A questão da facticidade e da temporalidade não é a primeira que se coloca Heidegger, que se dirigira primeiro à elucidação dos problemas lógicos, determinando ele sempre, ao rememorar retrospectivamente seu próprio caminho de pensamento — na entrevista com um professor japonês em 1954, na carta ao Padre
Richardson em 1962, no texto autobiográfico dedicado a seu editor Hermann Niemeyer em 1963, ou na intervenção de 1969 no Congresso comemorativo do trigésimo aniversário da morte de
Husserl —, como ponto de partida de seu pensamento a frase de
Aristóteles to on legetai pollakhôs (o ente se diz de múltiplas maneiras), que Franz
Brentano, mestre de
Husserl, pôs em epígrafe de sua Dissertação de 1862, Da significação múltipla do ente em
Aristóteles
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Esse livro, recebido em 1907 das mãos de Conrad Gröber, seu protetor e amigo, foi a primeira leitura filosófica de Heidegger e decidiu a orientação de seu pensamento para a questão do sentido do ser
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Aristóteles distingue quatro maneiras, aparentemente incompatíveis, de enunciar o ente — o ente por si e o ente por acidente, o ente em potência e o ente em ato, o ente enquanto verdadeiro e o ente segundo os esquemas das categorias
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A questão de Heidegger recai sobre a significação diretriz e fundamental que rege essa diversidade de sentidos que
Aristóteles apenas constata, mas ao passo que
Brentano dá à significação categorial do ser um privilégio sobre as demais, Heidegger, por buscar nas Investigações lógicas de
Husserl a solução às questões suscitadas pela leitura de
Brentano, é levado a atribuir importância decisiva ao ser como verdadeiro
É no último seminário que Heidegger ministrou em Zähringen em 1973, dedicado a
Husserl, que exprimiu com maior clareza o que as Investigações lógicas trouxeram de decisivo para a questão do sentido do ser
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Citação de Heidegger — “Com suas análises da intuição categorial,
Husserl libertou o ser de sua fixação no julgamento”
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Afirmar, como faz
Husserl na sexta Investigação, que o ser não é nem um julgamento nem componente real do julgamento é, contra toda a tradição filosófica, recusar identificar o ser à cópula do julgamento, que apenas o significa, ao passo que ele é dado em pessoa na intuição preenchedora que vem atestar a intenção de significação
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Para
Husserl, o ser não é simples conceito, pura abstração, mas dado a uma visão categorial análoga à visão sensível, contando Heidegger, num curso de 1925, Prolegômenos à história do conceito de tempo, a intuição categorial entre as grandes descobertas da fenomenologia husserliana, ao lado da intencionalidade e do sentido originário do a priori, decisiva quanto ao alcance ontológico da fenomenologia
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Percebia assim, na teoria husserliana da evidência, compreendida como ato de identificação do que é visado e do que é intuído, e na teoria da verdade como identidade do visado e do intuído que dela decorre, uma proximidade com o conceito aristotélico de verdade, sobretudo o do capítulo 10 do livro θ da Metafísica, no qual Heidegger vê o cume do pensamento antigo, onde se diz que a verdade pode advir na simples apreensão enunciativa de uma coisa e não apenas no julgamento atributivo
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Citação de Heidegger — “A fenomenologia rompe assim com a limitação do conceito de verdade aos atos de colocação em relação, aos julgamentos (…) Ela retorna, sem consciência expressa disso, à amplitude do conceito de verdade pelo qual os gregos — isto é,
Aristóteles — podiam também chamar de verdadeiros a percepção enquanto tal e o simples fato de perceber algo”
Se
Husserl se aproxima de
Aristóteles, segundo Heidegger, é por ter abalado a definição tradicional da verdade segundo a qual a proposição é o lugar da verdade, ao passo que, como exprime vigorosamente Heidegger em seu curso do semestre de inverno de 1925-26, Lógica, A questão da verdade, para
Aristóteles “não é a proposição que é o lugar da verdade, mas é a verdade que é o lugar da proposição”
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A verdade aparece assim como dimensão do próprio ser e não do julgamento, sendo caracterizar o ser como verdadeiro dar-lhe sua determinação verdadeira, no sentido em que para
Aristóteles só é verdadeiramente o que pode ser desvelado numa apreensão puramente enunciativa que nada acrescenta ao que é, apenas o apresenta
