2 Sêneca a Descartes

CASEY, Edward S. Turning emotion inside out: affective life beyond the subject. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2022.

Virando a emoção de fora para dentro: de Sêneca a Descartes

“A raiva muitas vezes vem até nós, mas com maior frequência somos nós que vamos até ela […] outras paixões são visíveis, mas a raiva torna-se manifesta.” — Sêneca, Sobre a ira (De ira).

1. Sobre a ira (De ira), escrito por Sêneca em 49 ou 50 d.C., constitui o tratamento antigo mais extenso preservado sobre a raiva e o primeiro tratado latino dedicado exclusivamente a uma emoção particular, distinguindo-se tanto pela minúcia com que percorre suas múltiplas manifestações quanto pela proposição pioneira de uma terapia específica em que a própria pessoa irada assume a tarefa fundamental de lidar com sua emoção.

2. A advertência de Sêneca contra juízes que condenam acusados apenas movidos pela raiva pressupõe que a compreensão dessa emoção, mediante consideração das circunstâncias completas de uma ação, pode fornecer uma chave para lidar também com outras emoções, pois a raiva funciona como uma espécie de prisma no qual diferentes estados emocionais se condensam e refletem, ainda que deformados.

3. A extraordinária importância concedida à raiva pelos pensadores gregos e romanos permanece instrutiva em épocas historicamente conturbadas, sobretudo quando decisões e ações políticas controversas produzem formas coletivamente compartilhadas de indignação, fúria, consternação, desalento e desejo de retaliação.

I

1. A raiva apresenta-se em Sobre a ira como uma força difícil, talvez impossível, de dominar plenamente, e quatro observações articulam essa resistência fundamental ao controle.

2. Sêneca distancia-se de Platão e Aristóteles ao negar que a raiva seja constitutiva da vida intersubjetiva, útil à coragem ou necessária à justiça, apresentando-a antes como paixão ignóbil, vergonhosa, frenética, disforme e próxima da loucura, incapaz de justificar-se sequer sob a forma de indignação justa diante da crueldade ou da injustiça.

3. A vida humana é concebida por Sêneca como constituída por uma troca harmoniosa de benefícios e sustentada não pelo medo, mas por uma afeição mútua que aproxima os seres humanos numa espécie de pacto social originário de auxílio recíproco, dentro do qual a raiva não possui lugar legítimo.

4. Todas as paixões são geradas, segundo Sêneca, por uma sequência de três movimentos, dois involuntários separados por um momento parcialmente voluntário de deliberação: uma impressão inicial que prepara a paixão, um movimento intermediário no qual surge a possibilidade ainda não resolvida de vingança e um terceiro movimento em que a razão é vencida e o desejo de vingança passa a operar independentemente de sua conveniência.

5. No primeiro movimento, impressões provenientes das relações com os outros são recebidas como insultos, danos ou injustiças que, literal e figurativamente, “entram sob a pele”, atingindo tanto quem sofre diretamente quanto aquele que testemunha outra pessoa ser ferida por palavras ou ações.

6. No segundo movimento, a vontade intervém mediante o pensamento ou desejo de que o dano seja vingado, mas ainda sem resolução definitiva, constituindo o momento crítico em que a impressão recebida é afirmada e começa a transformar-se intencionalmente em raiva orientada para uma possível vingança.

7. No terceiro movimento, a raiva torna-se ação corporal efetiva, pois a inclinação e a deliberação cedem lugar à perseguição determinada da vingança, agora quase sem freios.

8. Se o primeiro movimento é passivo por ser receptivo e o terceiro é ativo por assumir movimentos corporais expressos, o segundo pode ser descrito pela fórmula husserliana de “atividade na passividade”, uma hesitação durante a qual a situação é avaliada e se decide permitir ou impedir a ação, mantendo ainda abertas tanto a possibilidade de agir quanto a de abster-se.

