Técnica

STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.

O enigma. A era do dispositivo: Heidegger e a questão da técnica

A caminho do mundo ou do a priori compartilhado

1. Ao abordar a questão da modernidade, mais analisada por historiadores, sociólogos ou estudiosos da cultura, importa demonstrar que não se pode esperar do filósofo um autor de teorias políticas, econômicas, sociais ou culturais, pois sua fala não tem acesso direto ao universo da experiência empírica.

2. Não se pode determinar um objeto específico para a Filosofia, campo com preparação formal e diploma apenas no Brasil e em alguns países latino-americanos, sendo na Europa considerada campo de discussão universitária articulado à pesquisa em Mestrado e Doutorado.

3. A Filosofia permanece campo cuja definição muda com os tempos, mas cujo elemento essencial é pensar o universo em que nos movemos enquanto conhecemos, tendo-se passado, com Kant, do conhecimento metafísico para a metafísica do conhecimento, pesquisando-se então em função do fundamento do conhecimento.

4. A tradição do século 20, influenciada pela forma kantiana de pensar a Filosofia como fundamento a priori, pergunta como se dá a vinculação entre conhecimento empírico e elemento inteligível a priori, entre consciência e mundo, palavras e coisas, significado e objetos, problema que a modernidade não pode mais resolver introduzindo Deus, mito, raça ou cultura como base.

5. Kant identificou como escândalo filosófico não termos encontrado ainda uma ponte entre consciência e mundo, ao que Heidegger responde, em Ser e tempo, que o escândalo é ainda estarmos procurando essa ponte, constituindo essa resposta a revolução filosófica do século 20 na qual Heidegger tem proeminência com a fenomenologia.

A descoberta de uma dupla estrutura

6. A questão da era da técnica e do dispositivo não foi escolhida aleatoriamente por Heidegger, remetendo Gadamer, já em suas primeiras aulas nos anos 20, à distinção entre atos intencionados e atos atencionados, os antigos actus signatus e actus exercitus, ilustrada pelo exemplo de escrever enquanto se ouve música ao fundo.

7. Podemos estar empiricamente envolvidos com objetos e, ao mesmo tempo, ocupados ontologicamente com algo não presente empiricamente, havendo compreensão de um mundo em cujo âmbito se dá o objeto referido ou o ato exercido, o que a metafísica nunca havia levantado como questão fundamental.

8. Não somos obrigados a enumerar conscientemente cada ato e decisão porque já operamos num mundo em que se instaura o sentido junto com o que objetivamos, havendo uma facilitação, uma desoneração do operar humano ausente no operar de um chimpanzé, que se move guiado pelo cheiro e pela ambiência do próprio habitat.

9. Sustentar essa camada que funciona além da relação sujeito-objeto constitui grande conquista tanto do ser humano quanto da fenomenologia, tornando essa dimensão do a priori compartilhado possível toda experiência e a fazendo humana.

10. Ao examinar a modernidade e a técnica, não se buscam explicações sobre a origem dos motores ou as revoluções industriais, mas sobre o mundo comum entre nós e o mundo da técnica, isto é, a compreensão antecipadora e o a priori compartilhado que fundamentam essa estrutura.

11. Na carta de 1963 a um professor japonês, Heidegger explica a desumanização do mundo pela europeização decorrente da difusão do modo matemático de ver as coisas pela ciência e pela técnica, retomando essa problemática filosoficamente por meio da interpretação da técnica como dispositivo (Gestell).

12. Podem-se distinguir três níveis de filosofar: a Filosofia ornamental, que cita frases de filósofos para embelezar teses de outros campos; a Filosofia de orientação, que retira de obras filosóficas lições pontuais para a vida; e a Filosofia de paradigma, que estabelece standards de racionalidade ou oferece universo temático epistêmico ou ontológico original.

13. Heidegger desenvolveu paradigma próprio a partir do qual formula modo específico de ver a modernidade e a técnica, tema relacionado ao da arte, revelando dimensões não demonstráveis empiricamente, mas apreensíveis como a priori modelar para um novo modo de pensar.

14. Como o ser humano não pode mais ser objetificado pela analítica existencial, é preciso olhá-lo a partir do mundo em que se move como formador de sentido, marcado pela compreensão do ser que atribui sentido inclusive a uma pedra colocada em algum lugar.

15. O mundo natural só possui sentido graças à compreensão do ser, não sendo eventos e objetos significativos a menos que o homem os encontre, como no exemplo de um enxame de abelhas ou das leis de Newton registradas por um físico.

