O apelo da consciência dá a compreender o Dasein como ser-em-dívida ou em-falta — como Schuldigsein, sendo o termo alemão que diz a falta — Schuld —, que tem também no plural o sentido de “dívidas”, da mesma raiz do verbo sollen, que significa a obrigação
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Não se trata de compreender a “falta” como carência ou falha, pois a ideia de carência só se aplica ao que é dado, ao subsistente, propondo-se Heidegger “formalizar” a ideia de falta para arrancá-la desses fenômenos que só improprimente se aplicam ao Dasein
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Essa ideia contém, contudo, “negativo” e implica a ideia de responsabilidade, sendo por isso a ideia formal de culpabilidade determinada como “ser o fundamento de uma nulidade”, culpabilidade em sentido existential e não ético, pois não é subsequente à perpetração de uma falta, constituindo antes a condição de possibilidade existential de toda falta ôntica e de toda interpretação “moral” da existência
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Não se deve confundir essa “culpabilidade” existential originária com o tema cristão do pecado — a ontologia do Dasein “nada sabe do pecado”, precisamente por este ser sempre compreendido como perpetração de uma falta, inclusive no caso do “pecado original”
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Trata-se de mostrar que toda falta ôntica se perfila sobre o fundo de uma “culpabilidade” mais originária, e não de concluir da falta “originária” ao ser-culpado, só podendo o ser-culpado do Dasein ser compreendido a partir de seu próprio ser, isto é, do cuidado
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O momento do ser-lançado significa que o Dasein não se colocou a si mesmo na existência, estando de certo modo sempre atrasado em relação a si mesmo quanto a sua própria abertura, encontrando-se sempre já aberto como ser-no-mundo, não sendo tal “facticidade” um evento passado de uma vez por todas
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Uma análise existencial do nascimento poderia mostrar que, tal como a morte, ele não se confunde com evento datável, mas, enquanto o Dasein existe, não cessa de “se produzir” — o homem vem ao mundo uma só vez, no dia do nascimento, mas vem constantemente ao Dasein enquanto vive
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Heidegger apenas roça esse tema, mas ele permite compreender que, ao se falar no passado do ser-lançado, não é no sentido de algo que teria acabado, mas no sentido de haver algo de irrecuperável no existir — o Dasein não põe seu próprio fundamento, sendo-o apenas de modo existente, isto é, no modo da retomada de sua própria facticidade, a de um ser aberto a si mesmo e existente para si mesmo
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Essa não-domínio de si, que não é puro abandono à facticidade — pois esta exige antes ser “assumida” —, constitui a “nulidade” do Dasein, que não remete apenas ao ser-lançado mas também ao próprio projeto, pois o ser-livre do Dasein supõe que, existindo em tal possibilidade escolhida, não existe naquela outra que não pôde escolher