VONTADE NÃO É ESFORÇO (2007)

DAVIS, Bret W. Heidegger and the will: on the way to Gelassenheit. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2007.

Voltemos à tarefa em questão, que é apresentar uma explicação preliminar do conceito de “vontade”. O que caracteriza a (des)sintonia fundamental da vontade? Heidegger desenvolve sua concepção madura da vontade principalmente por meio de seu encontro com Nietzsche. Em sua primeira série de palestras sobre Nietzsche, em 1936, Heidegger se baseia no pensamento de Nietzsche para apresentar uma espécie de explicação fenomenológica da vontade, expondo os seguintes pontos.

A vontade deve primeiro ser distinguida de um “mero esforço” (blosse Streben) que, por assim dizer, apenas empurra a pessoa por trás. Embora “não seja possível para nós nos esforçarmos além de nós mesmos, […] a vontade […] é sempre um querer além de si mesmo (über sich hinaus wollen)” (N1 51/41). A vontade não é, portanto, uma simples “encapsulação do ego de seu entorno” (59/48), mas um modo pelo qual o Dasein existe extaticamente no mundo. No entanto, “aquele que quer se coloca entre os seres para mantê-los firmemente dentro de seu campo de ação” (ibid., ênfase adicionada). Em outras palavras, se o sujeito que quer sempre quer para além de si mesmo, abrindo-se para o mundo, isso envolve, ao mesmo tempo, um movimento de trazer o mundo de volta ao reino de seu poder, ao domínio de sua vontade.

Há, portanto, um duplo movimento essencial à vontade. “A vontade sempre traz o eu para si mesmo; assim, ela se encontra fora de si mesma” (63/52, ênfase adicionada); ou, como Heidegger escreve em sua interpretação de Schelling, trata-se de “aquilo que sempre se esforça para voltar a si mesmo e, ainda assim, se expande” (SA 155/128). Ao querer, excedemos a nós mesmos apenas para trazer esse excesso de volta ao eu; “ao querer, (procuramos) nos conhecer como estando além de nós mesmos; temos a sensação de ter alcançado de alguma forma um estado de ser-senhor (Herrsein) sobre (algo)” (N1 64/52). A ekstasis da vontade é, portanto, sempre incorporada de volta ao domínio do sujeito; o movimento de superação de si mesmo da vontade é sempre em nome de uma expansão do sujeito, um aumento de seu território, de seu poder. A vontade é, em resumo, “ser-senhor-além-de-si-mesmo (Uber-sich-hinaus-Herrsein)” (76/63). Chamarei a esse caráter duplo ou “duplicado” da vontade de (incorporação extática).