A segunda grande ekphrasis, atribuída a
Hesíodo, repete o gesto homérico.
-
Seu objeto é o escudo de Héracles.
-
Essa ekphrasis não descreve um objeto natural nem um artefato histórico.
-
Ela descreve um objeto já descrito, tomando como modelo um logos anterior.
-
A ekphrasis hesiódica constitui um palimpsesto.
-
Ela não segue um fenômeno, mas um discurso.
-
O objeto perde sua referência natural.
-
O que resta é um artefato cultural integralmente mediado pela linguagem.
-
A consequência dessa mediação é a perda da vida narrativa.
-
A descrição não produz a impressão de gestos verdadeiramente vistos.
-
As falas das personagens soam convencionais.
-
A vitalidade do aparecer é substituída por uma codificação retórica.
-
A ekphrasis é então situada no ponto máximo de distanciamento em relação à metáfora.
-
A metáfora visa colocar as coisas diante dos olhos.
-
Ela produz um entendimento novo ao aproximar domínios distintos.
-
A ekphrasis, ao contrário, não cria um novo sentido, mas reproduz um objeto discursivo.
-
A metáfora opera por transposição criadora.
-
Ela engendra um novo fato de compreensão.
-
Ela renova o sentido por meio de uma analogia viva.
-
A ekphrasis, por sua vez, suspende essa potência inventiva.
-
A ekphrasis deixa de imitar a pintura como apresentação visual.
-
Ela não visa mais fazer ver o objeto como um quadro.
-
Ela imita a pintura enquanto arte mimética.
-
Trata-se de pintar a própria pintura.
-
A ekphrasis imita a imitação.
-
Ela não produz conhecimento do objeto.
-
Ela produz compreensão da ficção do objeto.
-
O que se torna inteligível é o próprio processo de objetificação.
-
A ekphrasis afirma-se assim como literatura em sentido próprio.
-
Ela não remete nem à natureza nem à experiência imediata.
-
Ela remete exclusivamente ao logos.
-
A palavra passa a referir-se à palavra.
-
A proliferação das ekphraseis na Segunda Sofística confirma essa autonomização.
-
O gênero se consolida como prática literária específica.
-
Obras inteiras se organizam como descrições de imagens.
-
A referência ao original torna-se secundária ou inexistente.
-
O caso das xenia radicaliza o afastamento do objeto.
-
As pinturas representam pratos já consumidos.
-
Essas pinturas são descritas literariamente.
-
O objeto está agora a três graus de distância da percepção.
-
A ekphrasis passa a operar sem original acessível.
-
O objeto não pode mais ser percebido.
-
Ele é apenas pressuposto ou produzido ficcionalmente.
-
A descrição já não pode ser adequada a um dado.
-
O destino da ekphrasis se entrelaça com o do romance.
-
Os romances são atravessados por ekphraseis.
-
Mais ainda, muitos romances são estruturados por elas.
-
A ekphrasis torna-se princípio organizador da narrativa.
-
Em certos romances, a ekphrasis funciona como matriz da história.
-
Uma imagem inicial contém o esquema do enredo.
-
A narrativa se desenvolve como desdobramento dessa imagem.
-
O romance torna-se interpretação de uma representação.
-
O caso paradigmático é o romance pastoral atribuído a Longos.
-
A totalidade da obra é a ekphrasis de uma ekphrasis.
-
A história é modelada a partir de uma pintura.
-
Essa pintura é ela mesma descrita como narrativa.
-
A pintura descrita já é um logos.
-
A descrição da pintura desencadeia o desejo de escrever.
-
O olhar se transforma em impulso narrativo.
-
A escrita se apresenta como resposta à imagem.
-
O romance nasce como réplica interpretativa.
-
A noção de antigraphê explicita esse gesto.
-
Escrever é escrever contra e a partir do original.
-
Trata-se de recomeçar, replicar e competir.
-
A escrita assume simultaneamente funções de interpretação e registro.
-
A relação entre pintura e escrita deixa de ser simétrica.
-
Não se trata mais de ut poesis pictura.
-
Nem simplesmente de ut pictura poesis.
-
O que emerge é um ut poesis poesis.
-
A ekphrasis marca o afastamento máximo em relação à natureza.
-
Ela se distancia da ciência natural da filosofia.
-
Ela não visa dizer as coisas como são.
-
Ela opera no domínio da arte e do artifício.
-
A ekphrasis se afasta igualmente da descrição fenomenológica.
-
Ela não busca uma doação imediata do fenômeno.
-
Ela não é ontologicamente inocente.
-
Ela é governada pela eficácia performativa da palavra.
-
A palavra ekfrástica não diz o que vê.
-
Ela faz ver o que diz.
-
Sua potência não é veritativa, mas operatória.
-
A ekphrasis realiza plenamente a passagem da palavra à palavra.