Eric Nelson

Eric Nelson

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

1. Martin Heidegger (1889–1976) é filósofo do ser sob e a caminho, sendo “caminho” possivelmente palavra-guia mais elementar que ser, entes ou sentido para exprimir as voltas e reviravoltas de seu pensamento, insistindo ele ao longo de seus escritos que o caminho rumo a um questionamento mais decisivo do ser, a matéria impensada a ser pensada, é mais fundamental que qualquer resposta determinada dada ou resultado esperado.

2. O pensamento antecipa por meio de expectativas que podem ser subvertidas e reorientadas pelo que se encontra, não havendo estrada real ininterrupta de conceitualização do pensamento e do sujeito até a verdade do ser, tendo o próprio Heidegger confessado ter se deparado com reviravoltas inesperadas, becos sem saída e desvios, jogando com os sentidos de Holzwege, trilhas de bosque ou floresta.

3. Questiona-se por que então escrever ou ler sobre Heidegger e o dao, e o que seria esse dao, encontrando-se pista inicial no Zhuangzi 莊子, que afirma que um caminho se faz caminhando por ele, sendo o caractere chinês dao 道 composto pelos radicais relativos a caminhar (辶) e cabeça (首).

4. Não é acidental que Heidegger, que já começara a pensar sobre o caminho daoista em 1919 e 1930, e os primeiros daoistas tenham acentuado questões da coisa como aquilo que deve ser encontrado e do nada como modo de viver livremente que desfaz as fixidezes do si e da identidade.

5. Essa tarefa tripla demanda prática intercultural específica de hermenêutica (a arte da interpretação) em resposta às tensões entre circunstâncias históricas e questões filosóficas, desafiando a interculturalidade os pressupostos ortodoxos baseados em identidade que continuam a dominar a filosofia e sua história.

6. O que se segue pode ser lido como reflexão sobre a afirmação de Heidegger: “O desprendimento em relação às coisas e a abertura para o mistério pertencem juntos. Eles nos concedem a possibilidade de residir no mundo de modo inteiramente outro” (GA16: 528).

7. Questiona-se como veio a ocorrer essa notável conjunção e seu ocultamento, exigindo responder a essa questão, primeira tarefa deste estudo, descrição histórica situante e singularizante, tendo o interesse de Heidegger pelo daoismo feito parte de movimento geracional — compartilhado por Martin Buber e outros — e sido único no modo como foi adotado em seu pensamento.

8. A significação dessa adaptação de fontes daoistas antigas na filosofia europeia permanece controversa, havendo, primeiro, visão anteriormente prevalente que vê essa interseção como idiossincrasia pessoal fortuita que não desempenha papel sistemático sério em seu pensamento.