica e o método de Heidegger, entendendo-se por fenomenológico o modo de acesso ao e de determinação do ser dos entes, mediante o processo de formalização que abandona a investigação sobre entes e suas propriedades para voltar-se às condições de seu aparecimento qualificado.

4. A pressuposição fundamental da posição fenomenológico-hermenêutica é a compreensão do ser (Seinsverständnis): só nos relacionamos com o ente que nós mesmos somos e com os demais entes ao compreendermos nosso próprio ser e o ser dos entes que nos vêm ao encontro no mundo.

5. Nas primeiras páginas de Ser e tempo, o filósofo designa terminologicamente como Dasein o ente que somos em cada caso nós mesmos e que possui, entre outras, a possibilidade de ser do perguntar, sendo o Dasein o único ente no qual irrompe a compreensão do ser, fundamento de sua condição de ser humano, inovação que rompe com as concepções tradicionais do lógos, da razão ou da autoconsciência como especificidade humana.

6. No parágrafo 28, o Da do Dasein é explicado como abertura essencial pela qual esse ente é aí e como estar-sendo-aí do mundo para si mesmo, constituindo-se essa abertura pelos existenciais sentimento de situação (Befindlichkeit), compreensão (Verstehen) e discurso (Rede), desenvolvidos na analítica existencial.

7. No parágrafo 44, após explicitar o modo de ser do Dasein como ser-no-mundo, Heidegger mostra a tese da cooriginariedade entre Dasein e ser a partir do novo conceito de verdade, afirmando que o ser da verdade está em conexão originária com o Dasein, pois é somente porque este está constituído pela abertura, isto é, pelo compreender, que o ser pode chegar a ser compreendido, sendo ser e verdade coorigínarios.

8. O problema subjacente ao conceito de Dasein é designar o ente que compreende o ser e mostrar a dimensão originária do conhecimento, configurando novo modo de pensar a relação entre sujeito e mundo, afirmando Heidegger em obra posterior que a compreensão do mundo enquanto compreensão do Dasein é compreensão de si mesmo, não sendo eu e mundo dois entes como sujeito e objeto, mas condições fundamentais do próprio Dasein na unidade do ser-no-mundo.

9. Antes de esclarecer o conceito de existência, expõem-se as principais propostas situadas ao redor de Ser e tempo, geralmente vistas sob o mesmo pano de fundo do chamado existencialismo, com o objetivo de possibilitar, em seguida, o esclarecimento das peculiaridades do conceito heideggeriano em contraste com os demais.

Kierkegaard, Jaspers e Sartre e a questão da existência

10. Mesmo com grandes discrepâncias entre os filósofos englobados sob o título de existencialistas, há motivo para trazê-los a denominador comum, pois em todos o problema de entender como o ser humano é e se diferencia dos demais entes foi desenvolvido a partir do conceito de existência, concordando todos em que somente o ser humano existe.

11. Esse como foi expresso pela primeira vez, ligado ao conceito de existência, por Kierkegaard, para quem a questão principal não é saber com o que um indivíduo se relaciona, preocupação objetiva, mas como ele existe, isto é, como se relaciona consigo mesmo.

12. Segundo Kierkegaard, o indivíduo pode formular questão objetiva buscando a verdade do Cristianismo, cujo problema intrínseco é a impossibilidade de alcançar, pelo discurso das Ciências ou da Filosofia especulativa, a compreensão do que significa tornar-se cristão na primeira pessoa, tornando-se essa relação incongruente e cômica ao transformar o indivíduo em observador externo de si mesmo, preso a um pensamento especulativo impessoal, desinteressado e sem fim.

13. Por outro lado, o indivíduo pode formular questão subjetiva, cujo interesse reside na compreensão de sua própria situação existencial e numa relação singular com o Cristianismo, significando a pergunta pelo que é ser cristão questionar-se a si mesmo e compreender-se na existência, pressupondo a doutrina cristã, que quer fazer o indivíduo eternamente feliz, seu interesse infinito pela própria felicidade.

