A análise se insere no curso de 1944 sobre Heráclito, dedicado ao Logos, no qual Heidegger busca pensar a relação entre o Logos primordial do Ser e o logos do ser humano
O problema central não é exegético no sentido filológico restrito, mas ontológico, isto é, diz respeito ao modo como o Ser se relaciona com o humano
A discussão do fragmento 45 ocorre no interior desse esforço de repensar a relação entre Ser e homem para além da metafísica tradicional
Crítica à concepção metafísica tradicional da relação entre Ser e homem
Heidegger rejeita as interpretações que concebem a relação entre Ser e homem como uma relação entre dois entes estáticos
Essas interpretações são qualificadas como metafísicas no sentido da ontologia da substância ou do sujeito
A objeção principal consiste em que tais concepções perdem o caráter dinâmico, fluido e originariamente enigmático da relação
Contra isso, Heidegger sustenta que há de fato uma relação, mas que ela não pode ser pensada como dependência do Ser em relação ao homem
O caráter peculiar da relação entre Ser e alma humana
O Ser não depende do ser humano nem da alma humana
Contudo, a relação entre ambos é difícil de delimitar e compreender
A alma humana é descrita como tão profunda que não se sabe claramente onde ela termina em relação ao Ser
Essa indeterminação não é uma deficiência cognitiva contingente, mas pertence à estrutura da própria relação
Universalidade possível dessa estrutura relacional
Heidegger sugere que essa relação enigmática não se limita ao ser humano
Ela pode valer, em certo sentido, para todos os entes
Ainda assim, a análise se concentra inicialmente no humano por ser nele que essa relação se torna tematizável
O fragmento 45 de Heráclito como ponto de inflexão
O fragmento é tradicionalmente traduzido como a impossibilidade de descobrir os limites da alma
Heidegger não rejeita simplesmente essas traduções
Seu interesse reside em mostrar que o fragmento não foi compreendido em sua radicalidade
O fragmento testemunha contra as concepções posteriores da alma desenvolvidas na tradição filosófica
Crítica às concepções platônicas e aristotélicas da alma
Platão e Aristóteles, bem como seus comentadores, reduziram a alma humana ao âmbito do intelecto ou da razão
Termos como noûs, intellectio e ratio passaram a definir o essencial da alma
Essa redução implica um empobrecimento da compreensão originária da alma
Perde-se de vista a abertura imensurável da alma ao Ser
A alma como abertura que ultrapassa a razão
Para Heidegger, seguindo Heráclito, a alma se estende muito além do intelecto
Sua atividade fundamental não é apenas pensar racionalmente
Ela consiste em um recolher e reunir que alcança muito além da atividade intelectual codificada pela tradição
Esse recolher é uma abertura ao Ser enquanto totalidade ainda não esgotada
A impossibilidade de encontrar os limites da alma
Heidegger traduz os limites da alma como as saídas ou passagens extremas
Essas passagens extremas não podem ser encontradas
Isso significa que a relação do homem com o Ser nunca é plenamente delimitável
A relação permanece estruturalmente indeterminada e, por isso, enigmática
Consequência ontológica da indeterminação
A impossibilidade de delimitar a alma implica que o Ser nunca é plenamente acessível
O Ser se dá sempre com um excedente que escapa à apreensão
A relação entre homem e Ser permanece, portanto, um acontecimento de espanto e mistério
A noção de profundidade da alma
Heidegger esclarece que a profundidade não é entendida em sentido quantitativo ou psicológico
Profundidade significa extensão de abertura ao Ser
O exemplo utilizado é o da floresta profunda, na qual se pode avançar indefinidamente
Não há um ponto final claramente demarcável
Profundidade como alcance no oculto
O profundo é definido como aquilo que alcança plenamente o oculto
Alcançar o oculto não significa eliminá-lo
Significa reunir-se a ele de modo próprio
A alma é a extensão que alcança o oculto do Ser e, ao fazê-lo, reúne
A alma como expansão que recolhe o Ser
A alma é compreendida como a expansão que se estende ao ocultamento do Ser
Esse ocultamento não é ausência, mas modo próprio de manifestação
A atividade da alma participa do recolhimento primordial do Ser
Contudo, esse recolhimento nunca esgota o que recolhe
O caráter inesgotável do oculto
O oculto do Ser não pode ser plenamente desvelado
A abertura humana não consegue esgotar esse ocultamento
Sempre permanece uma reserva, um excedente não apropriável
Isso corresponde à concepção do Ser como Aletheia, desvelamento que inclui ocultamento
A afinidade com a ideia de que o Ser ama ocultar-se
A leitura do fragmento 45 se articula com a interpretação do fragmento 123
O Ser é pensado como aquilo que ama ocultar-se
O ocultamento não é um defeito, mas um traço essencial do Ser
A profundidade da alma corresponde à abertura para esse ocultamento essencial
Salvaguarda do mistério do Ser
Heidegger enfatiza a grandeza da abertura da alma humana