Ser e não-ser no pensamento grego: Parmênides, Górgias, Pirro
Parmênides é um pensador do início do século V a.C., nascido em Eleia, no sul da Itália, colônia fundada por fócios após a tomada de Foceia pelos persas em 546 a.C.
Ele pertence, portanto, ao movimento de expansão colonial grega iniciado a partir do século X a.C., especialmente na Jônia, onde surgiram cidades como Mileto, Éfeso e Foceia, berço dos chamados “pré-socráticos”.
A colonização grega, ainda que marcada por violência, produziu confrontos culturais decisivos, estimulando a reflexão de pensadores como Tales, Anaximandro e Heráclito, dos quais Parmênides é contemporâneo.
A centralidade de Atenas na imagem moderna da Grécia antiga tende a obscurecer o fato de que a filosofia nasceu também nas margens coloniais do mundo grego.
A democracia ateniense e a filosofia socrático-platônica representam apenas um polo de um processo mais amplo.
Os pré-socráticos emergem num contexto de deslocamento, confronto cultural e ruptura com o mundo mítico.
Parmênides foi considerado retrospectivamente fundador da ontologia a partir das leituras platônicas e neoplatônicas, sobretudo no Sofista.
O termo “ontologia”, porém, não pertence nem aos pré-socráticos nem à Grécia clássica, assim como “metafísica”, que originalmente designava apenas a ordenação editorial dos tratados aristotélicos.
“Ontologia” surge apenas no século XVII e se consolida no século XVIII, especialmente com Christian Wolff, para nomear a ciência do “ente enquanto ente” (to on hē on).
Para os pré-socráticos, como sublinha Heidegger, o ser não se manifesta primariamente como objeto conceitual, mas como phusis.
Phusis significa aquilo que surge de si mesmo, que se eleva à presença, ligado etimologicamente à luz (phaos, phōs).
A língua grega distingue radicalmente as raízes do “ser” e do “vir-a-ser”, o que permitiu separar conceitualmente ser e devir, como se vê de Parmênides a Platão.
Parmênides inaugura uma ruptura decisiva: a passagem da phusis para o ser como tal.
Seu pensamento marca a transição do muthos para o logos filosófico.
Trata-se de um deslocamento da narrativa genealógica para uma estrutura de pensamento que busca fixidez, identidade e rigor.
A metáfora fundamental introduzida por Parmênides é a do caminho, que instaura uma ordem metódica e pedagógica do pensar.
Com ela emergem os princípios de identidade e não-contradição, em contraste com a lógica ambivalente do mito.
O homem homérico não possui ainda um estatuto estável como anthropos; Parmênides, ao contrário, ancora o pensamento no cosmos como instância fixa.
Parmênides pensa o ser em oposição radical ao não-ser, sem recorrer a um “terceiro” mediador.
Diferentemente de Platão, que introduz o Bem como horizonte epekeina [beyond] do ser, Parmênides permanece na binaridade absoluta: ser ou não-ser.
A leitura dos textos pré-socráticos exige reconhecer a distância histórica e conceitual que nos separa dos gregos.
Há o risco tanto da projeção anacrônica de nossos conceitos quanto da redução dos gregos a um estágio primitivo da razão.
A dificuldade é agravada pelo estado fragmentário dos textos e pela mediação interpretativa de Platão e Aristóteles.
Parmênides escreve um poema que combina discurso filosófico e forma mítica.
O proêmio descreve a viagem do pensador guiado pelas Filhas do Sol até a deusa da Verdade.
O poema precede em quase um século a definição platônica de filosofia, o que explica o descompasso entre “grande pensamento” e filosofia como Eros inquisitivo.
A tese central do poema afirma: esti gar einai, mèden d’ ouk estin, “é, pois, ser; o nada não é”.
Essa afirmação funda o espanto (thaumazein) diante do fato de que há ser e não nada.
Os mortais, porém, confundem ser e não-ser, razão pela qual Parmênides os chama de “duplas-cabeças” (diakranoi).
O pensamento humano comum se perde no labirinto do ser-que-não-é e do não-ser-que-é.
O labirinto é o caminho que retorna sobre si mesmo (palintropos keleuthos), experiência da aporia.
A saída exige auxílio divino para sustentar a krisis, a distinção rigorosa entre ser e nada.
No fragmento VIII, o ser é descrito por meio de sinais (semata).
A noesis, pensamento humano, avança metodicamente apoiando-se nesses sinais enviados pela deusa.
Os semata são analogias ontológicas [ontological analogies], não propriedades reais do ser, mas modos de dizer e indicar o ser.