14. Nessa linha interpretativa, o Pós-escrito procura descrever, pelo conceito de existência, como é possível a um indivíduo singular tornar-se cristão, restando por avaliar como esse conceito, situado entre os âmbitos filosófico e teológico, poderia ser comparado às propostas do debate filosófico contemporâneo sem compromissos teológicos, bem como o problema da alegada insuficiente desvinculação de Kierkegaard em relação ao Idealismo alemão, questões que não serão aqui abordadas.

15. No cenário filosófico alemão, Karl Jaspers desenvolveu Filosofia da existência sistemática a partir das inovações de Nietzsche, Kierkegaard e Heidegger, e da reelaboração de conceitos de filósofos tradicionais como Kant e Hegel.

16. O conceito de Existenz constitui o ponto de convergência da Filosofia de Jaspers: na etapa de esclarecimento da existência, o sujeito torna-se possível existência, situando-se seu modo de relacionamento no próprio círculo do ser formado pelo ser-objeto e o ser-eu, referindo-se o conceito de existência a um modo de relacionamento de si consigo mesmo, e não com um objeto, no qual ocorre o movimento de transcendência, indicando atitude livre do eu como possível existência.

17. Fora do cenário alemão, encontra-se na França o maior expoente do existencialismo, Jean-Paul Sartre, cujo conceito de existência recebe influência inusitada de Descartes, sendo o principal objetivo de O ser e o nada, segundo autointerpretação do próprio autor, a descrição da estrutura e das raízes da consciência.

18. Sartre introduz o par conceitual consciência posicional e consciência pré-reflexiva: o primeiro, fruto da noção husserliana de intencionalidade, expressa que toda consciência é sempre consciência de alguma coisa, transcendendo-se em direção a um ser que ela mesma não é.

19. A estreita ligação entre os conceitos de existência e consciência evidencia-se em passagens de O ser e o nada, segundo as quais toda existência consciente existe como consciência de existir, sendo a consciência o fundamento de seu ser-consciência ou existência, encontrando-se numa leitura não criteriosa dessa obra multiplicidade de significados aplicados ao conceito de existência, referentes a objetos, sentimentos, o nada, o Para-si, o ser-consciência ou os valores.

20. Para sanar essa ambiguidade, propõe-se como critério semântico a diferença entre os dois tipos de ser da ontologia sartriana, o Em-si e o Para-si: o Em-si é o que é, pura positividade ou plenitude de si mesmo, sem negação, remetendo seu si apenas a si mesmo, ao passo que o Para-si significa ser o que não é e não ser o que é, transcendente ou nadificador de si mesmo, já não idêntico a si (Em-si), mas transcendendo-se ao encontro nunca possível de sua identidade ou projeto.

21. O motivo pelo qual Sartre utiliza o conceito de Para-si é a necessidade de explicitar o ser da consciência como ontologicamente diferente do ser do fenômeno, servindo o Para-si de explicação do si do conceito de consciência (de) si, entendido também como estrutura ontológica da realidade humana, ao lado do Para-o-outro, expressando sua vinculação original com o mundo e os objetos, com sua faticidade e possibilidade.

22. Conclui-se, de modo inesperado, que, estabelecidos critérios claros para os conceitos de Para-si e consciência (de) si, o conceito de existência cumpriria a mesma função destes, agregando o mesmo conjunto conceitual de transcendência, projeto, liberdade, faticidade e temporalidade, não sendo, contudo, dispensável em Sartre dada a relação explicativa estabelecida entre ambos ao longo da obra.

Três conceitos de existência em Ser e tempo

Existência como o todo do ser do Dasein

23. Heidegger formula pela primeira vez, no parágrafo 4 de Ser e tempo, o conceito de existência como o ser mesmo com relação ao qual o Dasein pode se relacionar desta ou daquela maneira e com o qual sempre se relaciona de alguma maneira determinada.

24. Heidegger afirma que o Dasein é, para si mesmo, onticamente o mais próximo, ontologicamente o mais distante e, no entanto, pré-ontologicamente não estranho, distinção tríplice interpretável a partir dos modos de compreensão da existência.

