CAPOBIANCO, Richard. In Heidegger’s vineyard: reflections and mystical vignettes. Brooklyn, NY: Angelico Press, 2024.
A Clareira mesma é o Ser, e não o ser humano
1. Retoma-se o curso de 1944 sobre o Logos de Heráclito para destacar mais um texto que afirma a primazia do Ser (Sein) como “a clareira” [die Lichtung ] ou “a região”.
2. Na Seção 6, Recapitulação 2(b), retoma-se a questão da “relação” entre o logos humano e o Logos primordial ou o Ser mesmo, esclarecendo-se que, para Heráclito, logos não remete às posteriores concepções “metafísicas” de Noûs, Mente ou Razão, mas originalmente a “reunir”, “colher”, “congregar”, “recolher”, de modo que o logos humano é um “reunir” bem mais abrangente do que a posterior “razão”, sendo o Ser como Logos primordial o “reunir” ou “pré-reunir” que concede o próprio logos humano, o qual depende do Ser, e não o inverso.
3. A partir desse pensamento condutor, enfatiza-se que, para Heráclito, a tarefa fundamental consiste em “escutar” ou “dar ouvidos” [ hören, horchen] ao Ser, e não se apegar aos demais entes ou às próprias opiniões, preocupações e projetos, permanecendo sempre aberta a passagem ao Ser mesmo quando se está distraído e ocupado com os entes, visto que somos sempre “dirigidos ao Ser e por ele interpelados”, de modo que essa abertura ao Ser pertence à nossa “essência” e é somente por meio dessa escuta que se pode situar corretamente a nós mesmos e a todos os entes.
4. Esta é a lição primordial a extrair dos “ditos” e “ensinamentos” de Heráclito, cuja significação “religiosa” ou “espiritual” não pode nem deve ser ignorada, sendo somente por meio dessa escuta do Ser que se pode saber quem verdadeiramente se é e qual é o “lugar essencial” próprio, situado “na região do Logos”.
5. A região é o Ser, e o Ser como Logos é essa “clareira” ou “área clareada” que permite que todas as coisas sejam e se aproximem de nós, de modo que o ser humano só é capaz de “clarear” os entes porque o Ser primeiramente “clareia” o ser humano e todos os entes.
6. Está em jogo, portanto, nada menos que o destino da “alma humana” [die Seele des Menschen], já que o ser humano é capaz da postura presunçosa de tomar-se como medida absoluta de todas as coisas e, com isso, de desfigurar sua própria “alma”, soando-se o alarme nessas lições sobre Heráclito quanto à capacidade, no mundo contemporâneo, de atender a essa advertência.