A fenomenologia como tarefa infinita de recensão dos vividos.
A revolução do olhar fenomenológico volta-se para os vividos da consciência, experienciando-os e determinando-os pura e simplesmente como tais.
Esta conversão do olhar abre uma tarefa geral: explorar sistematicamente e compreender como um todo fechado e acabado em si a multiplicidade dos vividos, suas formas típicas, seus graus e suas conexões hierárquicas.
A fenomenologia suspende a tese do mundo e reconduz o olhar para a subjetividade intencional como estrutura de fenomenalização do mundo.
A clausura sobre si da consciência e o paradoxo da exaustividade impossível.
Com o mundo posto entre parênteses e o eu puro transcendental estabelecido como única realidade sem exterioridade, postula-se a unidade sistemática do fenômeno em geral.
Isto torna possível, em direito, uma inteligência exaustiva da totalidade dos fenômenos, obrigando a fenomenologia a se colocar como um permanente inventário da infinita multiplicidade dos atos de consciência.
Há uma simultaneidade: uma infinitude de fato das possibilidades de a consciência se relacionar com um objeto, e uma clausura de direito do setor de investigação, considerado ele mesmo como o todo.
A fenomenologia oscila assim entre a preocupação de recensear as possibilidades da consciência e o cuidado de manter-se na redução para conservar em vista o eu puro.
O eu puro abre o paradoxo da possibilidade de uma exaustividade impossível.
A fenomenologia como ciência descritiva da totalidade fechada dos vividos.
A multiplicidade dos vividos que compõem o mundo imanente é um mundo fechado e acabado em si.
Da postulação dessa totalidade, trata-se de fazer a exegese progressiva, até que seja erigido um sistema do idealismo transcendental ou intencional.
A tarefa da investigação fenomenológica é perscrutar todos os domínios existentes quanto à sua estrutura comum: a dinâmica intencional da consciência intuitiva.
O projeto fundamental é uma nova maneira de olhar e descrever cientificamente as coisas, distante de uma busca do fundo ontológico abissal da ipseidade.
A extensão total do problema transcendental e o desvio para o dado.
Com base na clausura da subjetividade pura, a fenomenologia transcendental se atribui a tarefa de contar, com uma exaustividade obsessiva e impossível, a infinita multiplicidade das ocorrências intencionais.
Ela também se propõe a descrever fenomenologicamente todas as outras ciências, mostrando como dependem da constituição do eu puro.
Husserl insiste na imensa extensão das pesquisas agora possíveis e necessárias, identificando essa extensão com a própria fenomenologia.
A fenomenologia acaba por dirigir seu olhar para o que ela abre, em vez de para o que abre; ela olha para o que abre apenas para melhor olhar para o que se abre.
O vertigem diante da infinitude e a perda de si nas análises concretas.
Diante da descoberta da infinitude do campo de investigação, Husserl experimenta um vertigem diante da ampla dispersão possibilitada pela exploração total da posição do eu absoluto.
Este vertigem é considerado pertencente à essência da fenomenologia, já que um tratamento sistemático deveria abraçar absolutamente todas as descrições da consciência.
Para Heidegger, neste contexto, a exploração descritiva torna-se seu próprio fim e se perde a si mesma, ofuscada pela luxúria do dado que esconde a tarefa e a possibilidade de pensar a doação.
A fenomenologia olha mais para baixo (suas possibilidades de dedução) do que para cima (a fonte que dá a dedução).
As Investigações Fenomenológicas para a Constituição e a redução do ser a um correlato constituído.
As Ideen II representam o campo de aplicação das linhas fundamentais obtidas pela redução, visando construir a noção fenomenológica do que está aquém do eu puro e é por ele condicionado: o ser e seu sentido de ser.
O ser é compreendido como um conjunto constituído, cujas diferentes camadas de significação devem ser exumadas.
Isso manifesta tanto o poder analítico de Husserl quanto, para Heidegger, a perda de si da fenomenologia no campo das análises concretas.