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Aristóteles não se interroga, porém, sobre o sentido dessa identidade entre ser e verdade, não trazendo à luz o caráter propriamente temporal da apresentação do que é na apreensão enunciativa, não lhe aparecendo tampouco o caráter eminentemente temporal da determinação do ser como presença
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O único filósofo em toda a história da ontologia a ter pressentido algo dessa conexão íntima entre a compreensão do ser e o tempo é
Kant, o que explica o debate de fundo que Heidegger trava com ele antes e depois de 1927, em cursos que culminarão no livro
Kant e o problema da metafísica, de 1929
É em sua teoria do esquematismo dos conceitos puros do entendimento que
Kant mostra que o entendimento não pode funcionar de outro modo senão essencialmente referido ao tempo, sendo os esquemas que permitem a aplicação das categorias aos fenômenos determinações a priori do tempo
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Kant pressentiu, sem poder verdadeiramente percebê-la, a função devolvida ao tempo em todo ato do entendimento, o que se deve essencialmente à concepção que fazia do próprio tempo, herdada da tradição filosófica, sobretudo de
Leibniz e Newton
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Desde
Aristóteles o tempo é definido como tempo da natureza, tempo do mundo objetivo, e enquanto se mantiver tal concepção, isto é, enquanto o tempo não for compreendido como sendo verdadeiramente o próprio Dasein, permanece impossível perceber a conexão íntima de todo ato de consciência com o tempo
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Heidegger propõe-se, com base numa concepção do tempo radicalmente diferente daquela que rege toda a tradição, tematizar a estrutura temporal dos fenômenos lógicos no quadro do que poderia constituir, sob o nome de cronologia fenomenológica, uma nova disciplina fundamental da filosofia, sem relação com a disciplina científica homônima das ciências históricas
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Tratar-se-ia de mostrar em que fenômenos que não ocorrem necessariamente no tempo, não sendo portanto necessariamente temporais (zeitlich), como a verdade ou a falsidade, não deixam de ser caracterizados pelo tempo (temporal), sentido que permanece a esclarecer, dada a grande confusão que reina no domínio filosófico quanto às determinações temporais
Assim a questão ontológica inicial se reencontra com a do tempo, da facticidade e da historialidade — a questão sobre o ser enquanto presença torna-se questão sobre o caráter temporal do ser, passando o tempo a fazer questão da mesma maneira que o ser, precisamente pela impossibilidade de pensar a relação entre ser e tempo a partir do conceito de tempo herdado da tradição
Não se deve imaginar que, por aceitar, a pedido de
Husserl, editar as Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo, publicadas em abril de 1928, Heidegger reconheça alguma influência do pensamento husserliano do tempo sobre o seu próprio
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Heidegger não deixa de reconhecer o progresso que representam as pesquisas de
Husserl sobre o tempo em relação à psicologia e à teoria do conhecimento contemporâneas, residindo o mérito essencial das Lições, em relação às Investigações lógicas, no aprofundamento da elaboração da intencionalidade
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Quanto ao tempo, porém,
Husserl continua a vê-lo como algo imanente, interior ao sujeito, ao passo que para Heidegger trata-se de pensar o próprio “sujeito” como tempo, razão pela qual, no curso do semestre de verão de 1928 sobre Os primeiros princípios metafísicos da lógica, dedicado ao problema do fundamento e ao princípio de razão — tema também do pequeno opúsculo Da essência do fundamento, da mesma época, dedicado a
Husserl em abril de 1929 por seu septuagésimo aniversário —, Heidegger declara que o que
Husserl ainda chama consciência temporal, consciência do tempo, é justamente o próprio tempo em sentido originário
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Citação de Heidegger — “O que
Husserl ainda chama de consciência temporal, isto é, consciência do tempo, é justamente o próprio tempo no sentido originário”
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Não há para Heidegger, de um lado, o tempo em seu próprio escoamento e, de outro, as modalidades de consciência pelas quais esse escoamento seria apreendido, havendo apenas um único processo de temporalização ao qual não se pode atribuir subsistência separada, o que o torna impróprio a toda apreensão conceitual
A questão do ser e a questão do tempo não constituem, portanto, dois temas separados no pensamento de Heidegger, consistindo a novidade de Ser e tempo precisamente em ter feito desses dois problemas tradicionais uma única questão, a da temporalidade do ser