9. O segundo estágio é decisivo porque determina se a raiva chegará a tornar-se plenamente real e moverá efetivamente à ação, sendo a razão deliberativa menos um tribunal superior e imparcial do que uma avaliação rápida e situada acerca da melhor resposta possível à injúria percebida.

10. Esse momento intermediário pode ser compreendido como uma “matriz indeterminada de ação possível”, situada entre a impressão inicial de dano ou menosprezo e uma eventual resposta explícita, na qual uma pausa impede que a reação se converta imediatamente em explosão impulsiva.

II

1. O esquema tripartido de Sêneca não descreve apenas a gênese da raiva, mas oferece um modelo para o surgimento das paixões em geral, deslocando a ênfase do destino interiormente encerrado da emoção para sua explicitação e manifestação no domínio público.

2. A insistência de Sêneca em saber se uma emoção efetivamente conduz à ação antecipa a importância da expressão pública, pois uma emoção precisa alcançar algum grau de explicitação em palavras ou atos para tornar-se plenamente eficaz e reconhecível.

3. A razão deliberativa (ratio) introduzida no segundo estágio, embora mobilizada pelo sujeito individual, pretende representar uma força extrapessoal e impessoal cujos critérios de razoabilidade seriam compartilháveis entre diferentes seres humanos e permitiriam avaliar a correção da deliberação.

4. A tentativa de resgatar a emoção do puro idiossincratismo mediante uma razão supostamente universal permanece problemática porque ignora diferenças históricas, culturais, socioeconômicas e de gênero e incorpora, em Sêneca, pressupostos fortemente masculinos e misóginos.

5. A simples invocação da razão não oferece solução adequada para um modelo individualista e masculinista da gênese emocional, sendo mais fecundo concentrar-se nos gestos, ações e palavras pelos quais a raiva e outras emoções se tornam perceptíveis e julgáveis em bases inerentemente interpessoais, ativando as possibilidades interativas da vida afetiva.

6. A emocionalidade deve igualmente ser compreendida por suas capacidades transmissivas e por seus lugares-de-apresentação essencialmente compartilhados com outros seres humanos, permitindo apreendê-la em sua sincronia vivida e inter-relacionalidade, e não como propriedade de uma existência isolada que se pretenda plenamente racional.

7. O aspecto mais problemático do modelo senequiano encontra-se no segundo estágio, pois a deliberação pressupõe uma interioridade em que a resolução da emoção permanece quase inteiramente entregue ao indivíduo, antecipando a concepção cartesiana da vontade individual diante das impressões perceptivas que afetam o substrato fisiológico do sujeito.

8. Apesar de suas raízes no mundo grego antigo, com sua ênfase na publicidade da emoção, Sêneca antecipa de maneira protomoderna a tendência posterior de encapsular a experiência emocional no sujeito individual, que se tornará plenamente desenvolvida em Descartes dezesseis séculos depois.

9. Outros precedentes antigos favoreceram igualmente a interiorização moderna, entre eles Santo Agostinho, com a exortação “volta-te para dentro; pois a verdade habita no homem interior”, posteriormente retomada por Husserl nas Meditações cartesianas, mas Sêneca constitui uma preparação especialmente significativa para a concepção moderna paradigmática segundo a qual a emoção só pode existir na mente e no corpo do sujeito individual.

III

1. O modelo cartesiano de emoção é resolutamente endógeno, concentrando-se na interioridade do sujeito mesmo quando admite sensações provenientes do exterior, pois o pensador da matéria como extensão (res extensa) procura compreender a emoção pela paisagem interna da mente e pela fisiologia corporal, terminando por não conceder-lhe espaço próprio.

2. Descartes só se dedicou sistematicamente à emoção no final da vida, em As paixões da alma, de 1649, sua última obra concluída, na qual o termo paixões (les passions) abrange tudo o que é sentido passivamente pela alma, incluindo percepções, sensações, emoções e sentimentos, e cujo tratamento procura confinar tais fenômenos no sujeito para tornar seus mecanismos mais identificáveis e separar rigorosamente suas dimensões mental e física.

