Corpo e Mundo

CARMAN, Taylor. Merleau-Ponty. Second Edition ed. Abingdon, Oxon New York, NY: Routledge Taylor & Francis Group, 2020.

1. A ideia central original de Merleau-Ponty sobre a percepção é que ela não é contingentemente, mas essencialmente, um fenômeno corporal, não sendo um estado mental privado nem o corpo um mero evento físico entre outros, e que, em sua forma mais concreta, a percepção se manifesta como um aspecto fundamental da existência, de modo que conceitos como interior e exterior, mental e físico, subjetivo e objetivo são demasiado grosseiros e carregados de associações desviantes para capturar o fenômeno, pois a percepção é irredutivelmente intencional e corporal, sensorial e motora, não sendo, portanto, nem meramente subjetiva nem objetiva, nem interna nem externa, nem espiritual nem mecânica.

2. O meio-termo entre essas categorias tradicionais não é apenas o seu meio, mas o seu fundamento, pois é aquilo de que elas dependem e que pressupõem, de modo que as sensações subjetivas e as qualidades sensoriais são perfeitamente reais, mas apenas porque podem ser ocasionalmente evocadas ao abstrair da abertura original ao mundo e ao focar em características isoladas dos objetos e em pedaços de experiência, assim como se pode abstrair de si mesmo, ou tentar, em direção a um mundo independente da perspectiva sobre ele.

3. Embora o capítulo anterior tenha enfatizado o aspecto receptivo e sensorial da percepção, abstraindo provisoriamente da infraestrutura comportamental sobre a qual se baseia, o presente capítulo torna mais explícita a dimensão corporal da percepção, que é o núcleo e fundamento real da fenomenologia de Merleau-Ponty, e as seções individuais deste capítulo se dividem novamente entre o crítico e o construtivo, começando com a rejeição de Merleau-Ponty das teorias tradicionais sobre o papel do corpo na percepção e prosseguindo com sua própria abordagem dos fenômenos sensório-motores em termos do que ele chama de esquema corporal e intencionalidade motora.

4. O capítulo conclui com uma breve discussão dos desenvolvimentos posteriores na visão de Merleau-Ponty sobre o lugar do homem na natureza e a ontologia do corpo e do mundo, pois, no final da década de 1950, ele aparentemente estava insatisfeito com o que passara a considerar o quadro ainda demasiado dualista da “Fenomenologia da Percepção”, e em escritos posteriores insistiu mais enfaticamente que corpo e mundo devem ser vistos como fibras sobrepostas em uma “carne” (chair) comum, relacionados não como situação e reação (muito menos estímulo e resposta), mas como uma espécie de “quiasma”, um “entrelaçamento” (entrelacs) de fios em um único tecido.

5. É importante esclarecer primeiro o tipo de afirmação filosófica que Merleau-Ponty está fazendo, tanto no início quanto no final, sobre o papel do corpo na percepção, a saber, que a percepção é o fundamento tanto da subjetividade quanto da objetividade da experiência, de sua sensação interna e de sua apreensão intencional externa do mundo, e que a percepção não é um fenômeno mental, se por isso se entende algo em contraste com o material ou físico, mas sim um fenômeno corporal, o que significa que os estados sensoriais próprios são experimentados não como meros estados mentais, mas como condições do corpo, ou melhor, de toda a pessoa, uma vez que mesmo Descartes teve que conceder esse ponto ao senso comum, precisamente em sua tentativa de argumentar contra ele por meio de argumentos abstratos e muitas vezes marcadamente contra-intuitivos.

6. Para Merleau-Ponty, a relação entre a percepção e o corpo não é causal nem conceitual, pois essas duas categorias não são as únicas maneiras pelas quais a relação entre o corpo e a experiência perceptiva nos é inteligível, e os conceitos tradicionais relativos à percepção são parasitas de uma compreensão mais básica que se tem de si mesmo em virtude de ser um percebedor corporificado, tendo-se uma compreensão pré-reflexiva da experiência não como ligada causal ou conceitualmente ao corpo, mas como coincidindo com ele em relações de motivação mútua.