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É isso que Heidegger quer sublinhar ao afirmar, ao final de
Kant e o problema da metafísica, que é a conjunção “e”, nesse título, que encerra em si o problema central
O sentido temporal do ser
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Para compreender o problema central de Ser e tempo é necessário voltar-se às primeiras páginas do livro, prefácio e introdução, que Heidegger provavelmente escreveu no momento em que, como ele mesmo conta, durante o semestre de inverno de 1925-1926, teve de pensar em publicar as pesquisas empreendidas desde 1923 para poder ser nomeado em Marburg como sucessor de Nicolai Hartmann
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A citação do Sofista de
Platão que abre Ser e tempo não é simples ornamento, mas indicação de que a questão do sentido do ser já foi colocada pela metafísica antiga, que conheceu algo semelhante a uma gigantomakhia peri tês ousias, um combate de gigantes acerca do ser
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Citação de
Platão (Sofista) — “nós mesmos, até agora, imaginávamos compreendê-lo, mas eis-nos agora caídos no embaraço”
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Para
Parmênides e seus discípulos, o que significa o termo “ente” é “coisa há muito familiar”, e é o próprio
Platão quem fala pela boca do Estrangeiro de Eleia ao afirmar essa mesma frase, tendo
Platão, enquanto fiel à tese parmenídica da oposição radical entre ser e não-ser, crido compreender o que significava “ente”, encontrando-se agora em embaraço por ver-se obrigado a refutar a tese “paterna” e atribuir ser ao não-ser para explicar a existência do sofista
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Heidegger encontra-se diante da tradição metafísica inteira na mesma situação de
Platão diante de
Parmênides, tratando-se também para ele de recolocar de modo mais radical a mesma antiga questão diretriz do pensamento grego, a questão do ser, razão pela qual sempre insistiu em que Ser e tempo não é uma “novidade”, pois em filosofia o que importa não é dizer algo novo, mas compreender de modo mais radical o que é antigo e tentar apropriar-se dele
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Colocar de novo a questão do ser não significa retomar o questionamento platônico, mas recolocar a mesma questão do sentido do ser de modo ainda mais radical do que
Platão, implicando isso que o que está em questão já não é simplesmente o ente mas o ser do ente
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A questão de
Platão como a de
Aristóteles é questão sobre o sentido a dar ao ente — to on —, ao passo que a de Heidegger concerne ao que determina todo ente enquanto ente e que, sendo ser do ente, não é ele mesmo um ente
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Platão deu o primeiro passo em direção à compreensão do problema do ser ao afirmar no Sofista que a filosofia começa quando se deixa de “contar histórias”, isto é, de explicar o ente pelo recurso a outro ente, como fazem as doutrinas pré-socráticas do ser
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Era isso, contudo, já o que queria Tales — sua pergunta visava o que é o ente enquanto ente, mas em sua resposta esclarecia o ente a partir de outro ente, a água, continuando assim a explicar o ser a partir de determinações ônticas, o que é próprio do mito e da teologia, na medida em que esta recorre a um Deus concebido como ente supremo para explicar o ente em totalidade
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Foi com esse modo de pensar que
Platão e
Aristóteles quiseram romper, visando sob o nome de filosofia uma ciência do ente enquanto tal que tivesse por objeto o ente do ponto de vista de sua essência
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Essa filosofia, porém, é ainda, em vocabulário posterior a Ser e tempo, apenas uma ciência da entidade, não se desdobrando ainda na dimensão do que Heidegger nomeia a “diferença ontológica”, que constitui seu pensamento fundamental, só tematizada no curso do semestre de verão de 1927, Os problemas fundamentais da fenomenologia, e depois em Da essência do fundamento, de 1929
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A diferença entre ser e ente forma, contudo, o horizonte implícito de Ser e tempo, onde se afirma repetidamente na Introdução que “o ser não é algo como o ente”, não significando interrogar sobre o ser enquanto tal indagar o que é comum a tudo o que é, ainda que se compreenda, como
Aristóteles, a unidade dessa comunidade como analogia e não como gênero, mas interrogar o que constitui o ente como ente, a condição de possibilidade do ente e por conseguinte de uma ciência da entidade
