CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
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Inserção conceitual de tyche e automaton na análise aristotélica das causas
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A noção de tyche é elaborada no contexto da investigação das aitiai, ou causas, no livro II da Física.
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tyche e automaton são introduzidos como causas motoras, isto é, como princípios a partir dos quais o movimento tem início.
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Essas causas distinguem-se da matéria, da forma e da finalidade, que estruturam o quadro clássico das quatro causas.
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A análise não visa explicar regularidades científicas, mas esclarecer um domínio marginal e problemático da causalidade.
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Estatuto causal acidental de tyche e automaton
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Nem tyche nem automaton são causas por si mesmas, kath’ hauto.
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Elas operam apenas como causas por acidente, kata sumbebêkôs.
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A analogia com o construtor que é também flautista mostra que a causalidade acidental não define a essência da ação.
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O efeito produzido não deriva daquilo que constitui o agente enquanto tal, mas de uma propriedade contingente associada a ele.
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Essa estrutura acidental explica por que tais causas não possuem valor explicativo forte.
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Domínio próprio do contingente e do indefinido
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tyche e automaton não se aplicam ao que acontece sempre ou na maioria das vezes.
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Seu campo próprio é o do contingente, do acidental e do indefinido.
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O caráter aoriston do indivíduo implica que o que pode acontecer a um ente singular é potencialmente ilimitado.
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O acidente é compreendido como aquilo que sobrevém a um sujeito ou como o cruzamento fortuito de séries causais heterogêneas.
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Exemplos como o encontro inesperado entre credor e devedor ilustram esse cruzamento sem coordenação intrínseca.
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Por isso, tais causas contam como nada diante das causas por si mesmas.
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Condição teleológica mínima para a identificação de tyche e automaton
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Apesar de sua fragilidade causal, tyche e automaton são percebidos e nomeados.
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Isso ocorre porque se aplicam apenas a eventos que parecem ocorrer em vista de algo.
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O acontecimento apresenta uma aparência de finalidade, mesmo sem ter sido causado por uma intenção final.
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A análise aristotélica insiste no caráter de aparência dessa finalidade.
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O evento parece ter sido querido, embora não o tenha sido de fato.
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Distinção de alcance entre automaton e tyche
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Automaton designa qualquer ocorrência que apresente aparência de finalidade.
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tyche é um subconjunto mais restrito desse domínio.
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Fala-se de tyche apenas quando a finalidade aparente pode ser interpretada como resultado de uma decisão deliberada.
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Essa deliberação, proairesis, é própria de um agente prático.
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Assim, tyche está essencialmente vinculada à praxis humana.
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Exemplos paradigmáticos da diferença conceitual
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O trípode que cai e fica em posição adequada para servir de assento exemplifica o automaton.
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O objeto não caiu para cumprir essa função, embora pareça adequado a ela após o fato.
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O encontro casual entre credor e devedor, que permite a cobrança da dívida, é um caso de tyche.
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Nesse segundo exemplo, a finalidade aparente pode ser lida nos termos de uma intenção prática.
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Em ambos os casos, a finalidade não é real, mas apenas retrospectivamente atribuída.
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Etimologia e explicação conceitual de automaton
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Automaton é interpretado como auto-matên, isto é, por si mesmo em vão.
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O acontecimento ocorre por si, mas sem razão final efetiva.
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Essa etimologia reforça a ideia de um acontecimento que falha em realizar uma finalidade real.
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tyche é compreendida como uma espécie particular de automaton.
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Problemas de tradução moderna
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A tradução de automaton como chance revelou-se pouco produtiva.
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O termo moderno associado ao jogo e ao acaso não corresponde ao conceito aristotélico.
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Traduções francesas divergiram ao verter automaton como espontaneidade e tyche como hasard.
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Outras traduções inverteram ou confundiram os termos, gerando dificuldades conceituais.
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A associação moderna entre acaso e jogo de dados é estranha à análise aristotélica.
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Incompatibilidade entre tyche e o acaso lúdico
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O paradigma do jogo de azar é incompatível com a definição de tyche.
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Um lance de dados ou uma queda puramente mecânica não envolvem escolha racional.
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Aristóteles afirma explicitamente que seres inanimados, animais e crianças não agem por tyche.
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A razão apresentada é a ausência de proairesis.
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Nem fortuna nem infortúnio lhes podem ocorrer senão de modo figurado.
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Essa afirmação torna incompreensível a tradução de tyche como acaso no sentido moderno.
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Estrutura semântica de eutuchia e atuchia
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A distinção grega entre boa fortuna e má fortuna depende da noção unitária de tyche.
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A tradução moderna que opõe chance e infortúnio apaga essa articulação conceitual.
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A perda dessa simetria semântica empobrece a compreensão da causalidade aristotélica.
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Relação entre física, ontologia e ação humana
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A análise de tyche e automaton situa-se no limite entre física e ontologia.
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Ela não descreve o destino trágico ou épico, mas um regime causal rigorosamente definido.
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A fortuna torna-se objeto de epistêmê, não de cálculo, mas de análise conceitual.
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O conhecimento envolve a compreensão do como se, isto é, da aparência de finalidade.
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Aristóteles integra assim o contingente numa estrutura racional sem reduzi-lo à necessidade.