Alice Holzhey-Kunz (1943–)
Filósofa e daseinsanalista suíça, cofundadora e presidente honorária da Sociedade Suíça de Daseinsanálise (Schweizerische Gesellschaft für Daseinsanalyse - SGDA) e docente no Daseinsanalytisches Seminar de Zurique, Alice Holzhey-Kunz é uma das vozes mais originais da psicopatologia fenomenológica contemporânea. Notabilizou-se pela reformulação crítica da Daseinsanálise tradicional fundada por Medard Boss e Ludwig Binswanger, aproximando a clínica de uma leitura rigorosa da analítica existencial de Martin Heidegger e da psicanálise de Sigmund Freud. Sua tese nuclear redefine o sofrimento psíquico não como mero déficit ou disfunção biológica, mas como uma lucidez existencial radical e dolorosa: o paciente psicopatológico padece de uma sensibilidade aguçada para os traços ontológicos fundamentais da condição humana — finitude, contingência, mortalidade, isolamento e falta de fundamento originário do ser.
1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. Leiden am Dasein: Die
Daseinsanalyse und die Aufgabe einer Hermeneutik psychopathologischer Phänomene. Wien: Passagen Verlag, 1994.
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. Das Subjekt auf der Couch: Zur philosophischen Bedeutung der Psychoanalyse. Wien: Passagen Verlag, 2001.
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HOLZHEY-KUNZ, Alice.
Daseinsanalyse: Der Blick zurück und der Blick nach vorn. Wien: Passagen Verlag, 2014.
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Foco: Balanço histórico e epistemológico dos desenvolvimentos da Daseinsanálise desde os Seminários de Zollikon; crítica aos reducionismos onticistas de Medard
Boss e proposição de uma clínica atenta à diferença ontológica heideggeriana.
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. Daseinsanalysis. Translated by Sophie Loidolt. London: Free Association Books, 2014.
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Foco: Sistematização monográfica traduzida ao inglês apresentando as bases metodológicas, a teoria psicopatológica dos delírios, fobias e neuroses obsessivas, e a condução prática do encontro psicoterapêutico existencial.
2. Antologias Coorganizadas, Diálogos Clínicos e Ensaios Hermenêuticos
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HOLZHEY-KUNZ, Alice; CONDRAU, Gion (Hrsg.).
Daseinsanalyse und Philosophie. Bern: Verlag Hans Huber, 1990.
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. Emotionales Gewahrsein der existenzialen Grundverfassung: Zur Theorie der psychopathologischen Phänomene. In: Phänomenologische Forschungen. Hamburg: Felix Meiner Verlag, 2008.
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. Die
Daseinsanalyse als phänomenologische Hermeneutik des seelischen Leidens. In: Handbuch Phänomenologische Anthropologie und Psychopathologie. Berlin: Springer, 2021.
3. Artigos Seminais, Tradução e Recepção Internacional
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. What Does It Mean to Suffer from Existence? A Daseinsanalytic Understanding of Emotional Illness. Journal of the Society for Existential Analysis, 2005.
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. Heidegger's Significance for Psychotherapy: The Zollikon Seminars and Beyond. Existential Analysis, 2016.
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HOLZHEY-KUNZ, Alice. The Illusion of Health: Ontological Illness as Truth. Philosophy, Psychiatry, & Psychology, 2018.
4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica
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O Sofrimento no Dasein como Lucidez Ontológica: A inovação fundamental de Holzhey-Kunz consiste em inverter o paradigma psiquiátrico comum que trata os transtornos mentais como anomalias cognitivas ou cerebrais. A pessoa em sofrimento não está iludida ou distorcida em relação à realidade: ela percebeu, de modo demasiado cru e insuportável, as verdades ontológicas da existência que as pessoas chamadas normais conseguem ocultar sob as rotinas e convenções cotidianas do impessoal (das Man).
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A Diferença Ontológica Aplicada à Psicopatologia: Retomando Martin Heidegger, Holzhey-Kunz sustenta que a aflição psíquica opera na articulação entre o plano ôntico (os fatos, biografias e eventos concretos da vida) e o plano ontológico (as condições universais e inescapáveis de ser-no-mundo). Nas neuroses e psicoses, um evento factual comum — uma perda passageira, uma rejeição pontual ou uma escolha inevitável — ganha proporções aterrorizantes porque descortina subitamente o abismo do nada, a impermanência e a falta de garantias da condição humana.
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O Sintoma como Defesa e a Cura como Sustentação: Os sintomas clínicos — como as ruminações obsessivas, as paralisias fóbicas, o recolhimento melancólico ou a criação delirante — são interpretados por Holzhey-Kunz como estratégias inconscientes desesperadas para velar a verdade ontológica descoberta pelo Dasein e conter a angústia. Consequentemente, o objetivo da Daseinsanálise não é normalizar o paciente nem reinseri-lo no esquecimento complacente do cotidiano, mas capacitá-lo a tolerar conscientemente a abertura, a responsabilidade e o mistério irredutível do próprio si.