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Isso, do qual não se pode dizer que “é” — só o ente é, ao passo que há ser —, possui universalidade ainda mais alta que a que o pensamento medieval nomeia os “transcendentais”, os atributos convenientes a todos os seres, não sendo o ser enquanto tal um dos transcendentais — ao lado de unum, bonum, verum etc. —, mas o transcendens por excelência, dimensão que se mantém além de toda determinação ôntica e que o posfácio de 1943 ao curso inaugural de 1929, Que é metafísica?, compreenderá explicitamente como “o outro puro e simples de todo ente”, isto é, como nada
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O que Ser e tempo visa é, segundo o Prefácio, “a elaboração concreta da questão do sentido do ser”, do ser e não mais apenas do ente, sendo seu objetivo “a interpretação do tempo como horizonte possível de toda compreensão do ser em geral”
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Heidegger fala aqui de “objetivo provisório” porque se refere apenas à primeira parte de Ser e tempo, da qual só foram publicadas em 1927 duas seções de três, tendo apenas a primeira parte por objetivo a interpretação do ser a partir do tempo, conforme indica seu título — “A interpretação do Dasein pela temporalidade e a explicação do tempo como horizonte transcendental da questão do ser” —, devendo a segunda parte tratar dos “Traços fundamentais de uma destruição fenomenológica da história da ontologia segundo o fio condutor da problemática da temporalidade”
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Esse objetivo, preliminar à “destruição” projetada, não foi cumprido em 1927, pois Heidegger não publicou a terceira seção da primeira parte, intitulada “Tempo e ser”, que sozinha trataria da “explicação do tempo como horizonte transcendental da questão do ser”, constituindo as duas primeiras seções, “A análise fundamental preparatória do Dasein” e “Dasein e temporalidade”, ambas “a interpretação do Dasein pela temporalidade”
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A leitura atenta do Prefácio de Ser e tempo já dá indicação sobre como entender o título do livro de 1927, não podendo o “e” que une ser e tempo ter o sentido de uma oposição, como no enunciado tradicional “ser e devir”, mas antes o sentido de uma relação íntima entre ser e tempo
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Isso só é pensável se a determinação tradicional do ser como entidade e a do tempo como sucessão de agoras pontuais forem ambas abandonadas em favor de um pensamento mais originário do ser e do tempo capaz de trazer à luz o que o próprio Heidegger nomeia, em seu curso do semestre de verão de 1930, sua “íntima coapertinência”
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É na Introdução que essa relação se precisa, tendo “A exposição da questão do sentido do ser” por objetivo despertar novamente a compreensão para o sentido da questão do ser numa época dominada pelo
neokantismo, o neopositivismo, a filosofia da vida e a fenomenologia, que considera impossível toda ontologia
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Em sua segunda parte (parágrafos 5 e 6), expõe as duas tarefas a cumprir para elaborar a questão do ser, correspondentes às duas partes do tratado projetado, antecipando amplamente o conteúdo da obra inacabada publicada em 1927 e esboçando os grandes traços da problemática de conjunto
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Heidegger declara aí que “aquilo a partir do qual o Dasein compreende implicitamente em geral algo como o ser e o explicita é o tempo”, implicando isso que toda ontologia se move sem sabê-lo no horizonte do tempo, mesmo quando opõe, como a ontologia clássica, o ser ao devir
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Para ver o tempo como o domínio no interior do qual se mantém toda compreensão pré-filosófica do ser e toda explicitação filosófica do ser, requer-se “uma explicação originária do tempo como horizonte da compreensão do ser a partir da temporalidade como ser do Dasein que compreende o ser”, explicação que constitui o objeto da terceira seção não publicada, “Tempo e ser”
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A analítica do Dasein e o destacamento da temporalidade como o que constitui o sentido de seu ser preparam o terreno para responder à questão do sentido do ser, não podendo desvelar-se o tempo como o que constitui o sentido do ser do ente que não é o Dasein, mas com o qual este se relaciona, senão a partir da temporalidade como sentido do ser do Dasein
