BINSWANGER, Ludwig. Discours, parcours, et Freud. Analyse existentielle, psychiatrie clinique et psychanalyse. Paris: Gallimard, 1970.
Advertência do tradutor Roger Lewinter
1. A expressão “recusa esquizofrênica”, que Freud teria empregado para caracterizar a escrita de Binswanger, permite reunir em uma mesma interpretação seu percurso científico, culminante nos monumentais Estudos sobre a esquizofrenia, e seu discurso, compreendido como um estilo de vida que encontra na linguagem sua forma de manifestação.
2. A formação de Binswanger desenvolve-se na tensão entre uma psiquiatria biologicamente orientada, que considera a doença mental uma enfermidade orgânica e intervém tecnicamente sobre um corpo mecanizado, e uma filosofia voltada às categorias racionais e às estruturas transcendentais da existência, sobretudo em Kant e Husserl, fazendo de seu discurso o lugar de uma aproximação problemática entre a dimensão concreta da medicina e a investigação eidética da filosofia.
3. A psicanálise apresenta-se inicialmente como possibilidade de superar a oposição entre corpo e espírito, pois se afasta do organicismo psiquiátrico para abordar o sofrimento mental mediante a linguagem na qual se exprimem as alterações da história de vida, estabelecendo uma relação que reconhece o paciente como sujeito de uma palavra, em vez de reduzi-lo a objeto de uma técnica.
4. A reunião psicanalítica entre corpo e espírito torna-se, entretanto, inaceitável para Binswanger quando parece reduzir a pluralidade de mundos preservada por sua oposição, enquanto a separação mantida pela psiquiatria permitiria à fenomenologia descrever os diferentes campos humanos em sua diversidade e conservar simultaneamente a identidade própria e a alteridade do corporal e do psíquico.
5. A noção psicanalítica de pulsão desfaz essa separação ao constituir um conceito limítrofe entre somático e psíquico, no qual o corpo já é portador de significação e a vida corporal se projeta em diferentes campos de realidade e atividade, instaurando um corpocentrismo que compreende os projetos de mundo como representações de uma ausência comum; a atualização da ipseidade na alteridade torna-se, assim, simbolização, contrapondo à topologia eidética da fenomenologia uma biologia existencial entendida como expressão necessariamente encarnada da unidade da vida.
6. A transformação da psicanálise em análise existencial conserva a ideia de um princípio originário único, mas desloca sua compreensão do bios para o eidos, concebendo-o como estrutura de ser que se manifesta em projetos de mundo atualmente irredutíveis, de modo que a apropriação da analítica heideggeriana supera a oposição entre físico e metafísico na direção deste último e reconduz paradoxalmente Binswanger à psiquiatria.
7. A oposição entre psiquiatria e psicanálise envolve suas diferentes relações com a história, pois a primeira considera a doença como atualização de disposições materiais preexistentes, enquanto a segunda, formada a partir da problemática da histeria, compreende o adoecimento como alteração da história de vida produzida pelo encontro traumático com uma alteridade, cuja elaboração na relação terapêutica permite à ipseidade retomar e transformar aquilo que a modificou.
8. A recusa binswangeriana de uma causalidade traumática exterior transfere a eficácia do acontecimento para a estrutura de presença que lhe confere alcance existencial e, nessa interpretação crítica, elimina a possibilidade de cura ao converter uma alteração historicamente produzida e superável em determinação essencial e intemporal, permitindo à análise apenas explicitar possibilidades já inscritas em uma estrutura adoecida que, por seu caráter abstrato, permanece fora do alcance da relação.
9. A análise existencial substitui a constituição histórica do eu por uma temporalidade na qual o futuro apenas atualiza uma ipseidade transcendental preexistente e imutável, fazendo da história a manifestação de um ser já determinado, em vez do devir imprevisível de uma existência; nesse quadro, a vida torna-se apresentação da morte, e a análise orienta-se menos para a elaboração do eu do que para o desvelamento de um si cuja verdade última converte a história de vida em história de morte.
10. A atividade do analista existencial assume a forma de um olhar que percorre a multiplicidade dos mundos e os circunscreve em uma topologia discursiva, mas a linguagem, inteiramente ajustada à manifestação dos fenômenos e capaz de descrevê-los apenas depois de ocorridos, perde sua espessura representativa e sua relação consigo mesma, tornando-se pura presença que já não significa algo ausente.
11. A pretensão de transparência e de adequação absoluta à ipseidade transforma a linguagem em alteridade e o analista em um ponto abstrato de convergência dos fenômenos, cujo olhar se aproxima da ficção de uma consciência divina que ordena um mundo do qual permanece ausente, resolvendo a diversidade dos projetos de mundo em uma unidade de si produzida pela própria operação descritiva.
12. A comparação com o artista de Thomas Mann revela uma posição igualmente marcada pela distância em relação à vida, pois Tonio Kröger observa um mundo do qual se encontra separado e Adrian Leverkühn procura uma existência metafísica mediante a renúncia à vida física, fazendo da descrição e da criação formas de presença que dependem da ausência e da ficção.
13. O artista distingue-se, porém, dessa configuração esquizofrênica porque não se dissolve na alteridade e, como o psicanalista, estabelece uma relação na qual a ipseidade e aquilo que lhe é outro constituem um eu capaz de dar consistência à palavra, apreendendo o fenômeno como representação de uma ausência e transformando-o em símbolo por meio de sua própria participação.
14. A diferença decisiva reside no estatuto do símbolo, compreendido pela psicanálise e pela arte como representação de uma ausência originária, enquanto a análise existencial o apreenderia como ausência de representação no conteúdo manifesto, substituindo a relação consistente entre ipseidade, alteridade e eu pelo desvelamento de um ser encoberto no discurso; a criação artística preserva, assim, uma relação humana ao representar o corpo a partir de um mundo dele distanciado, ao passo que a configuração esquizofrênica mantém o corpo separado do mundo e aprisionado em uma linguagem autonomizada cuja proliferação dissolve a comunicação.
15. A existência esquizofrênica circunscrita pelo discurso de Binswanger aparece, nessa conclusão crítica, como privação da relação consigo mesma e fechamento da potência artística, na qual a vida corporal se transforma em elemento de uma cosmologia e o olhar permanece aberto, mas encoberto pela própria transparência.