O que o corpo não é

7. Dizer que a estrutura da percepção é a estrutura do corpo pode soar estranho, pois, enquanto a percepção é pensada a partir de uma perspectiva em primeira pessoa, desde o século XVII, tornou-se habitual pensar o corpo a partir de um ponto de vista desapegado em terceira pessoa, como um mero objeto, considerando a percepção como subjetiva e o corpo como objetivo, de modo que, graças ao legado cartesiano, é difícil ver o que poderia servir como terreno comum entre “fatos fisiológicos”, que estão no espaço, e “fatos psíquicos”, que não estão em lugar nenhum, ou, em termos sartreanos, entre processos objetivos, como impulsos nervosos, que pertencem à ordem do em-si (en soi), e cogitações, que pertencem à ordem do para-si (pour soi).

8. O que levou Descartes e outros a traçar uma distinção tão nítida entre o mental e o físico, tornando os dois incomensuráveis, foi, argumentavelmente, não uma intuição sobre a mente, mas uma suposição sobre o corpo, a saber, que ele deve ser uma máquina, um sistema físico autônomo cujo comportamento como um todo é uma função do funcionamento de suas partes individuais, que interagem rigidamente por contato causal direto, sendo as máquinas a soma de suas partes, analisáveis em subsistemas mecânicos, e a definição do objeto é que ele existe em partes fora das partes (partes extra partes), admitindo apenas relações externas e mecânicas entre suas partes ou entre si e outros objetos.

9. O espírito do dualismo sobreviveu ao seu declínio oficial no século XIX, por exemplo, na teoria psicológica do arco-reflexo – a suposta via neural isolada que liga entradas sensoriais a saídas comportamentais – e mais recentemente em teorias funcionalistas do conteúdo mental, segundo as quais os fenômenos psicológicos podem ser entendidos como representações ou funções que ligam estímulos sensoriais recebidos a respostas comportamentais emitidas.

10. Embora Merleau-Ponty se apoie fortemente nas descobertas de Goldstein, sua objeção real à teoria do arco-reflexo não é empírica, mas filosófica, estando mais próxima em espírito da de Dewey, pois o ponto não é que a percepção e o comportamento são muito complexos e a teoria do arco-reflexo demasiado grosseira para capturá-los, mas que as próprias noções de estímulo e resposta são abstrações que só podem se aplicar à percepção e ao comportamento pressupondo o que pretendem explicar.

O ponto de vista corporal

11. A abordagem de Merleau-Ponty sobre a natureza corporal da percepção navega entre duas alternativas concorrentes, mas igualmente inadequadas: a primeira é a perspectiva de um sujeito pensante descorporificado, um intelecto puro, fonte supostamente espontânea e agente autônomo de sua própria cognição, imagem racionalista que ele descarta como incoerente e delirante; a segunda é a postura objetiva e impessoal das ciências físicas, que renuncia ao mito da soberania do sujeito, mas abstrai inteiramente da dimensão em primeira pessoa da experiência, que é precisamente o que uma teoria da percepção é obrigada a reconhecer e descrever.

12. Uma objeção possível a esse apelo ao ponto de vista corporal é que ele seria apenas mais uma maneira de substituir a subjetividade pela objetividade, o testemunho frágil pela evidência sólida, a retórica pela ciência, e que o ponto de vista em terceira pessoa necessariamente supera o primeiro, tornando-o irrelevante para fins teóricos, e que a tentativa de descrever o ponto de vista corporal a partir de dentro é apenas mais uma tentativa fútil do sujeito de se capturar como sujeito e não como objeto.

13. A experiência ordinária fornece um contraexemplo marcante ao suposto dilema entre aparência subjetiva e realidade objetiva, a saber, a propriocepção, ou consciência perceptiva imediata de si mesmo, que é a consciência sensório-motora direta do próprio corpo e difere em forma e conteúdo da exterocepção, a percepção de coisas externas, e a propriocepção não é um sexto sentido distinto e adicional aos cinco sentidos (chamados) “externos”, pois a percepção externa e a percepção do próprio corpo variam juntas porque são dois lados de um único ato.

14. A síndrome do membro fantasma e a anosognosia não admitem explicação fisiológica, psicológica ou mista, e tais anomalias forçam o reconhecimento da própria compreensão corporal tacitamente duradoura, que é tão básica e familiar que normalmente não se tem consciência dela, sendo essa também a razão pela qual as síndromes anormais são tão valiosas para a fenomenologia: a resposta intuitiva inicial a elas lança luz sobre a compreensão de fundo prévia trazida da experiência pré-reflexiva.