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É surpreendente constatar que o tempo em sua acepção corrente serve de critério para distinguir as diferentes regiões do ente, opondo-se o temporal ao intemporal (o espacial), ao atemporal (o ideal) ou ao supratemporal (o eterno), compreendendo-se sempre o temporal como o que está no tempo, sem jamais se ter interrogado sobre o fato de que uma tal função ontológica seja devolvida ao tempo
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O conteúdo da terceira seção fica assim claramente determinado — após mostrar que o tempo é horizonte de toda compreensão do ser, tratar-se-ia de mostrar, em contrapartida, que o ser é compreendido a partir do tempo, tornando visível o próprio ser em seu caráter “temporal” ou antes “temporal” (temporal), indicando com isso a relação positiva que todos os modos do ser mantêm com o tempo, o que vale também para o ente dito intemporal ou supratemporal
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A todos os modos do ser reconhece-se assim uma Temporalidade (Temporalität) que se pode desde já qualificar de “horizontal”, por serem compreendidos no horizonte do tempo, ao passo que ao Dasein que compreende o ser é atribuída uma temporalidade (Zeitlichkeit) que não deve ser compreendida como pura intratemporalidade, mas que se distingue da Temporalidade horizontal do ser por seu caráter extático
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Trata-se de marcar por distinção terminológica a diferença da relação com o tempo entre o Dasein, de um lado, e o ente que não é da ordem do Dasein, de outro, não sendo essa diferença de modo algum uma oposição, sendo êxtase e horizonte termos inseparáveis, cuja correlação é que permite compreender a relação entre ser e tempo
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A resposta concreta à questão do sentido do ser só se encontra, portanto, na exposição da problemática da Temporalidade, fio condutor da pesquisa ontológica que Heidegger se propunha conduzir na segunda parte de Ser e tempo, que também deveria compreender três seções, respectivamente sobre
Kant,
Descartes e
Aristóteles, etapas decisivas da história da ontologia
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Seu objeto é “a destruição do fundo tradicional proveniente da ontologia antiga em direção às experiências originárias nas quais foram adquiridas as primeiras determinações do ser que permaneceram em seguida as determinações diretrizes”, tratando-se menos de um abalo ou reviravolta da tradição ontológica do que da evidenciação da origem de seus conceitos fundamentais e da determinação de seus limites
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O caminho regressivo da “destruição” conduz assim do momento kantiano, em que a interpretação do ser foi posta tematicamente em relação com o tempo, ao momento cartesiano do qual
Kant permanece tributário, caracterizado pela omissão de uma análise ontológica da subjetividade do sujeito, que provém da ausência de debate crítico com a ontologia antiga transmitida a
Descartes pela escolástica medieval
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Trata-se então, numa terceira etapa, de mostrar o sentido e os limites da própria ontologia antiga à luz da problemática da Temporalidade
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A ontologia antiga também compreende o ser a partir do tempo, mas sem ter saber expresso dessa função ontológica fundamental do tempo, considerando antes o tempo como um ente entre outros, como atesta o início do tratado aristotélico sobre o tempo (Física IV, cap. 10), que pergunta se o tempo faz ou não parte do ente antes mesmo de determinar sua natureza
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Essa primeira interpretação circunstanciada do fenômeno do tempo permaneceu, segundo Heidegger, determinante para toda concepção ulterior do tempo, podendo-se encontrar testemunho de que os gregos compreenderam o ser sem o saber a partir do tempo na determinação grega do ser como parousia ou ousia
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Ousia é o termo fundamental que designa, para
Platão e
Aristóteles, o ser do ente compreendido como entidade, sendo num curso posterior a Ser e tempo, o do semestre de verão de 1930, Da essência da liberdade humana, que Heidegger analisa em detalhe a plurivocidade desse termo
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Na língua corrente, ousia significa a morada e o bem-fundo, o que está constantemente disponível, constantemente presente, sendo essa significação fundamental a que tornou possível o uso técnico do termo como nome do ser do ente na linguagem filosófica
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A significação temporal de ousia, permanecida oculta a
Platão e
