Coloca-se a questão de saber se o pensamento filosófico pode, na era da mundialização e da descolonização, permanecer confinado ao enclave ocidental delimitado por Roma, Atenas e Jerusalém, constatando-se que a filosofia de língua francesa permanece massivamente eurocêntrica apesar dos numerosos especialistas do Oriente e do Extremo Oriente que a França possuiu e ainda possui, notadamente quanto à Índia, apesar da grande tradição de indologia francesa que remonta à segunda metade do século XVIII
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Citam-se os nomes de Anquetil du Perron, Eugène Burnouf, Silvain Levi, Louis Renou, Jean Filliozat, Madeleine Biardeau e, hoje, Michel Hulin, Michel Angot, Charles Malamoud e François Chenet, como atestação da rica tradição da indologia francesa
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Poucos trabalhos de filósofos franceses tentaram relacionar o pensamento indiano e a filosofia ocidental, a ponto de se falar em “o esquecimento da Índia”, título do livro publicado por Roger Pol Droit em 1989
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Ao contrário do que afirma este último, essa “amnésia filosófica” deve-se menos aos filósofos alemães do século XX, em particular
Husserl, fundador da fenomenologia, e Heidegger, seu discípulo dissidente, do que à desconfiança, característica da tradição positivista francesa, em relação a um pensamento metafísico no qual a referência ao divino permanece onipresente
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São antes os representantes franceses da antropologia histórica da Grécia antiga, como Louis Gernet, Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet, cujos trabalhos pouco exploraram as relações entre a Grécia antiga, a Pérsia e a Índia, que contribuíram, embora denunciando-a, para reforçar a ideia de um “milagre grego” inigualado e inigualável, expressão de Renan, caracterizado pela criação conjunta em Atenas da democracia e da filosofia
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Pergunta-se como não estabelecer aproximação entre o papel atribuído por
Heráclito ao fogo e a importância dada ao fogo como único símbolo do divino no zoroastrismo, religião que estende na mesma época sua influência sobre todo o Oriente Médio e portanto também sobre a Jônia e as proximidades de Éfeso
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Pergunta-se também se a crença na reencarnação encontrada no mito de Er, o Panfílio, que encerra a República, teria alguma relação com a noção indiana do ciclo dos renascimentos, o samsāra, misturando essa história elementos gregos (as três Parcas que presidem à reencarnação), indianos (a doutrina da reencarnação) e iranianos (a noção de escolha do daimon, do gênio que presidirá à próxima reencarnação, escolha da qual “Deus não é responsável”, tema fundamental desse primeiro monoteísmo que foi o zoroastrismo)
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Questiona-se se os gregos teriam tirado tudo isso apenas de seu próprio fundo, sem jamais ter sofrido influência das culturas dos povos que os cercavam, havendo, segundo Jean-Pierre Vernant, razões ideológicas tanto para vincular os gregos aos indo-europeus, vínculo inegável quanto à língua, quanto para fazer, ao contrário, dos gregos os iniciadores de tudo o que se fez de grande no mundo
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A ideia de superioridade indiscutível da cultura grega sobre a cultura indiana impregnou tanto os espíritos que um eminente arqueólogo, especialista da Síria e do Afeganistão e professor na Universidade de Estrasburgo, pôde emitir em 1972 a hipótese de que o Buda não teria sido senão um “produto da Índia grega” e um simples “pregador do epicurismo”
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Um bom contraponto à ideologia europeia do “milagre grego” foi fornecido por um livro publicado em 1954, The Wonder that was India, muito conhecido e apreciado no mundo anglo-saxão, mas apenas tardiamente traduzido ao francês sob o título simples de “A civilização da Índia antiga”