3. A intrusão e a complexidade das emoções resistem a essa separação, pois experiências como a indignação diante de deportações e da separação de famílias mobilizam simultaneamente corpo e mente, conduzindo à identificação corporal com o sofrimento alheio, à participação física em protestos e à conexão solidária com a raiva dos outros, tornando praticamente impossível distinguir essas duas dimensões na experiência afetiva integral.

4. A afirmação cartesiana de que “todos sentem as paixões em si mesmos e, portanto, não precisam procurar em outro lugar observações para estabelecer sua natureza” situa as paixões dentro do sujeito e transforma a auto-observação imediata em fonte privilegiada de conhecimento emocional.

5. A proposição cartesiana de que “aquilo que é paixão na alma é normalmente ação no corpo” produz uma dupla interiorização, pois a emoção passa a estar simultaneamente contida na alma e no corpo e em nenhum outro lugar.

6. Ao afirmar que todo pensamento presente no ser humano pertence à alma porque o corpo não é concebido como pensante, Descartes transforma emoções, memórias e demais cogitações em propriedades da alma e concede-lhes como único lugar possível essa interioridade.

IV

1. A concepção cartesiana inicial permite concluir que ser emoção significa estar situado no sujeito humano, simultaneamente na alma pensante que apreende suas cogitações e no corpo material que sustenta seus aspectos fisiológicos, mas essa dupla localização deixa em aberto tanto a diferença entre essas modalidades quanto a forma de relação entre substâncias radicalmente distintas.

2. A introdução dos espíritos animais transforma a bilocalização da emoção numa trilocalização: ela passa a estar na mente, no corpo e no elemento intermediário que conecta ambos, permanecendo os três inteiramente encerrados no sujeito e intensificando a sobreposição de estruturas internas.

3. As paixões movem e dispõem a alma a desejar ações para as quais o corpo é preparado, de modo que o terror leva ao desejo de fugir e a coragem ao desejo de lutar, mas a alma não move diretamente o corpo e depende da mediação fisiológica dos espíritos animais.

4. A especificidade da ação corporal exige considerar não apenas “o corpo” genericamente, mas os nervos particulares que conduzem movimentos concretos, enquanto nenhuma estrutura equivalente existe no lado da alma, produzindo uma assimetria entre os mecanismos físicos empiricamente concebíveis e os processos psíquicos.

5. A proliferação de mecanismos internos transforma o modelo cartesiano numa maquinaria labiríntica da qual não parece haver saída, pois cada tentativa de explicar o percurso da emoção acrescenta novos elementos sem abandonar o confinamento geral no sujeito.

6. A análise do terror torna-se ainda mais complexa quando memória e razão são introduzidas como recursos internos para enfrentar a emoção, produzindo três fatores da alma — emoção, razão e memória —, dois fatores corporais — nervos e movimento — e os espíritos animais como mediação entre ambos, de modo que o dualismo cartesiano precisa ser compreendido com maior nuance devido à multiplicidade de instâncias intermediárias que abriga.

7. Apesar dessa complexidade, a concepção permanece fundamentalmente subjetivista, pois tudo o que pertence à emoção ocorre dentro do sujeito: alma, corpo, espíritos animais, nervos, memória e razão continuam encerrados numa estrutura bipolar cujo centro permanece constituído pela mente e pelo corpo, ainda que intermediários adicionais tornem o dualismo menos elementar.

V

1. A ideia de que as emoções estejam contidas no sujeito não pode ser simplesmente descartada, pois a experiência comum permite falar em “guardar” ou “abrigar” sentimentos, como quando um ressentimento permanece sem expressão exterior, indicando ao menos três modalidades fenomenológicas pelas quais determinadas emoções parecem ser mantidas dentro de quem as sente.

2. “Abrigar” uma emoção implica que sua vida plena ainda não foi alcançada e que poderá haver fases futuras nas quais ela encontrará expressão explícita em palavras, gestos ou ações, num esforço exteriorizante comparável ao navio que deixa o porto onde estava ancorado.