Aristóteles, é a de uma “presença constante”, sendo a partir desse sentido oculto que se compreende por que ousia serve para formar os termos parousia (presença) e apousia (ausência), consistindo a tese de Heidegger em afirmar que parousia constitui simplesmente formulação mais clara do sentido de ousia, fazendo assim aparecer seu sentido propriamente temporal
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O sentido ontológico-temporal de ousia é, portanto, “presença” (Anwesenheit), significando isso que o ser do ente é compreendido em relação com um modo determinado do tempo, o presente (Gegenwart)
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Esse primado do presente provém, mostra Heidegger, do “fio condutor” escolhido pela ontologia grega, devendo toda ontologia necessariamente dar-se uma via de acesso ao ser, definindo o pensamento grego, filosófico e pré-filosófico, o homem como zôon logon ekhon, vivente possuidor da palavra
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Essa ênfase no logos como dimensão própria da humanidade explica que
Platão dê à filosofia, isto é, à ontologia, o nome de dialética, compreendida no Sofista — diálogo ao qual Heidegger dedicou seu curso do semestre de inverno de 1924-1925 — como a discussão da relação entre os gêneros supremos
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Se a dialética se torna supérflua com
Aristóteles, não é por já não a compreender, mas por ter visto seus limites — o legein não é o único fio condutor da ontologia, sendo o noein, a pura apreensão do que já está aí, no qual
Aristóteles vê o lugar de origem da verdade, o modo mais simples de acesso ao ser, que
Parmênides já fizera fio condutor de sua interpretação do ser no fragmento 3 de seu poema
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Citação de
Parmênides — “to gar auto noein estin te kai einai” (“o mesmo é a um só tempo pensar e ser”)
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Legein e noein têm a mesma estrutura temporal, a da pura “apresentação” de algo que se mostra através deles, razão pela qual o ente que aparece na luz do logos ou da noesis só pode ser concebido como presença, isto é, como ousia
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É essa significação temporal do ser, que atravessa toda a história da ontologia, que a “destruição” — que se deve compreender, como o próprio Heidegger sublinha, como uma “des-construção” — tem por objetivo trazer à luz
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Citação de Heidegger — “É somente no cumprimento da destruição da tradição ontológica que a questão do ser adquire sua concreção verdadeira”
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A resposta à questão do sentido do ser na primeira parte — a saber, que esse sentido é temporal — permitiria mostrar, na segunda parte, o que constitui o lugar de origem da história da ontologia, o próprio tempo, evidenciando-se assim o sentido em que se fala de uma “repetição da questão do ser”, consistindo repetir em “colocar de novo”, isto é, colocar de maneira mais radical a mesma questão
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Citação de Heidegger — “A questão diretriz — o que é o ente? — deve necessariamente converter-se na questão fundamental que indaga sobre o 'e' de ser e tempo, e assim sobre o fundamento de um e de outro. A questão fundamental enuncia-se — qual é a essência do tempo para que o ser se funde nele e para que, em tal horizonte, a questão do ser como problema diretor da metafísica possa e deva necessariamente ser desdobrada?”
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O que determina a necessidade da transformação da questão diretriz da filosofia na questão fundamental de Heidegger é unicamente a evidenciação do caráter de questão — a Fraglichkeit — da própria questão diretriz, exigindo desdobrá-la plenamente interrogar-se sobre a estrutura formal de toda questão e sobre o modo de ser do ente que questiona
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O que é questão diretriz para um pensamento que só vê no homem um ente entre outros torna-se questão fundamental para um pensamento que se interroga sobre o fundamento da possibilidade da compreensão do ser, sendo o tempo, enquanto tal fundamento, ao mesmo tempo o que torna possível o que é questionado, o ser, e aquele que questiona, o homem
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Torna-se então “incontornável” a questão da essência do homem enquanto sempre compreendida na questão do ser, não se colocando mais o problema da interpretação do ser do ente a partir de uma orientação unilateral sobre o ente pré-dado, sobre o que Heidegger nomeia a Vorhandenheit, incluindo antes uma investigação sobre o próprio evento da doação (sobre o “dar” do “es gibt Sein”) que só advém com a abertura da existência humana, implicando assim a interpretação do ser necessariamente a analítica do Dasein