O eu está tão enredado no que abre que não pode, no contexto husserliano, acessar o estatuto de objeto de estudo à parte.
O estatuto aporético do eu transcendental: não-ente, mas que recai no ente.
Husserl estabelece que o eu não é algo que possa ser considerado por si e tratado como um objeto próprio de estudo.
Para Heidegger, o problema reside em como pensar simultaneamente uma simples noção de unidade cuja singularidade não é interrogada e conferir a essa unidade impensada o estatuto de não-ente.
A crítica heideggeriana não afirma que o eu husserliano é uma coisa ou um ente, mas que ele acaba retornando a um ente após ter sido fluificado pelo esforço de Husserl.
O eu transcendental não é um ente, mas acaba por sê-lo porque seu polo de sombra, o fato de ser polo de doação sendo ao mesmo tempo nada, não é considerado como devendo entrar no campo da descrição.
A recusa de questionar a zona de sombra do eu e a redução do nada a um objeto manuseável.
A zona de não-ente que é o eu transcendental não é interrogada, embora seja apresentada como o mais originário encontrado pela fenomenologia.
Só uma questão colocada no lugar desse não-ente pode manter o eu como um elemento diferente do ente, mostrando que há algo nesse nada aparente.
Ao não considerar o mistério de sua vacuidade constituinte, o nada é rebaixado à categoria de um objeto manuseável, uma simples coisa do mundo.
Para Heidegger, apenas a questão mantém o não-ente como tal, e Husserl recusa essa questão ao recusar-se a pensar o ser da doação.
A tensão entre o enredamento nos vividos e a afirmação da pureza do eu.
Husserl afirma, contraditoriamente, que o eu, embora entrelaçado a todos os seus vividos, não é algo pensável por si.
Ele não é pensável porque não é um vivido, o que faz do vivido a medida de todo o pensável; no entanto, o pensável só é possível pelo eu impensável.
Esta aporia revela a violência na qual Husserl se instala para não deixar escapar o princípio do eu puro que quis instituir como fundamento firme.
O importante para Husserl é que o eu esteja lá, e as dificuldades que daí decorrem parecem não entrar em linha de conta.
A fixação no ego como pressuposto e a cegueira para as contradições.
O projeto de cientificidade de Husserl consiste em “pôr a mão” em um princípio sem pensá-lo em sua presença, mas apenas em sua consistência constituinte.
O preconceito de certeza está tão arraigado na intenção primeira da fenomenologia transcendental que Husserl se torna cego para as contradições que ela gera.
Seu objetivo é estabelecer uma crítica do conhecimento que conduza a um início, a um terreno firme de dados dos quais se pode dispor.
Para Heidegger, porém, não se pode interrogar o ser desse dado, pois tão logo se questiona, encontra-se um abismo.
A preservação do eu como dado puro contra o questionamento ontológico.
O essencial para Husserl é conservar o eu como esse dado puro e mantê-lo contra qualquer questionamento que queira torná-lo objeto de pesquisa.
O pensamento de Husserl move-se na pressuposição de um ideal científico do qual o ego é a base, ideal assegurado pela posição do eu puro.
Husserl não quer imaginar a problematicidade do eu puro para assentar nele a certeza dos vividos, mesmo que isso produza a aporia de um polo vazio que coesiona o fluxo.
A necessidade de questionar o não-ente constituinte e a falha husserliana.
Se o ego deve ser princípio, é necessário fazê-lo com base no mistério de seu vazio doador, no qual também se deve entrar.
O não-ente tem uma consistência de princípio que Husserl evidencia mas não interroga: este é o problema fundamental de sua abordagem.
Para Husserl, a obtenção de um princípio basta; para Heidegger, é preciso perguntar por que há aqui, no eu puro, efetivamente princípio.
A escolha heideggeriana: a exploração “a montante” versus a recensão “a jusante”.
