A lógica escatológica de
Hegel é uma ontologia, e Heidegger, em “A Sentença de
Anaximandro” (Holzwege, 1946), escreve que o ser, como ser-destinal (geschicklich), é em si mesmo escatológico, devendo a escatologia do ser ser pensada a partir da história do ser.
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A Fenomenologia do Espírito representa apenas uma fase na escatologia do ser, na medida em que o ser se reúne, na extremidade de sua essência até então marcada pelo selo da metafísica, como subjetividade absoluta da vontade de vontade incondicionada.
Apesar do imenso progresso marcado pelo conceito hegeliano de refutação, resta uma diferença decisiva entre a relação hegeliana e a relação heideggeriana com a história da filosofia, diferença na qual se situa o problema central deste curso.
A Destruição heideggeriana da história da ontologia não é uma refutação nem mesmo no sentido hegeliano, porque a filosofia hegeliana da refutação está ditada por uma lógica e uma filosofia da Ideia ou do Conceito que Heidegger vê como o último momento na história da ontologia – momento de síntese, mas ainda de dissimulação do ser sob o ente.
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Em Ser e Tempo, parágrafo 1, a Lógica de
Hegel é invocada como último momento de uma tradição de ontologia clássica que remonta a
Platão e
Aristóteles, tradição que
Hegel recompreende e sintetiza, mas sem dar o passo além dela que Heidegger quer dar.
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No parágrafo 6 de Ser e Tempo, Heidegger insiste no pertencimento do hegelianismo à tradição ontológica a ser destruída, afirmando que a ontologia oriunda da ontologia grega deteriorou-se numa tradição que a rebaixou ao nível do óbvio e a tornou mero material de reelaboração, como ocorreu em
Hegel.
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A Lógica de
Hegel foi apresentada pelo próprio
Hegel como metafísica – “Die Logik fällt mit der Metaphysik zusammen” (A Lógica coincide com a Metafísica) – e a determinação do ser como subjetivo, como Ideia em si e para si, persiste ao longo de toda a obra hegeliana.
A diferença entre a refutação interiorizante hegeliana – refutação como Erinnerung – e a Destruição heideggeriana é tão próxima do nada quanto possível, sendo ambas não a crítica de algum erro nem a exclusão simplesmente negativa de um passado da filosofia, mas uma desconstrução, uma de-estruturação, o abalo necessário para fazer aparecer as estruturas, os estratos, o sistema de depósitos e sedimentações da tradição ontológica.
No parágrafo 6 de Ser e Tempo, Heidegger previne contra uma má interpretação de seu projeto de Destruição, afirmando que ela nada tem a ver com um relativismo vicioso dos pontos de vista ontológicos nem com a demolição (Abschüttelung) da tradição, mas visa antes a delimitar as possibilidades positivas dessa tradição e seus limites.
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A Destruição não se relaciona de modo negativo com o passado; sua crítica concerne ao “hoje” e ao modo dominante de tratar a história da ontologia, seja como história de opiniões, ideias ou problemas, e tem uma intenção positiva, permanecendo sua função negativa tácita e indireta.
O título “A Questão do Ser e a História” – e não “Ontologia e História” – começa a ser justificado pelo que foi dito, mas essa justificativa é apenas inicial, pois a Destruição invocada é a da história da ontologia, não da ontologia ela mesma, e poder-se-ia supor que Heidegger quisesse fundar uma ontologia autêntica além da tradição.
Não é esse o caso: a destruição da história da ontologia é uma destruição da própria ontologia em sua totalidade, embora em Ser e Tempo Heidegger ainda use o termo positivamente, querendo despertar uma ontologia fundamental adormecida sob a metafísica especial ou geral.
Primeiro ponto de referência: a abertura de Ser e Tempo (1927). No parágrafo 3, Heidegger define a primazia da questão do sentido do ser em relação às disciplinas regionais, cada uma das quais pressupõe uma pré-compreensão do sentido do ser de seu objeto, pré-compreensão que deve ser trazida à luz do explícito.
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O movimento é análogo ao de
Husserl, que também definiu a necessidade de fixar o sentido dos objetos correspondentes a cada ontologia regional ou material, com a diferença decisiva de que para
Husserl os entes são objetos determinados por uma consciência transcendental, ao passo que para Heidegger o objeto em geral é apenas um tipo determinado de ente.
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A questão do sentido do ser em geral – que não é uma generalidade construída – é o que Ser e Tempo chama de ontologia fundamental, e toda ontologia, por mais rico que seja o sistema de categorias de que dispõe, permanece cega e perverte sua intenção mais íntima se não clarificou previamente o sentido do ser.
Segundo ponto de referência: a Einführung in die Metaphysik (1935). Nesse curso, considerado por Heidegger como complemento de Ser e Tempo, ele restringe a extensão da palavra ontologia à sua significação e uso de fato na tradição e propõe abandoná-la, pois dois modos de questionamento radicalmente diferentes não devem levar o mesmo nome.
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O conceito de ser como o conceito mais universal – aquele cujo alcance se estende a tudo, inclusive ao nada – leva à conclusão de que o ser é um derradeiro indeterminado e vazio, mas isso não alcança a essência do ser e o interpreta mal desde o início, tornando sem esperança o questionamento.
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A palavra “ontologia” foi cunhada no século XVII para designar o desenvolvimento da doutrina tradicional dos entes em disciplina filosófica e ramo do sistema filosófico, mas pode também ser tomada em sentido amplo como o esforço de colocar o ser em palavras – e é porque esses dois modos de questionamento são mundos à parte que se deve renunciar ao termo.
Terceiro ponto de referência: a conferência “A Palavra de
Nietzsche: 'Deus está Morto'” (1943). Heidegger considera que o próprio conceito de ontologia só pode ser inadequado por razões de essência e não de fato, pois o termo concerne ao on – ao ente – e não ao einai, sendo a ontologia portanto solidária da metafísica.
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Mesmo
Nietzsche, que quis demolir a metafísica clássica, permanece preso a uma metafísica do ser como valor – com o ser como essência na “vontade de poder” e como existência no “Eterno Retorno do Mesmo” – sem ter meditado sobre a origem da distinção entre essentia e existentia.
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Todo pensamento metafísico é onto-logia – escrito com hífen – ou não é nada, e Heidegger não se contentou com o projeto de “destruir” a história da ontologia; ele quis destruir a própria ontologia, que é uma com sua história.
O que vem de ser mostrado justifica a primeira parte do título do curso – “a questão do ser” e não “ontologia” – mas a justificativa é apenas inicial, pois da próxima vez será preciso falar de história, e antes do “e” que liga ser e história, esse “e” que constitui o próprio lugar do problema e sobre o qual ainda não está decidido se se deve escrever et ou est.