25. A primeira seção de Ser e tempo, a analítica existencial preparatória, toma como fio condutor a existência do Dasein, considerada o ser desse ente, ganhando essa interpretação consistência pela tese repetida ao longo do tratado de que a existência é a essência ou a substância do homem, o modo de ser específico do Dasein.

26. Após a descrição do sentimento de situação fundamental, a angústia (Angst), Heidegger reivindica um conceito capaz de unificar todos os existenciais do Dasein descritos na analítica existencial, posto serem cooriginários essas determinações de ser, empregando a palavra cuidado (Sorge), remontada à fábula de Higino, para designar a estrutura unitário-apriorística subjacente a todos os modos de ser do Dasein.

Existência, uma dimensão estrutural do cuidado

27. Com a descoberta do cuidado como o ser do Dasein, o conceito de existência precisa de nova conceitualização, explicitada no parágrafo 45 sobre a situação hermenêutica, no qual Heidegger avalia os resultados de sua análise preparatória: encontrada a constituição fundamental do ente temático, o ser-no-mundo, cujas estruturas essenciais centram-se na abertura, revelou-se a totalidade desse todo estrutural como cuidado, contendo-se nele o ser do Dasein.

28. Para entender essa passagem, é necessário expor a estrutura do cuidado, apresentável pela fórmula existencial “antecipar-se-a-si-mesmo-já-em(-um-mundo)-em-meio-de(os entes que comparecem dentro do mundo)”.

29. A necessidade dessa revisão conceitual explica-se pelo fato de Heidegger estabelecer, em seu paradigma filosófico, identidade entre método (fenomenologia hermenêutica) e objeto (o Dasein), tendo este o mesmo modo de ser daquele, de modo que, devido ao caráter antecipativo da compreensão, a analítica existencial, sendo modo possível de interpretação, requer em determinadas etapas revisão dos pressupostos de sua interpretação teórica para garantir a unidade originária do ser do ente tematizado.

30. Compreende-se assim a modificação do conceito de existência: a princípio compreendida como conceito formal que guia a interpretação do ser do Dasein, após as etapas da analítica existencial, com a explicitação da estrutura do Dasein como ser-no-mundo, o cuidado é designado o ser desse ente, compreendendo-se que o Dasein não apenas se relaciona consigo mesmo pela compreensão, mas também por cooriginária conexão com o sentimento de situação, a faticidade, e o discurso, a decaída.

Existência como ex-sistência

31. No parágrafo 65, Heidegger anuncia a investigação da temporalidade como sentido do ser do Dasein, já proposta no parágrafo 5, afirmando que, sendo o cuidado o projeto que guiou a analítica existencial até então, há ainda um horizonte de projeção dessa e de toda compreensão de ser não explicitado, designando a temporalidade essa unidade originária e horizontal do cuidado que possibilita os modos de ser do Dasein, exigindo, por ser originária, repetição da analítica existencial baseada em interpretação temporal para desvelar o modo de temporalização de cada momento estrutural do cuidado.

32. De modo paralelo ao cuidado, a temporalidade possui estrutura tríplice de êxtases, futuro, ter-sido e presente, não sendo, tal como o cuidado, um ente, mas temporalizando-se, correspondendo a cada modo de ser do Dasein um modo específico de organização dessas êxtases temporais.

33. No parágrafo 69c encontra-se modo diferente de expressar a palavra existência, mediante sua hifenização em ex-sistência, inovação que não deve ser interpretada como mero recurso estilístico, pretendendo antes explorar outro problema de Ser e tempo, o da transcendência de mundo.

34. Ao apontar para o caráter transcendente do mundo, aproveita-se a nuance do prefixo ex para conferir à palavra existência novo significado: o mundo ex-siste, é aquilo dentro do qual o Dasein se compreende, designando ex-sistência a relação que o Dasein tem com seu mundo.

