STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.
Conceito de Existência. Marcos Fanton.
1. Ao estudar o conceito de existência na Filosofia contemporânea sem se restringir a um autor ou modo de filosofar específico, depara-se com uma encruzilhada entre dois caminhos radicalmente diferentes de investigação.
2. O outro lado da encruzilhada conduz ao problema do modo como se fala que algo existe, tornando-se problema de linguagem por excelência, uma vez que a compreensão do uso da palavra existência na linguagem natural não é de modo algum clara, como evidenciam sentenças do tipo “eu não existo” ou “unicórnios existem” comparadas a sentenças assertóricas comuns, exigindo esclarecimento teórico específico das sentenças existenciais pela análise da linguagem e do instrumental lógico.
3. Essa discrepância exemplifica-se na comparação entre Martin Heidegger e Bertrand Russell: o primeiro limita o conceito de existência ao ser humano, o Dasein, como elemento de diferenciação ontológica frente aos demais entes, enquanto Russell, advertindo contra a falsa filosofia surgida da incompreensão do que existência significa, conclui, mediante análise minuciosa de sentenças existenciais, que existência não é propriedade de indivíduos, mas de funções proposicionais verdadeiras pelo menos uma vez.
4. O amplo panorama de debate sobre o conceito de existência surgiu em contexto filosófico de reação ao Idealismo alemão, encontrando-se na Dinamarca do século 19 Sören Kierkegaard, interessado em destituir o pensamento especulativo e sistemático de sua importância filosófica por impossibilitar respostas às questões da existência singular de cada indivíduo.
5. Em Cambridge, o movimento preconizado por G. E. Moore e Bertrand Russell rejeitou os fundamentos do idealismo britânico, reconhecendo novo modo de filosofar a partir de Frege e da análise de conceitos nomeada por Moore, dando origem, com o artigo Sobre a denotação de 1905, a um modo de análise lógico-linguística das sentenças existenciais.
6. A discussão iniciada nos primórdios da Filosofia analítica sobre as concepções de existência de Meinong, Frege, Russell e Moore originou dois modos de abordagem na Filosofia analítica contemporânea.
7. Diante da multiplicidade de propostas sobre o conceito de existência, adotam-se distinções metodológicas entre palavra, conceito e problema, seguindo von Renthe-Fink, entendendo-se palavra como o menor morfema lexical dicionarizável, conceito como abreviação de sentenças cujo significado é filosoficamente determinado pelo autor, e problema como a questão subjacente à utilização de determinado conceito, distinção que evidencia diferirem radicalmente o conceito e o problema visados por Heidegger e Russell apesar de utilizarem a mesma palavra.
8. Este trabalho toma como fio condutor a palavra existência, tendo por tarefa explicitar os conceitos de existência de Martin Heidegger e Ernst Tugendhat e identificar os problemas filosóficos que motivam sua utilização.
9. Adota-se também a noção de posição filosófica, segundo Ernildo Stein, como guia para delimitar o significado dos conceitos de cada autor, uma vez que um conceito filosófico não pode ser retirado de uma obra e exposto em contexto estranho a ela, exigindo-se aprender o modo de uso dos conceitos de determinado autor antes de aplicá-los coerentemente em contexto intersubjetivo.
10. A vantagem de adotar essa noção reside em fornecer critérios para interpretar o conceito de existência de cada autor em seu próprio contexto de significado, evitando um diálogo de surdos e a absolutização do conceito de existência como conceito fundamental da Filosofia, buscando-se antes perceber sua função em determinada posição filosófica.
11. Por possuir a Filosofia semântica própria elaborada a partir de posição filosófica específica, não se pode ter como parâmetro último argumentos científicos ou enunciados da linguagem natural, sendo desastrosa qualquer interpolação entre os níveis filosófico e científico, conforme lembram Anthony Kenny sobre as Ideias platônicas e Hacker sobre a irredutibilidade entre questões filosóficas e investigação científica.
12. Uma posição filosófica tem como objetivo descrever as condições de possibilidade da experiência ou do conhecimento, herança kantiana do transcendental já não atrelada ao esquema sujeito-objeto, pressupondo toda relação com objetos, com o real ou consigo mesmo uma compreensão prévia da objetualidade dos objetos, da realidade do real ou da subjetividade do sujeito, tematizável apenas pela reflexão da própria compreensão.
13. A leitura dos textos filosóficos realiza-se, assim, num espaço argumentativo a priori, orientada por duas perguntas fundamentais segundo Tugendhat, o que o autor em verdade quer dizer e se é verdadeiro o que ele quer dizer, consistindo o trabalho na dupla tarefa de elucidar o conceito de existência em Heidegger e Tugendhat e refletir sobre sua plausibilidade.
14. A escolha desses dois autores justifica-se por ambos realizarem inovação consistente do conceito de existência situando-o dentro de posição filosófica inovadora que garante sua compreensibilidade intersubjetiva, esvaziando-se, com a noção de posição filosófica, a metáfora inicial da encruzilhada, pois ambas as abordagens podem ser trazidas a um denominador comum, a descrição do modo de relacionamento com objetos, restando a aparente dualidade de trajetos decorrente apenas da diferença de enfoque teórico e da restrição do conceito de existência, na primeira abordagem, ao ser humano.