A exploração descritiva pode tomar o caminho de uma infinita recensão do que está a jusante da doação originária (os vividos), ou o caminho inverso de um desbravamento que esclarece a possibilidade mesma do olhar, do constituinte.
Heidegger escolhe este último caminho, um “retorno a montante” que remonta à fonte.
Enquanto Husserl fecha a questão fundamental com a redução, limitando a exploração ao dado ou à modalidade de doação, Heidegger busca penetrar na doação como tal.
A inversão heideggeriana da redução: abertura simultânea do eu e do ser.
Heidegger conduz a redução fenomenológica de modo a abrir simultaneamente o eu e o ser, revelando no vivido o que quebra sua clausura: a proximidade do ser com a qual o eu se funde.
Enquanto Husserl chega ao eu puro, Heidegger chega ao eu e ao seu correlato intencional: o ser sem o qual o eu não pode ter o horizonte de sua intencionalidade.
A diferença está em que Heidegger leva a sério a proximidade desse ser à consciência, vendo-o como elemento capital do desdobramento do eu.
A dependência constitutiva do eu em relação ao ser.
O eu só é absoluto e constituinte porque é intencional, e sua intencionalidade só se desdobra se uma intuição categorial, uma pré-apreensão do ser, acompanhar toda sua atividade.
Não pode haver visada sem horizonte de visada, nem posição sem horizonte de posição.
A comunidade do eu puro e do ser é afirmada por Husserl apenas para fazer do ser a ferramenta do desdobramento da intencionalidade do eu.
Para Heidegger, é logicamente impensável que o ser dependa da atividade do eu, já que essa atividade não teria lugar sem a proximidade do ser.
O acesso ao ser no coração do vivido e a superação da imanência.
Penetrar no coração do vivido é encontrar a singularidade de seu correlato, o ser, abrindo a clausura do vivido sobre si mesmo.
É reencontrar no coração do eu o mundo transcendental, mas em sua transcendência própria, e não reduzido à imanência.
Isto não representa uma regressão, pois o si heideggeriano, por sua proximidade ao ser, já está “fora”, já está junto de seu objeto.
A tarefa de determinar o modo de ser específico do Dasein.
A questão imediata passa a ser descobrir qual é o modo de ser do estado no qual o “mundo” se constitui.
Não é porque o eu puro é um ego que ele é constituinte, mas porque nele reside um caráter de ser pelo qual ele pode ser o que é.
O conceito de ego não contém analiticamente em si o de constituição.
É preciso mostrar que o modo de ser do Dasein humano é totalmente diferente do de todos os outros entes, e que é precisamente por causa desse modo de ser que ele abriga em si a possibilidade da constituição transcendental.
A ex-sistência como modo de ser que anula a distinção imanência/transcendência.
O modo de ser específico é o fato de poder dizer “ser” ou de se relacionar com o ser de qualquer coisa, sobretudo com seu próprio ser.
Este fenômeno implica a possibilidade nativa para o si de estar em si mesmo fora de si, o que anula a distinção entre imanência e transcendência.
O si é ele mesmo transcendente, sempre já junto daquilo que abre. O homem é, nesse sentido, ex-sistente.
A “maravilha” da constituição e a questão proibida do ser da subjetividade.
A verdadeira maravilha reside no fato de que a constituição existencial do Dasein torna possível a constituição transcendental de tudo o que é positivo.
O elemento constituinte não é nada, mas é algo, algo de ente, embora não no sentido do positivo.
A tarefa de Heidegger é descobrir a espacialidade do ser no coração do vivido, destacando o valor doador do “enquanto” (als) acessível ao eu.
Heidegger é assim levado a colocar a “questão proibida”: a do ser da subjetividade transcendental.
Os três graus: o dado, a doação, o ser da doação.
Pode-se determinar três graus: o dado, a doação, e o ser dessa doação.
