Destino do lugar

CASEY, Edward. The fate of place: a philosophical history. Berkeley: Univ. of California Press, 2011.

Prefácio: Lugares que Desaparecem

Agradecimentos

Parte Um: Do Vazio ao Recipiente

Parte Dois: Do Lugar ao Espaço

Parte Três: A Supremacia do Espaço

Parte Quatro: O Reaparecimento do Lugar


Prefácio

I

1. Existir de qualquer modo implica estar em algum lugar, de modo que o lugar se revela tão indispensável quanto o ar que se respira, o chão que sustenta e o corpo que se possui, pois nada do que se vive, se faz ou se sofre ocorre fora de um lugar, o que torna surpreendente que esse fato primordial possa deixar de ser reconhecido.

2. Aristóteles reconheceu a primazia do lugar ao fazer do “onde” uma das dez categorias indispensáveis de toda substância e ao oferecer na Física uma exposição sustentada e perspicaz sobre o tema, inaugurando um debate que se estende até o presente e que envolve interlocutores tão diversos quanto Heidegger, Irigaray e uma longa série de pensadores ao longo de mais de dois milênios.

3. A história dessa preocupação contínua com o lugar permanece praticamente desconhecida, não por repressão deliberada, mas justamente porque o lugar está tão presente na existência que acaba tomado como evidente e indigno de tratamento próprio, assim como a condição humana de seres localizados, que funciona como um a priori da vida na Terra e só se torna objeto de reflexão quando se está desorientado ou perdido.

4. Há ainda muito a dizer sobre o lugar, mas a rica tradição de reflexão a seu respeito foi esquecida porque o lugar acabou subordinado a absolutos supostos, sobretudo o Espaço e o Tempo, num processo em que a partir de Filopono e, depois, na teologia do século XIV e na física do século XVII, o lugar foi assimilado a um espaço infinito que o devorou, enquanto nos séculos XVIII e XIX foi submetido ao tempo cronométrico e universal.

5. O desaparecimento do lugar nunca foi total, pois, como insistiria Heidegger, seu próprio ocultamento inclui um desvelamento parcial, e por isso o lugar conservou significativa importância mesmo sob reconhecimento descontínuo, cabendo resgatá-lo de sua posição latente nos textos manifestos da filosofia ocidental e trazê-lo de volta à vida.

6. O propósito de The Fate of Place consiste em devolver a ideia de lugar, profundamente adormecida no pensamento ocidental moderno, à luz do discurso filosófico, percorrendo em quatro partes desde as narrativas míticas e religiosas da criação até a retomada do interesse pelo lugar em pensadores modernos tardios e pós-modernos.

7. Enquanto um volume anterior, Getting Back into Place, descreveu aspectos concretos, múltiplos e experienciais do mundo dos lugares, a presente obra prossegue o projeto de reconhecer o poder do lugar por outra via, delineando as doutrinas sobre o lugar tal como surgiram em momentos críticos da reflexão ocidental, configurando-se como ensaio de história intelectual e, mais especificamente, de história do pensamento filosófico sobre o lugar.

II

1. O momento histórico presente mostra-se propício para avaliar o destino do lugar, embora quase não se fale dele na filosofia, na psicologia, na sociologia, na teoria literária ou nos estudos religiosos, e embora o interesse crescente na arquitetura, na antropologia e na ecologia o deixe como noção não esclarecida, configurando uma circunstância extraordinária que combina enorme promessa com escassa realização.

2. Também atua no obscurecimento do lugar o universalismo inerente à cultura ocidental desde o início, evidente na busca de essências válidas em toda parte, para as quais um lugar particular seria irrelevante, e possivelmente associado à expansão do cristianismo, religião de aspirações universalistas, cuja época coincidiu com a obsessão pelo espaço infinito e ubíquo.

3. No século atual, as investigações de ética e de política continuam universalistas em suas aspirações, tratando o lugar como meramente paroquial, e as abordagens de lógica e linguagem mostram-se ainda mais cegas ao lugar, como se falar e pensar não fossem afetados pela localidade em que ocorrem.

4. Outras razões, menos lógicas ou linguísticas e ainda mais decisivas, explicam o afastamento do lugar como conceito crucial, como as guerras mundiais, as migrações forçadas e a disseminação maciça da tecnologia eletrônica, fenômenos literalmente mundiais que exibem um dromocentrismo, isto é, um temporocentrismo ampliado no qual o tempo acelerado se torna a essência da época.

5. Diante dessas tendências teóricas, culturais e históricas, as perspectivas de um interesse renovado pelo lugar poderiam parecer sombrias, mas algo se agita e convoca a um retorno ao pensamento reflexivo sobre ele, como indica o fato de que Bergson, James e Husserl, apóstolos do temporocentrismo, dedicaram atenção cuidadosa ao espaço e ao lugar em escritos menos conhecidos, e de que Heidegger, temporocentrista declarado em sua obra inicial, afirmou a importância do lugar ao refletir sobre o destino da cultura tecnológica moderna.

6. Certos fenômenos devastadores do século trazem consigo, como uma espécie de réplica, uma sensibilidade revitalizada ao lugar, pois a ameaça de eliminação de lugares e a uniformidade global crescente despertam o desejo ativo pela particularidade e pela diferença de lugar, o que não se reduz a nostalgia.

7. Mesmo o envolvimento com a tecnologia acarreta um retorno insuspeitado ao lugar, pois, embora a localização literal de quem está tecnologicamente engajado seja relativamente indiferente, ela não é lugar nenhum, e dessa circunstância emerge um novo sentido de lugar, o “lugar virtual”, no qual pessoas fisicamente distantes se apresentam numa interação quase face a face.

8. No cenário filosófico, mesmo nos recantos mais áridos persistem ecos do lugar, visto que termos como “política”, “ética” e “sociedade” remetem etimologicamente a lugares e ao compartilhar num lugar comum, e quase todos os grandes pensadores éticos e políticos do século se ocuparam da questão da comunidade, que exige lugares particulares, ao passo que certos desenvolvimentos em linguagem e lógica também se mostram promissores de um ponto de vista placial.

9. Apesar dessas direções auspiciosas, o lugar raramente é nomeado como tal e ainda mais raramente discutido com seriedade, permanecendo “ainda velado”, como Heidegger diz do espaço, o que confere nova urgência e nova promessa à tarefa de trazê-lo para fora do esconderijo, sendo sua complexa história um bom ponto de partida para atestar sua presença difusa na vida humana e reencontrar o caminho de volta ao mundo dos lugares.