A CORAGEM DE SEU MEDO

DERRIDA, Jacques. Séminaire La bête et le souverain II. Paris: Galilée, 2010, 215-216

Mesmo que fosse apenas a coragem do próprio medo. Como entender isso, a coragem do próprio medo? Pois, assim como o perdão só pode perdoar o imperdoável — o que parece ao mesmo tempo impossível e imposto pelo próprio conceito de perdão —, da mesma forma a coragem só pode ser a coragem de um medo. Se sou corajoso porque não tenho medo, não sou corajoso; é tão simples, tão bobo, mas também tão difícil de conceber quanto isso. A coragem nunca está isenta de medo. Se sou corajoso sem ter medo, não sou corajoso. Se sou corajoso por natureza e porque sou insensível, invulnerável ao medo, porque ignoro naturalmente o medo, porque permaneço impassível e insensível ao medo, invulnerável ao medo em virtude de um dom da minha natureza, de uma sorte do meu caráter ou da minha história consciente ou inconsciente, se estou de antemão imune ao medo por idiossincrasia, ou mesmo por idiotice, por simples tolice, se estou de antemão protegido contra o medo, contra o pavor ou o susto, contra o terror, contra o receio, contra a inquietação, contra a angústia, contra o pânico, então está excluído que eu seja corajoso, que eu precise ser corajoso alguma vez, nem mesmo compreender o que a palavra coragem significa: a coragem para pensar a coragem, portanto o medo, para pensar em geral, para dizer o que vem à mente e, antes de tudo, para dizer a si mesmo o que se pensa, para olhar diretamente nos olhos aquilo que se deve pensar — algo como alguém — e que assusta o pensamento e o coração, o pensamento do coração e o coração do pensamento, o pensamento no corpo e como corpo, ou seja, aqui, o coração (a coragem, e a palavra coragem, provêm do que chamamos de coração, portanto, o pensamento também). O pensamento dessa coragem amedrontada, desse terror corajoso, deve ser libertado de toda a imagética viril, militar, atlética ou mística da exibição heróica, da bravura ou do martírio. Ela deve até mesmo ser libertada de toda normatividade ética, de toda prescrição do tipo: “a coragem (de pensar) é uma virtude, a coragem é boa, a coragem (de pensar) é um dever, é preciso, é melhor ser corajoso, subentendendo que ‘medroso’ ”: pois, de forma obscura, embora a coragem não seja o medo, não há coragem sem medo, nem absoluto da coragem — e do coração — sem o pânico absoluto.