O esquema corporal

15. O significado filosófico da natureza corporal da percepção não é que o corpo seja a causa da consciência sensorial nem que os conceitos sobre percepção impliquem conceitos sobre o corpo, mas que o corpo constitui a perspectiva sobre o mundo, e uma perspectiva sobre o mundo não pode ser entendida como um objeto que meramente ocorre no mundo, e a relação com o próprio corpo é estruturalmente diferente da relação com qualquer outra coisa à qual ele proporciona acesso perceptivo, pois, como o corpo é o meio de observação, não se pode simplesmente observá-lo por meio de si mesmo, ou só se pode fazê-lo parcialmente, imperfeitamente e até certo ponto.

16. Essa assimetria da perspectiva corporal e da observação objetiva aponta para a maneira como a estrutura da percepção não é apenas causada ou condicionada, mas constituída pela estrutura do corpo, e a percepção não é apenas a presença de objetos a um sujeito, mas tem, como Husserl observou, uma estrutura horizontal, e os horizontes da experiência perceptiva são funções do corpo no qual ela se realiza, de modo que todo o conhecimento perceptivo tem uma estrutura figura/fundo, e essa estrutura não é dedutível a priori do conceito de percepção, nem é uma característica meramente contingente, sendo um fenômeno que não é idêntico à estrutura fisiológica do olho, mas parte do que se pode chamar de estrutura a priori contingente da percepção, na medida em que é uma função fenomenológica das estruturas e capacidades do corpo, mas a priori na medida em que fornece um solo ou quadro estável dentro do qual se pode reconhecer alguns aspectos da experiência como genuinamente contingentes e mutáveis.

17. O esquema corporal não é o que os psicólogos chamam de imagem corporal, e a distinção entre esquema e imagem tem uma linhagem filosófica importante que remonta pelo menos à “Crítica da Razão Pura” de Kant, onde a ideia de esquematismo fornece a solução para o problema de como a subsunção de intuições sob conceitos, e portanto a aplicação da categoria às aparências, é possível, e Kant conclui que deve haver uma terceira coisa mediando entre conceitos e intuições, o “esquema transcendental”, que é um procedimento pelo qual a imaginação fornece uma imagem para o conceito, distinguindo-se o esquema da imagem.

18. Para explicar mais precisamente como o esquema corporal orienta no mundo, Merleau-Ponty inspirou-se, mas depois se afastou caracteristicamente, da abordagem de Husserl sobre a incorporação nos manuscritos das “Ideias II”, apoiando-se especialmente na afirmação de Husserl de que movimento e percepção estão inter-relacionados nem como razões nem como causas, mas como “motivos”, e a noção fenomenológica de motivação é um daqueles conceitos “fluidos” que devem ser formulados para retornar aos fenômenos, onde um fenômeno libera outro não por alguma eficácia objetiva, mas pelo sentido (sens) que oferece, uma razão de ser que orienta o fluxo dos fenômenos sem ser explicitamente posta em nenhum deles, uma espécie de razão operante.

Intencionalidade motora

19. Para lançar luz sobre a inteligência não cognitiva da consciência corporal, Merleau-Ponty baseia-se fortemente no estudo de Adhémar Gelb e Kurt Goldstein sobre um caso de agnosia visual de forma, ou o que costumava ser chamado de “cegueira mental” (Seelenblindheit), o paciente Schneider, que sofreu danos cerebrais na Primeira Guerra Mundial que o deixaram incapaz de realizar movimentos “abstratos” com os olhos fechados, ou seja, movimentos não dirigidos a nenhuma situação real, embora ainda pudesse realizar movimentos “concretos”, habituais e necessários à vida.

20. O que a condição de Schneider revela, argumenta Goldstein, é que duas funções neurológicas distintas estão envolvidas no comportamento corporal normal: uma para “apontar” (Zeigen) e outra para “agarrar” (Greifen), e embora Schneider tenha perdido a capacidade de apontar para coisas fora de contexto, suas habilidades de agarrar permanecem notavelmente intactas, uma diferença confirmada mais recentemente por Melvyn Goodale e David Milner, que mostraram que duas vias neurais distintas no cérebro, as correntes ventral e dorsal, são responsáveis pela “visão para percepção” e pela “visão para ação”, respectivamente, e pacientes com várias formas de dano cerebral podem perder uma habilidade enquanto retêm a outra.