3. A diferença entre dizer “sinto raiva” e “estou com raiva” sugere que o primeiro enunciado enfatiza a experiência da emoção dentro dos limites da subjetividade, enquanto o segundo dissolve parcialmente a separação entre interior e exterior, pois o indivíduo inteiro aparece tomado pela emoção.

4. A metáfora do “abrigo” é fundamentalmente espacial, porque pressupõe uma espécie de reduto subjetivo privado no qual a emoção se encontra alojada, confirmando que sentimentos não vagam por um não lugar abstrato, mas sempre possuem algum modo de situação.

5. O uso corrente de metáforas como “abrigar” conduz à necessidade de considerar os “espaços do sentir” em qualquer teoria abrangente da emoção, admitindo-se que certas emoções parecem provir de dentro do sujeito mesmo quando a investigação se orienta prioritariamente para sua localização exterior.

6. Descartes reconhece ocasionalmente uma dimensão externa das emoções ao mencionar seus “sinais exteriores”, como empalidecer, tremer, enrubescer ou chorar, e chega a distinguir duas formas de raiva conforme sua manifestação.

7. Apesar de reconhecer expressões nos olhos, alterações da cor do rosto e outros sinais corporais, Descartes considera essas manifestações meramente externas e secundárias em relação à matriz psicofisiológica interna que constituiria a verdadeira origem da emoção.

8. Os fenômenos verdadeiramente fundamentais permanecem, no esquema cartesiano, nos domínios do corpo e da mente, acrescidos dos espíritos animais e outros mediadores, que mantêm a emoção encerrada no sujeito e só permitem saídas ocasionais por gestos ou palavras.

9. A expressividade deve, ao contrário, ser considerada essencial à vida emocional, e não simples característica superficial, pois precisamente por serem expressivas — ex-pressivas, isto é, pressionadas para fora — as emoções existem tanto fora quanto dentro do sujeito e exigem uma cena em que possam mostrar-se.

VI

1. Se as emoções necessitam de um espaço expressivo no qual possam manifestar-se, a filosofia cartesiana não consegue fornecê-lo porque seu modelo fundamental de espaço é a res extensa, substância puramente extensa, incapaz de apresentar diretamente emoções que permanecem confinadas pelo dualismo ao sujeito emocional.

2. Para Descartes, espaço e corpo físico são praticamente idênticos, de modo que, se “todos os lugares estão cheios de corpos”, não resta um espaço transicional em que emoções possam efervescer em sua complexidade e sutileza.

3. A vida afetiva exige um espaço liso animado por lugares-de-apresentação singulares capazes de sustentar acontecimentos emocionais, como ocorre em paisagens marítimas, montanhosas, selvagens e também urbanas que podem suscitar assombro e admiração.

4. A noção de espaço sintonizado torna explícito aquilo que falta ao paradigma cartesiano da extensão, pois oferece às emoções um espaço onde possam florescer e expressar-se e fornece, como um “a priori afetivo”, no sentido de Mikel Dufrenne, as linhas gerais necessárias a um modelo adequado dos lugares-de-apresentação, ainda que diferentes emoções exijam variações específicas segundo suas formas próprias de qualificação e acessibilidade.

1. Virar a emoção do avesso exige arrancá-la da interioridade da subjetividade e devolvê-la ao mundo aberto da alteridade de onde provém e ao qual fundamentalmente pertence, sendo Espinosa o grande pensador da primeira modernidade que constrói um modelo emocional baseado em sintonia, expressividade e orientação essencialmente exterior, contrapondo-se assim à interiorização cartesiana pela concepção de um afeto que incide sobre o sujeito a partir de fora.

2. Descartes e Espinosa concedem às paixões um papel central em suas filosofias maduras apesar da primazia que ambos atribuem à razão e ao intelecto, porque a emoção ocupa pontos decisivos de articulação em seus sistemas: em Descartes, a relação mente-corpo; em Espinosa, as relações entre modos no interior da Natureza.