3 Espinosa

CASEY, Edward S. Turning emotion inside out: affective life beyond the subject. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2022.

Emoção por toda parte: Espinosa

“Cada pessoa regula todas as coisas de acordo com sua emoção.” — Espinosa, Ética, parte III, proposição 2, escólio.

1. Apenas vinte e cinco anos depois de As paixões da alma, a Ética de Espinosa apresenta uma concepção radicalmente diferente da emoção, reduzindo as seis paixões fundamentais de Descartes — admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza — a três emoções primárias, prazer, dor e desejo, e reconhecendo, sobretudo, a existência de emoções genuinamente ativas, associadas a ideias adequadas e ao aumento de potência, em contraste com o caráter exclusivamente passivo das paixões cartesianas.

2. A emoção não pertence exclusivamente a um eu separado, mas integra sistemas inteiros de modos inter-relacionados, dentro dos quais o sujeito constitui apenas um agenciamento entre outros, de modo que cada coisa ou acontecimento é aquilo que é em função de suas relações com tudo aquilo que incide sobre ele e com aquilo sobre o qual ele próprio incide.

3. O emprego espinosano de affectus corresponde precisamente a essa primazia das relações, pois o essencial é compreender como os modos se afetam mutuamente na formação de matrizes intermodais e determinar se determinada emoção constitui uma ação fundada numa ideia adequada ou uma paixão fundada numa ideia inadequada.

4. “Há dentro de nós uma grande extensão de território não mapeado que teria de ser levada em conta para explicar nossas rajadas e tempestades.” — George Eliot, Daniel Deronda.

5. O “território não mapeado” das emoções não precisa ser procurado, à maneira freudiana, exclusivamente num inconsciente interior, pois a perspectiva espinosana orienta antes para o território exterior e envolvente constituído pelo nexo completo dos modos que incidem uns sobre os outros, tornando secundária qualquer oposição rígida entre dentro e fora.

6. A distância entre Espinosa e Descartes torna-se ainda mais evidente na eliminação do dualismo mente-corpo, pois pensamento e extensão não constituem substâncias separadas, mas atributos simultâneos da única substância, Deus ou Natureza, de maneira que a ordem das ações e paixões corporais coincide com a ordem das ações e paixões mentais.

7. Na parte III da Ética, as emoções são definidas como “as afecções do corpo pelas quais a potência de agir do corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou impedida, e ao mesmo tempo as ideias dessas afecções”, tornando inseparáveis o componente corporal e o ideacional.

I

1. A radicalidade da concepção espinosana consiste em superar simultaneamente os modelos endógeno e exógeno, pois o agente não constitui substância isolada nem recebe simplesmente determinações exteriores, mas participa de uma densa matriz intermodal na qual atua ou padece conforme a adequação de suas ideias e a potência performativa de seu corpo.

2. Em lugar da cisão cartesiana entre corpo e mente e da necessidade de mediadores como os espíritos animais, Espinosa privilegia conexão, inter-relação, síntese e agência unificada, fazendo da emoção uma dinâmica contextual inserida numa rede de forças e ideias governada pela unidade da Natureza.

3. As emoções deixam de ser irrupções idiossincráticas de almas ou corpos isolados e passam a integrar o tecido universal e interativo da Natureza, no qual pensamento e extensão permanecem inseparáveis até nos movimentos corporais e nas ideias concretas que constituem uma vida individual.

4. O universalismo espinosano aplica às experiências emocionais singulares as mesmas leis que regem a Natureza, antecipando concepções posteriores como o sensus communis kantiano, o “universal concreto” hegeliano e a “singularidade eidética” husserliana, mas evitando dissolver o singular no universal pela distinção entre os atributos infinitos e os modos finitos.

5. A própria emoção constitui uma prova decisiva para essa metafísica universalista, pois aquilo que parece mais individual e possessivo — “minha consternação”, “a indignação deles” — tende ordinariamente a fragmentar-se numa multiplicidade indefinida de sentimentos privados e incomparáveis.

II

1. Espinosa evita uma microfísica estéril das emoções individualizadas ao procurar aquilo que diferentes experiências possuem em comum enquanto determinadas nas relações exteriores, concentrando-se no modo como as emoções se originam, operam e desaparecem por meio de categorias como ação e paixão, afecção e afeto, ideia adequada e ideia inadequada.