21. Duas questões surgem imediatamente: primeiro, o que, se alguma coisa, os casos patológicos nos dizem sobre a percepção normal; e segundo, o que, se alguma coisa, tais descobertas têm a ver com a fenomenologia, já que apontar e agarrar são normalmente tão integrados que nunca ocorreu a ninguém supor que poderiam repousar em mecanismos neurológicos subjacentes distintos, e se a distinção entre apontar e agarrar era estritamente inobservável na ausência de estudos cuidadosamente controlados de sujeitos com deficiência como Schneider, pode ela ser relevante para uma fenomenologia da percepção?

22. O ponto de Merleau-Ponty, no entanto, não é simplesmente que o comportamento normal é um composto de duas funções distintas, apenas uma das quais Schneider perdeu, pois a doença, como a infância ou o estado “primitivo”, é uma forma completa de existência, e o normal não pode ser deduzido do patológico, nem as deficiências deduzidas de suas substituições, por uma mera mudança de sinal, e as substituições devem ser entendidas como substituições, como alusões a uma função fundamental que tentam substituir, e o paciente busca percepções explícitas apenas para se fornecer uma presença particular do corpo e do objeto que é dada para a pessoa normal.

23. O propósito de Merleau-Ponty aqui não é simplesmente relatar ou reiterar os resultados experimentais de Goldstein, mas ir além das questões empíricas para fazer um ponto filosófico, a saber, que a distinção neurológica entre agarrar (corrente dorsal) e apontar (corrente ventral) deixa de lado o fenômeno intermediário crucial da intencionalidade motora, que envolve a projeção de um mundo dado em intuição, em oposição a construído no pensamento, e a intencionalidade motora não é um dado neurológico, mas a unidade e integração normais do movimento corporal e da consciência intuitiva de um ambiente dado e estável.

24. Quanto à coordenação de descobertas empíricas como as de Goldstein com uma fenomenologia da percepção, a questão de como a visão se apresenta à experiência e compreensão ordinárias como uma coisa ou duas é, tal como está colocada, sem sentido, pois a individuação de sistemas e subsistemas não surge no nível da consciência perceptiva ordinária, e descobertas psicológicas como essas incidem sobre a fenomenologia de maneira muito semelhante à que novas descobertas científicas incidem sobre as intuições em geral, e não é mais verdade dizer que a ação visuomotora parece uma função neurológica única do que dizer que parece duas, ou dúzias, e a fenomenologia é silenciosa sobre quais estruturas neurológicas (se houver) estão subjacentes às capacidades sensório-motoras, pois a experiência em si não favorece o dualismo em relação ao fisicalismo, nem assegura que a percepção deva ser um processo físico.

Carne e quiasma

25. Embora Merleau-Ponty nunca tenha abandonado a fenomenologia, no final da década de 1950, sua compreensão dela, e com ela sua compreensão da percepção e da incorporação, tomou uma nova direção, e alguns argumentam que a mudança foi radical, constituindo uma espécie de mudança de paradigma, mas, embora algo tenha mudado, a questão é se a mudança foi radical, e a melhor maneira de proceder é considerar as novas ideias primeiro e depois avaliar o quanto elas se afastam do que Merleau-Ponty já vinha dizendo quinze ou vinte anos antes.

26. Embora o Capítulo 4 de “O Visível e o Invisível” se chame “O Entrelaçamento – O Quiasma”, é nas notas de trabalho no final do volume que se encontra Merleau-Ponty aproveitando plenamente esses termos, e a metáfora é clara: um quiasma é um padrão em forma de x ou de cruz, e assim é, segundo Merleau-Ponty, com o corpo e o mundo: eles não são duas coisas distintas, mas fibras de uma carne comum, fios no mesmo tecido, relacionados como um único tecido entrelaçado, e ao contrário de seu conceito de carne, a noção de entrelaçamento ou quiasma não é nada nova no pensamento tardio de Merleau-Ponty, mas uma elaboração de uma ideia que já figurava proeminentemente na “Fenomenologia da Percepção”.

27. Merleau-Ponty insiste nessa dualidade da experiência sensorial, particularmente contra Husserl, que sustentava nas “Ideias II” que apenas o sentido do tato tem esse duplo aspecto, pois, embora se possa ver os olhos no espelho, não se percebe o ver enquanto ver, e o ouvido está lá, mas o tom sentido não está localizado no ouvido, enquanto, ao tocar algo, sentem-se as qualidades do objeto e também sensações táteis localizadas na própria mão, e a teoria da intencionalidade corporal de Husserl é baseada no que ele considera o “privilégio da localização das sensações táteis”, ou seja, o duplo aspecto da sensação tátil que ele pensa fundamentar o sentido da autoconsciência corporal.