Este terceiro grau foi arrancado ao encapsulamento da subjetividade husserliana pela ênfase no valor de abertura do “enquanto” presente no coração da intuição categorial.
Heidegger escolhe a ontologia fundamental, que visa a penetração no mistério da doação como tal através da penetração no que a subjetividade tem de mais radical: a pré-compreensão do ser.
A fenomenologia não funda sua própria possibilidade.
A fenomenologia quer tornar evidentes as múltiplas estruturas do psíquico puro, objetivando as modalidades do comportamento da alma.
No entanto, a possibilidade mesma dessa objetivação não é pensada; a fenomenologia não fundamenta seu método no caráter de ser desse eu puro que é querido como fundamento de tudo.
Ela não pensa sua própria possibilidade, nem a possibilidade da redução no eu-resíduo da redução.
O fundamento absoluto como indescritível e a decisão metodológica arbitrária.
O fundamento absoluto, o ego transcendental, é o que não pode ser descrito de modo algum. Ele só aparece enredado em seus vividos.
Esta situação deveria fazê-lo depender do dado que desdobra e negar-lhe a pureza, não fosse a posição de sua absolutidade por motivos de eficácia científica.
Doador emaranhado no que dá, fundamento não fundamentado, polo invisível de um fluxo, o ego husserliano está lá apenas para dar impulso a uma nova ciência cujos fundamentos só interessam pelos resultados.
A crítica ao fundamento não questionado e o tropo da regressão ao infinito.
Heidegger pergunta de onde o fundamento tira seu ser-fundamento, opondo à fenomenologia husserliana o tropo cético da regressão ao infinito.
Este tropo não é usado para negar todo saber, mas para mostrar que um fundamento nunca é último, pois antes de ser fundamento, ele simplesmente é, depende do ser pelo qual é.
A questão de seu ser-fundamento torna-se, assim, a questão do ser.
A indeterminação do ego e o acesso secreto ao questionamento.
A afirmação husserliana da indeterminação do ego é pertinente, pois aponta para um modo de ser excluído de toda determinação objetal.
No entanto, para chegar a esse saber, é necessário ter entrado, ainda que minimamente, num questionamento sobre a tenência da indeterminação.
Os textos sobre a impossibilidade de estudar a zona de indeterminação revelam, para Heidegger, uma secreta vontade de não prosseguir um questionamento já iniciado.
A vontade de não descrever a origem e os limites do projeto husserliano.
A vontade de não descrever aquilo de onde todo fenômeno provém, de proibir-se todo questionamento essencial, manifesta os limites do projeto husserliano.
Ao fazer tudo repousar na intencionalidade obtida por redução, Husserl não coloca a questão da possibilidade dessa intencionalidade, nem do espaço no qual o ser-intencional da consciência pode se desdobrar.
A fenomenologia interessa-se pela gênese dos vividos, mas não pela possibilidade de que haja vivido, que supõe uma proximidade primeira ao ser.
A situação de dilaceração da fenomenologia.
A fenomenologia se vê dilacerada entre, de um lado, a manutenção de um princípio indizível que, no entanto, deveria poder ser dito para ser princípio, e de outro, o uso desse princípio para desdobrar uma intencionalidade que não está fundamentada.
A efetivação da redução torna visível toda a tenência intencional de um vivido, mas a redução mesma não é compreendida no ser da doação.
A necessidade de uma refundação do problema do ego na base do ser.
As diversas camadas de sentido das quais o eu é vetor não são bases estáveis, pois são impregnadas de um vazio doador de sentido.
Em vez de certezas fixas, elas são enigmas de presença que agitam continuamente o eu.
A superação das dificuldades do husserlianismo depende, para Heidegger, de uma refundação completa do problema do ego, com base na presença do ser à consciência conquistada pela compreensão da intuição categorial.
Trata-se de aprender a ver fenomenologicamente. Quando a compreensão das coisas mesmas é alcançada, a fenomenologia pode desaparecer.