Cada sinal exprime o ser como um todo, não como atributo parcial.
Os sinais devem ser pensados conjuntamente, pois dizem o mesmo de modos não idênticos.
O ser não se revela diretamente; permanece à distância, acessível apenas por analogias negativas.
Os principais sinais do ser são formulados negativamente:
Inengendrado (agenēton), imperecível (anōlethron), sem partes (oulomelēs), imóvel (akinēton), sem começo (anarkhon), sem cessação (apauston).
O ser é uno (hen), contínuo (sunekhēs), indivisível (adiaireton), homogêneo (pan homoion).
Ele é mantido nesses limites pela Necessidade (Anankē) e pelo Destino (Moira).
A imagem da esfera exprime um ser finito e infinito ao mesmo tempo, autossuficiente e íntegro.
Parmênides inaugura assim a via de todo pensamento do absoluto.
Esse absoluto só pode ser dito negativamente, como ocorrerá mais tarde na teologia negativa.
A oposição entre ser e não-ser em Parmênides é abrupta e fulgurante.
Diferentemente do platonismo, onde a distinção entre sensível e inteligível assume forma topográfica, em Parmênides a oposição é originária e sem mediação.
Isso permite lê-lo como pensador da diferença, ainda que o termo não apareça explicitamente.
O uso do particípio presente eon emmenai (“o ente é”) é decisivo.
O particípio (metokhē) participa ao mesmo tempo do nome e do verbo.
Ele funda a duplicidade que dará origem à ontologia geral e à teologia na metafísica aristotélica.
No poema, distinguem-se três vias:
A via do ser (eon), única praticável.
A via do não-ser (mē eon), absolutamente impraticável.
A via das aparências (dokounta), labiríntica, própria da doxa.
A experiência do nada pertence à própria experiência do ser.
Decidir-se pelo ser exige excluir radicalmente o nada.
A pergunta de Leibniz, “por que há algo e não nada?”, retoma essa experiência originária.
O espanto grego dirige-se ao ser no sentido verbal do ente, não à multiplicidade ôntica das coisas.
Trata-se da transcendência do ente para o seu ser, no interior do próprio aparecer.
A segunda parte do poema trata da doxa, o domínio das opiniões e aparências.
Ela apresenta uma cosmogonia fundada na mistura de luz e noite.
Não se trata de criação ex nihilo, mas de ordenação do mundo (diakosmesis).
O mundo da doxa emerge no horizonte da linguagem.
“Tudo foi nomeado luz e noite”: nomear é distinguir, individualizar.
O ser uno e íntegro é sem nome; tudo o que tem nome é finito e delimitado.
A doxa não é simples ilusão subjetiva.
Ela expressa a necessidade da diferenciação mundana.
A potência da diferença (dia) rege tanto a distinção das coisas quanto a nomeação.
Dia e noite não são elementos isolados, mas uma única dimensão de abertura e retraimento.
Da alternância nasce o mundo do devir, das estações e das aparências.
Esse mundo é e não é ao mesmo tempo, como aparecer do ser.
Parmênides leva a aparência a sério, sem reduzi-la ao humano.
A doxa não se funda no homem, mas na linguagem.
O homem não cria o mundo das aparências, apenas responde à sua necessidade.
O humano permanece sempre no interior da doxa enquanto vive.
Com auxílio divino, pode porém pensar o ser que normalmente usa sem saber.
Ele é o ser da periferia, do afastamento do ser, e por isso se torna philosophos.
Os sinais do ser pertencem também ao mundo da aparência.
Dizer que o ser é inengendrado não descreve o ser em si, mas indica um modo humano de interpelação.
A linguagem visa o indizível; fala do ser sem jamais capturá-lo.
O homem pode relacionar-se às aparências de dois modos:
Fascinar-se por elas, tomando-as como o próprio ser.
Ou reconhecê-las como misturas de ser e não-ser.
Não se trata de escapar das aparências, mas de pensá-las a partir do ser.
A transcendência do ser em Parmênides é fundativa [foundational], não evasiva [evasive].
Há apenas o mundo das aparências, mas há uma verdade da doxa.
A diferença entre alētheia e doxa não é a de dois mundos.
É a diferença entre o uno e o múltiplo, entre ser e entes, entre verbo e nome.
O ser é o ser do aparecer, assim como o aparecer é aparecer do ser.
Nesse sentido, o ser parmenídico é comparável à coisa-em-si kantiana.
Não se trata de dois objetos distintos, mas de dois modos de relação com o mesmo.
O ser só pode ser pensado negativamente, como noumeno [noumenon], limite do dizer.