O que Heidegger compreende sob esse termo é essa recíproca propriação do ser e do homem pela qual são postos em relação, mas, por ser o Ereignis assim a relação de todas as relações, o que lhe é mais próprio é a despropriação de si, a Enteignis, tal como à visibilidade da alêtheia que advém como Lichtung, clareira, pertence a ocultação, a lêthê, como o que lhe é mais próprio, seu coração
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É precisamente por não ter o Ereignis a estrutura da ipseidade, por só se poder pensá-lo como um destinar (Schicken), um dar que só dá sua doação e que, dando assim, se retém a si mesmo e se retira, que ele é em si mesmo Enteignis, o fundamento sem fundo do ser, seu abismo
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É apenas então que Heidegger rompe verdadeiramente com a ideia de absoluto que rege toda a história do pensamento, pois a finitude do ser, de que se trata nos textos de 1929 — por exemplo, Que é metafísica? —, é ainda pensada em relação à transcendência do Dasein, cujo ser é o horizonte finito, isto é, em relação à in-finitude de uma autoprojeção que se fecha sobre si mesma, ao passo que a finitude do Ereignis provém do limite interno ao próprio destino, que, para destinar, deve permanecer no abrigo abissal que lhe é próprio
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A finitude do Ereignis é pensada a partir do conceito de propriedade que Heidegger distingue do de ipseidade — o próprio é o que pertence a algo, o que o faz ser o que é, e não o que faz dele um “sujeito” suscetível de tomar posse de outra coisa, nada tendo o conceito heideggeriano de Eigentum a ver com a tomada de posse, sempre compreendida como privatização, como indica o latim proprius, vindo de pro-privus
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Esse novo conceito de finitude exige o abandono do pensamento transcendental e “a superação do horizonte como tal”, como Heidegger anota à margem de seu exemplar de Ser e tempo
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O conceito de horizonte revela-se insuficiente para pensar o domínio de abertura, o espaço de jogo no interior do qual o ente pode fazer encontro, pois “ele é apenas o lado voltado para nós do aberto que nos rodeia”, aberto que se deveria antes nomear Gegnet, contrada, no sentido de “livre extensão” (freie Weite)
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Trata-se de sair do fechamento do horizonte para pensar o afastamento próprio do longínquo — a palavra Weite em alemão tem a mesma raiz do latim vitium, cujo sentido primeiro é desvio —, o que impede reconduzir a espacialidade do Dasein à temporalidade, como tentava o parágrafo 70 de Ser e tempo
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Pensar o próprio do espaço, o espaçamento como o desprendimento de um espaço livre, a abertura de uma clareira, só é possível na perspectiva do Ereignis compreendido como destino — Geschick —, significando schicken originariamente ordenar no sentido de arranjar um espaço — einräumen
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Ao empregar Heidegger a palavra Geschick a propósito do ser, quer dizer “que o ser se endereça a nós e se esclarece e que, ao se esclarecer, arranja o espaço de jogo do tempo no qual o ente pode aparecer”
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A Lichtung, a clareira, deve ser pensada a partir do Geschick — enquanto em Ser e tempo, como em textos posteriores (até a conferência O giro, proferida em 1949 mas publicada em 1962), é relacionada com a luz (Licht) e a claridade, em A fim da filosofia e a tarefa do pensamento (1964) é relacionada com sentido bem diferente do verbo lichten, que significa não iluminar, mas desprender um espaço livre, esclarecer no sentido de abrir uma clareira
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A luz e todo o reino da visibilidade ficam assim subordinados ao aberto da Lichtung enquanto clareira, ao arranjo desse espaço de jogo onde presença e ausência, luz e sombra, propriação e despropriação fazem a prova de sua coapertinência