2. As emoções constituem uma zona intermediária na arquitetura espinosana, situada entre a abrangência infinita de Deus ou Natureza e as manifestações particulares de experiências afetivas determinadas, oferecendo um nível suficientemente coeso para que estados como a consternação sejam reconhecíveis sem reduzir suas variações concretas a generalizações rígidas.

3. A posição intermediária da emoção em Espinosa difere radicalmente daquela encontrada em Descartes, pois neste último a emoção permanece situada entre a mente e o corpo de um indivíduo isolado, enquanto em Espinosa ela pertence a uma integração metafísica que conecta os modos entre si dentro de uma única substância.

4. A extensão espinosana não é volume vazio, mas atributo infinito concretizado por toda parte em corpos humanos e não humanos que existem e interagem continuamente, fazendo com que os sujeitos corporificados sejam contíguos entre si e que cada movimento corporal possua inseparavelmente um componente ideacional.

5. Embora a multiplicidade e a contingência das emoções pareçam desafiar uma filosofia organizada more geometrico, Espinosa pretende examiná-las pelo mesmo método com que tratou Deus e a mente, reconhecendo implicitamente a importância extraordinária do domínio afetivo ao dedicar-lhe duas das cinco partes da Ética.

III

1. A distinção entre affectio e affectus é decisiva para compreender a emoção em Espinosa, pois affectio designa aquilo que acontece a um modo finito quando outro modo incide sobre ele, deixando traços sob a forma de imagens e ideias que registram a relação estabelecida entre ambos.

2. As afecções devem ser compreendidas processualmente, como modos pelos quais estados transitórios e duracionais são sentidos, resistindo à quantificação e à espacialização porque a passagem entre maior e menor perfeição não possui unidades mensuráveis.

3. Se as afecções são traços residuais das interações entre modos, os afetos (affectus) constituem emoções plenamente desenvolvidas, inseridas no fluxo duracional mas dotadas de integridade própria e irredutíveis a ideias, imagens ou sentimentos.

4. As emoções emergem de um domínio não subjetivo e literalmente ex-tensivo, próprio do corpo e das relações entre modos, sendo definidas pela transformação da potência de agir produzida pelas afecções corporais.

5. A potência de agir aumenta quando se formam ideias adequadas e a emoção se torna ativa, enquanto diminui quando predominam ideias inadequadas e a emoção permanece paixão, de maneira que encontros alegres ampliam a potência e emoções negativas como raiva, ódio ou vergonha correspondem à sua redução.

6. A “potência de agir” equivale à “força de existir”, de modo que a forma assumida por uma emoção corresponde à intensidade de realidade que ela realiza e à capacidade de produzir efeitos sobre outros modos.

7. As emoções podem ser compreendidas como “devires”, na terminologia de Deleuze e Guattari, ou como acontecimentos que, a partir do domínio imanente e duracional das afecções, conduzem para o mundo efetivo e envolvente no qual os seres humanos habitam múltiplos mundos experienciais.

8. A relação entre emoção e “potência de agir” significa uma participação em maior ou menor grau de realidade, pois tanto o corpo que porta a emoção quanto o mundo ao qual ele dá acesso constituem dimensões reais que excedem a representação.

9. As emoções conduzem às próprias coisas por meio de corpos sensíveis capazes simultaneamente de agir e de sofrer a incidência de outros corpos, configurando relações corpo a corpo, modo a modo, coisa a coisa e acontecimento a acontecimento.

10. A emoção fornece um conhecimento singular da realidade não apenas por possuir dimensões cognitivas, mas sobretudo porque sua expressividade conduz para além do sentimento subjetivo e coloca o indivíduo na presença de outros seres e do mundo envolvente.

11. O corpo recebe afecções (affectio) sob a forma de imagens e ideias transitórias integradas à imanência duracional do sentir e, simultaneamente, produz afetos (affectus) vinculados à potência de agir, de maneira que a vida afetiva se constitui pela negociação contínua entre o fluxo receptivo das afecções e o movimento expressivo exterior das emoções.

IV

1. O modelo espinosano esclarece facilmente emoções afirmativas como a alegria, entendida como aumento da potência de agir, e o amor, no qual o afeto retorna à ideia da qual deriva, mas precisa igualmente explicar emoções destrutivas como raiva e ódio, que diminuem a força de existir dos seres com os quais interagem.