Avaliação

35. Percorrido esse caminho ao longo de Ser e tempo, pergunta-se se é possível utilizar o conceito de existência de modo inequívoco, tendo ficado evidente que essa palavra contém diferentes conceitos e significados.

36. Essa conclusão mostra, contra as críticas de Tugendhat e outros, a possibilidade de estabelecer critérios semânticos para o conceito heideggeriano de existência e, nesse sentido, uma controlabilidade de seu significado que respeita as peculiaridades do método fenomenológico-hermenêutico, não significando isso, contudo, que o trabalho se encerre aqui, pois tal resultado só adquiriria solidez plena se integrado coerentemente ao paradigma heideggeriano e se os conceitos adotados para explicá-lo possuíssem, também eles, critérios intersubjetivos.

37. A partir das propostas de Kierkegaard, Jaspers e Sartre, chega-se a conclusões que esclarecem as diferenças da concepção heideggeriana, havendo, em primeiro lugar, diferença entre Sartre e os demais autores analisados: enquanto Kierkegaard, Jaspers e Heidegger descrevem a existência como relacionar-se de si consigo mesmo prático, Sartre a descreve como modo de consciência de si consigo mesmo, autoconsciência pré-reflexiva.

38. Em segundo lugar, a explicitação do conceito de existência em Sartre sem a necessidade do conceito de relacionamento de si consigo mesmo mostra como Heidegger foi influenciado por Kierkegaard, introdutor dessa temática, diferenciando-se, contudo, do filósofo dinamarquês ao situar-se em nível ontológico-transcendental e ao agregar ao conceito de existência novos temas voltados à descrição dos diversos modos de ser no mundo do ser humano, como o lidar com utensílios, o investigar científico e o solicitar-se com outros.

39. Em terceiro lugar, o modo específico de perguntar pela existência a partir do como, formulado pela primeira vez por Kierkegaard, somente com Heidegger e Sartre ganhou conceitualização metodológica específica a partir da influência direta do como fenomenológico husserliano, adquirindo com esses autores nível ontológico ao tornar-se sinônimo da pergunta pelo modo de ser de determinadas entidades.

40. Em quarto lugar, todas as tentativas de elaboração do conceito de existência levam em conta a necessidade de estabelecer novo conceito de ser humano no âmbito filosófico, encontrando-se em Kierkegaard insight de diferenciação do ser humano em relação aos demais entes: se somente o ser humano relaciona-se consigo mesmo, somente a ele é designado existir, compreendendo-se assim sua afirmação de que Deus não pensa, mas cria, e Deus não existe, mas é eterno.

41. Em quinto e último lugar, com a inovação do conceito de existência e do modo de existir do ser humano, campo de diversos temas da Filosofia tradicional, e de temas que ela simplesmente pressupôs como óbvios, passou a ser explicitado de modo peculiar, como os estados afetivos, a ocupação com utensílios e a investigação científica, o modo de compreensão autêntica e inautêntica da própria existência, a relação com o próprio corpo e com o corpo dos outros, a relação existencial entre futuro, passado e presente, a fuga de si mesmo e a escolha de existir, a condição de ser livre, entre outros.

42. Dentro de contexto filosófico mais amplo, o conceito heideggeriano de existência vincula-se diretamente à proposta de reformulação da pergunta pelo ser como pergunta temática fundamental da investigação filosófica, parecendo ter havido mútua influência entre a necessidade de estabelecer nova ontologia e um novo conceito de existência fora dos padrões da Filosofia tradicional.

43. Nessa ótica, a amplitude da investigação do conceito de existência revela-se maior do que inicialmente exposto, sendo necessário, para compreendê-lo de maneira precisa e plausível dentro da posição filosófica heideggeriana, entender ainda sua crítica à metafísica tradicional, sua nova concepção de ontologia e do conceito de ser, a relação estabelecida entre ser e seus diferentes significados, o novo conceito de linguagem e o lugar da lógica na fenomenologia hermenêutica, e o conceito de temporalidade e historicidade, tópicos de caráter programático destinados a dar solidez a esse conceito heideggeriano no debate contemporâneo.