Desencobrimento

Mark A. Wrathall e Taylor Carman. WRATHALL, Mark A. The Cambridge Heidegger Lexicon. Cambridge New York (N.Y.): Cambridge university press, 2021.

Desencobrimento (Unverborgenheit)

1. “Desencobrimento” é a tradução preferida e bastante literal de Heidegger para o termo grego aletheia, normalmente traduzido como “verdade”, e a posição do filósofo é que tanto a noção ordinária de verdade como retidão ou correção (Richtigkeit) quanto a concepção tradicional de verdade como concordância ou correspondência (Übereinstimmung) pressupõem aquilo que os poetas do grego arcaico e os pensadores pré-socráticos entendiam por aletheia, a saber, o descobrimento de entidades, a abertura (Erschlossenheit) do Dasein e o desencobrimento do ser (Sein).

2. Embora Heidegger tenha reconhecido, por volta da década de 1960, que as palavras latinas e europeias modernas para “verdadeiro” (verum, vrai, wahr) tinham um escopo mais restrito do que o termo grego, sua prática anterior era usar aletheia, Wahrheit e Unverborgenheit, juntamente com outras palavras alemãs semelhantes como Entborgenheit (algo como “não-ocultamento”), Entbülltheit (revelação) e Unverdecktheit (descoberto), de maneira mais ou menos intercambiável, o que poderia induzir ao equívoco de que ele estaria oferecendo o conceito de desencobrimento como uma análise ou definição do conceito ordinário de verdade.

3. Mais importantes do que as mudanças no uso da palavra “verdade” por Heidegger, embora menos comentadas, são as mudanças no uso da palavra “desencobrimento”, pois antes de 1928 ele nunca falou do “desencobrimento do ser” (Sein) nem associou o desencobrimento com o que já vinha chamando de “clareira” (Lichtung), e em “Ser e Tempo” ele se refere ao desencobrimento apenas uma vez, equiparando-o ao descobrimento (Entdecktheit), que diz respeito às entidades (Seiende).

4. A noção heideggeriana de desencobrimento se aplica a fenômenos que são privativos nesse sentido, e a forma alpha-privativa da palavra aletheia indica que os gregos estavam cientes da natureza privativa da verdade, não apenas da “verdade proposicional” de crenças e asserções, mas também da “verdade material” (ou realidade) das coisas, sendo que o desencobrimento só pode ser compreendido em relação ao tipo de encobrimento ou ocultação que se manifesta e prevalece no que está desencobrido, de modo que o encobrimento é o fenômeno positivo que deve ser primeiramente esclarecido para que se entenda o que é o desencobrimento.

5. Com respeito à verdade proposicional, o encobrimento é simplesmente a indisponibilidade do mundo para um tipo específico de comportamento humano, a saber, o pensamento, mas, assim concebido, a verdade proposicional é apenas uma forma de um tipo mais geral de desencobrimento, qual seja, as acessibilidades das entidades a qualquer tipo de atitude ou comportamento humano, e o desencobrimento das entidades é o que Heidegger chama de seu “descobrimento”, de modo que uma entidade está propriamente encoberta quando não se pode comportar-se em relação a ela de modo algum.

6. A fenomenologia do comportamento prático cotidiano pode parecer em tensão com a ideia de que o estado de estar encoberto deve ter precedência na maneira de dar sentido ao trato ordinário com as coisas no mundo, mas Heidegger é enfático quanto à primazia do encobrimento, afirmando que, quando o Dasein vem à existência, as entidades no âmbito de sua existência já são familiares e manifestas, e que com isso já ocorreu também uma certa ocultação, de modo que todo descobrimento do mundo se dá juntamente com um encobrimento de entidades, e ele insiste que o estado “padrão” das entidades é precisamente estar oculto ou encoberto.

7. Outra maneira pela qual as entidades são independentes de nós é que, por mais habilidosos que sejamos, sempre haverá mais nelas do que podemos manejar, pois cada entidade que encontramos e que nos encontra mantém essa curiosa oposição de presença na qual ela sempre se retém em um encobrimento, e esse encobrimento não é em todo caso primária e meramente o limite do conhecimento, mas sim o que torna possível lidar com a coisa em primeiro lugar, sendo o início da clareira daquilo que está clareado.

8. Uma consequência da abordagem de Heidegger é que as entidades só podem ser descobertas com base em nossa capacidade habilidosa de habitar um mundo, pois descobrimos coisas apenas ao saber como elas funcionam juntamente com outras coisas em um contexto, de modo que o descobrimento das entidades é dependente da abertura (Erschlossenheit) de um mundo e de maneiras de ser no mundo, e nossa capacidade prática, reflexiva e linguística de descobrir como as coisas são exige que os objetos se tornem disponíveis para nosso pensamento e fala, e que nosso pensamento e fala se tornem responsivos e responsáveis para com os objetos no mundo ao nosso redor.

9. Embora possa parecer um ponto trivial, é importante reconhecer que só é possível para as coisas se manifestarem em si mesmas se houver uma maneira como o mundo realmente é e, além disso, se ele se mostrar a nós como ele realmente é, e Heidegger descreve essa revelação do mundo em “Ser e Tempo” e a retoma em passagens nas quais afirma que o Dasein humano, uma entidade que se encontra em meio a entidades, comportando-se em relação a entidades, existe de tal modo que as entidades são sempre manifestas como um todo, sendo que essa totalidade não precisa ser conceitualizada expressamente, pois seu pertencimento ao Dasein pode estar velado e a extensão desse todo é mutável.

10. A partir de meados da década de 1930, à medida que passou a apreciar a natureza essencialmente histórica da abertura (Erschlossenheit) do Dasein, Heidegger começou a perguntar o que torna possível que qualquer uma de uma pluralidade de compreensões do ser prevaleça, e parte da resposta a que chegou foi que deve haver uma “clareira” (Lichtung) que permite que um modo do Dasein se dispor em relação ao mundo entre em vigor, enquanto retém outros modos possíveis de dispor-se.

11. Isso pode fazer parecer que a clareira é uma galeria de possibilidades, que mantém diferentes modos determinados de ser-no-mundo trancados em uma espécie de sala dos fundos, exibindo apenas um de cada vez, mas para ver por que essa é a maneira errada de pensá-la, é preciso lembrar que, no inglês e no alemão comuns, uma “clareira” (Lichtung) é um clareira, um espaço aberto em uma floresta, e a clareira em uma madeira não consegue ser uma clareira simplesmente apresentando algumas árvores e movendo outras para fora do caminho ou para fora da vista; a clareira da floresta é simplesmente o fato de que não há árvores nela.