2. O atentado ocorrido em Manchester em maio de 2017 exemplifica a complexidade de atos premeditados de ódio, pois a explosão que matou vinte e três pessoas e feriu muitas outras, numerosas delas crianças, combinou raiva, ódio, crueldade e justificação ideológica numa trama emocional que não pode ser reduzida a uma causa única.

3. Discriminação, exclusão ou hostilidade contra muçulmanos não podem ser consideradas causas eficientes suficientes do atentado, pois foi decisiva a maneira pela qual o autor interpretou, imaginou e elaborou essas experiências, fazendo com que determinada afecção pudesse ser conduzida por diferentes caminhos de pensamento e ação.

4. Definir o ódio como dor implica simultaneamente que odiar é doloroso para quem odeia e que o ódio projeta uma situação na qual a pessoa ou coisa odiada deve igualmente sofrer, de modo que a emoção emerge de experiências reais ou compartilhadas de sofrimento e tende a converter-se em desejo retaliatório.

5. Uma experiência inicial de racismo, exclusão ou sofrimento pode ser intensificada pela imaginação e posteriormente absorvida num projeto de ódio que se transforma em sequência concreta de ações, produzindo inclusive um prazer perverso ligado à realização daquilo que passa a ser concebido como ação eficaz.

6. A raiva integra direta ou indiretamente o ódio, funcionando como força emocional que o alimenta e que nasce da desaprovação de ações percebidas como prejudiciais a si mesmo ou àqueles com quem se mantém estreita identificação.

V

1. Espinosa emprega frequentemente oposições conceituais para posteriormente ultrapassá-las, como ocorre tanto com amor e ódio quanto com dentro e fora, pois agir significa ser causa adequada de algo que ocorre “em nós ou fora de nós”, tornando secundária a localização interior ou exterior diante da questão fundamental da potência efetiva.

2. Quando uma ideia adequada constitui a fonte de uma emoção ativa, a potência manifesta-se como ação; quando o indivíduo é apenas causa parcial do que ocorre, predomina a paixão e uma espécie de interioridade passiva.

3. A interioridade passiva não constitui domínio fixo, mas processo duracional constantemente transformado pelas impressões, traços e imagens deixados pela incidência de outros modos, sendo portanto uma interioridade produzida pelas afecções provenientes do exterior.

4. A emoção como ação corresponde ao tornar-se ativo daquilo que permanecia imanente como sentimento, paixão ou afecção, pois toda affectio contém a possibilidade de adquirir uma ideia adequada e transformar a recepção passiva em ação efetiva.

5. O processo transformador pode ser expresso como: “passividade dos sentimentos enquanto afecções // formação de ideias adequadas dessas afecções // emergência das emoções como afetos ativos”, sendo decisiva a transmutação do sentimento pela compreensão adequada de seu conteúdo.

VI

1. O modelo espinosano implica dois movimentos contrários em relação ao sujeito humano, começando pela incidência do mundo sobre o corpo por meio das afecções, de modo que o próprio sujeito corporificado é constituído pela história dessas entradas provenientes do ambiente e não possui uma interioridade pura anterior a elas.

2. O movimento contrário parte do sujeito em direção ao exterior quando afecções adequadamente compreendidas são catalisadas em afetos ativos e tornam-se emoções propriamente ditas, manifestando-se por sua transitividade e orientação para fora.

3. Ao lado da intencionalidade da consciência pura em Husserl, da êxtase da existência (Existenz) em Heidegger e da intencionalidade operante do corpo vivido em Merleau-Ponty, a perspectiva espinosana permite reconhecer uma intencionalidade propriamente emocional, pela qual o sujeito sai de si ao compreender adequadamente suas afecções e transformá-las em emoções ativas.

1. A contribuição de Espinosa consiste decisivamente em localizar as emoções, enquanto sentimentos adequadamente compreendidos, num domínio exterior ao sujeito em que a atividade prevalece sobre a passividade, estabelecendo um ser-fora-de-si (Aussersichsein) da emoção sem, contudo, determinar os lugares concretos em que ela se apresenta.

2. Descartes, Espinosa e Kant carecem ainda de um “comum emocional”, isto é, de um espaço compartilhado no qual a emoção possa apresentar-se perifaneticamente, sendo necessário reconhecer que as pessoas não estão simplesmente dentro de suas peles, mas existem no viver-no-mundo e no viver-com-os-outros.