Os quatro passos de Heidegger para dentro do enigma da técnica

16. Heidegger proferiu, em 1949, quatro conferências articuladas em torno do problema da técnica, denominado um lance de olhos para dentro daquilo que é (Einblick in das was ist): A Coisa (Das Ding), O Dispositivo (Das Gestell), O Perigo (Die Gefahr) e A Viravolta (Die Kehre).

17. Na relação objetificadora, o sentido da Coisa esgota-se em seu uso, cercando-nos um universo infinito de mercadorias, ao passo que o ser humano mantém com os objetos uma relação significativa e não apenas sensível, perdida quando a Coisa é convertida em mero objeto sem contexto significativo.

18. A análise da Coisa revela como uma ponte, um sapato ou uma obra de arte, enquanto entes à mão disponíveis, possuem dimensão de celebração, um acontecer de sentido compreendido como ser.

19. O segundo objeto de análise, o Gestell ou Dispositivo, distingue-se dos dispositivos de Foucault, Lacan ou Derrida, situando-se numa estrutura de dupla dimensão entre ser e ente, sem que haja ser sem ente nem ente sem ser, tendendo o ser humano a encobrir o ser e pensar apenas o ente como ente.

20. Terminados os princípios epocais com Nietzsche, entramos, segundo Schürmann, no tempo da an-arquia, perguntando-se Heidegger se não haveria ainda um princípio ao qual a técnica se atrelaria, introduzindo-se assim o Gestell como esse princípio da era técnica, exemplificado no chip enquanto estrutura mínima aparelhada.

21. A modernidade marca-se por esse princípio anárquico do Dispositivo, que converte a natureza em fundo inesgotável de reserva, olhando-se um rio já como usina e uma árvore já como tábuas, não suportando o ser humano a provocação sem responder com transformação.

22. A técnica pode levar à destruição, exemplificada pela bomba atômica na época de Heidegger e hoje pelas manipulações genéticas e clonagens, sendo talvez os últimos metafísicos a produzir tais mutações fiéis ao novo princípio do Dispositivo, caminhando pelo deserto onde se encobre o ser em nome do pensamento calculante.

23. A pós-modernidade traz dimensão do novo ainda indecifrada, reinando ali o princípio da anarquia representado pelo Dispositivo, que substitui o elemento normativo da subjetividade como fundamento, exercendo talvez uma função pseudofundadora.

24. Na terceira conferência, o Dispositivo revela-se como O Perigo (Die Gefahr), na medida em que, como novo modo de entificar o ser, encobre a relação significativa com o mundo, a natureza e os outros seres humanos, convertendo tudo em objeto transformável sob a ilusão de recursos infinitos.

25. A Filosofia precisa oferecer recursos para pensar esse risco sem cair vítima da automatização do Dispositivo e da agressão inercial ao mundo e a nós mesmos, havendo um caminho encoberto pelo sucesso da modernidade e das revoluções industriais.

26. Na quarta conferência, após o Perigo do Dispositivo, a Viravolta (Kehre) acena para uma saída, exigindo-se ver no fenômeno de nosso tempo o mesmo tipo de fenômeno que comandava a era da subjetividade, buscando-se ir para trás da condição humana e das mercadorias em direção a um mundo encoberto, dimensão de abertura e acontecer além da pura provocação transformadora.

27. A expressão heideggeriana retirada de Hölderlin, de que onde está o perigo também nasce a salvação (Wo aber Gefahr ist, wächst das Rettende auch), indica que não se deve rejeitar negativamente a técnica, pois é no próprio Perigo que nasce a possibilidade da Viravolta, não se encontrando a salvação do mundo fugindo da técnica, mas pela fenomenologia e pela interpretação do mundo em que se está.

28. Heidegger não se entrega à desesperança nem à negação da técnica, nem apela a uma volta romântica a tempos idílicos, mas propõe exercício fenomenológico de um ver que, a partir do cuidado consigo mesmo, se converte em cuidado pelo mundo e vigilância do ser, superando-se assim o império da Coisa, a ameaça do Dispositivo e o Perigo de sermos apenas objetos, na saída oferecida pela Viravolta.

29. Em outros textos, como O tempo da imagem do mundo, Heidegger tratará ainda do império da subjetividade e da questão do método na modernidade, bem como da Ciência como empresa e do problema do empresamento do mundo, permanecendo a Ciência e a técnica paralisadas diante do ser intransponível e incontornável, não podendo o mundo confirmar-se no deserto da subjetividade e da objetificação, sob pena de se dar razão aos versos de Fernando Pessoa sobre a grandeza dos desertos e das almas desertas.