Angst

CAPOBIANCO, Richard. Engaging Heidegger. Toronto: University of Toronto press, 2010.

1. entre todos os entes, apenas o ser humano, chamado pela voz do Ser, experimenta a maravilha das maravilhas: que os entes são — epígrafe que introduz a questão da disposição afetiva (Befindlichkeit) que mais define nosso ser-no-mundo, identificando-se em Ser e Tempo a Angústia (Angst) como o humor que confronta o Dasein com a verdade sóbria de sua existência radicalmente finita, sendo, contudo, necessário examinar como, após essa obra, Heidegger progressivamente se afasta dessa ênfase inicial, atribuindo maior atenção, no pensamento tardio, ao “temor reverente” (die Scheu) e ao “assombro” (das Erstaunen), retomando o humor da “maravilha” (thaumazein) dos antigos filósofos gregos.

I. Ser e Tempo (1927)

2. na Seção 29, a “disposição afetiva” (die Befindlichkeit) é identificada como um existenciale, componente estrutural fundamental do Dasein, que se encontra sempre-já afetivamente disposto por estar sempre-já aberto ao mundo, “lançado” e “entregue” a ele, distinguindo-se essa dimensão ontológico-existencial da afetividade humana dos “humores” (Stimmungen) ônticos-existentivos específicos, ainda que, em ambos os casos, o ser humano esteja sempre-já “disposto” ou “atinado” de certo modo.

3. na Seção 30, descreve-se fenomenologicamente o medo, sempre medo de algo definido no mundo, contrastando-se posteriormente, na Seção 40, com a Angústia, humor que não se relaciona a nenhum ente específico intramundano, mas que ilumina para o Dasein seu próprio ser-no-mundo enquanto tal, ou sua abertura radicalmente finita enquanto tal.

4. discute-se a dificuldade de tradução da palavra Angst, devedora da análise de Kierkegaard (Der Begriff der Angst, 1844), tradicionalmente vertida como “dread” — inclusive por Thomas Sheehan em tradução recente de “O Que É Metafísica?” (GA9) —, propondo-se, ao contrário, razões mais convincentes para traduzi-la como “anxiety” (ansiedade/angústia), não obstante as próprias dificuldades dessa opção.

5. na Seção 40, reitera-se que o medo sempre provém dos entes intramundanos, ao passo que aquilo diante do qual se tem angústia não é um ente intramundano, não sendo a angústia angustiada por isto ou aquilo, relacionando-se antes ao próprio ser-no-mundo enquanto tal, o que, se atendido, conduz o Dasein para além de seus envolvimentos com os entes e ilumina o “mundo como mundo”, revelando-lhe sua condição peculiar de lançamento, facticidade, decadência e mortalidade (ser-para-a-morte), e fazendo-o experimentar-se como exilado dos entes e do mundo, “estranhado”, “desinstalado” — sendo, contudo, precisamente essa angústia que o confronta com sua liberdade-para a autenticidade de seu ser.

6. observa-se que a análise fenomenológica da angústia permanece incompleta, notando Heidegger, ao final da Seção 40, que a “angústia autêntica” (eigentliche Angst) é “rara” sob o domínio da decadência e da publicidade, embora o Dasein cotidiano frequentemente experimente a angústia sob a forma de sintomas “fisiológicos”, constituindo esse fato, em sua facticidade, problema ontológico e não meramente ôntico-causal, já que apenas por ser angustiado no núcleo de seu ser é que a angústia pode manifestar-se fisiologicamente.

7. o contraste demasiado nítido entre as disposições de Angst e medo revela-se insuficiente, podendo a “ansiedade ôntica” manifestar fenomenologicamente traços de ambas: assemelhando-se à Angst por ser, com frequência, uma ansiedade “generalizada” sobre “nada” determinável, e assemelhando-se ao medo, como esclarece Freud, por ser ansiedade diante de um ente definido, porém ainda não trazido à palavra e ao mundo — trazer esse ente “reprimido” à palavra e ao mundo é o que traz ao Dasein alívio de tal ansiedade debilitante.

II. 'O Que É Metafísica?' (1929)

8. na conferência inaugural de 24 de julho de 1929 como titular da Cátedra de Filosofia em Freiburg, Heidegger acrescenta, em 1943, um Posfácio no qual reconhece as críticas públicas recebidas por ter “isolado” a Angst, humor “mórbido”, e elevado-a a “humor fundamental” (Grundstimmung), acusação de sustentar uma “filosofia da angústia” negativa e paralisante — crítica que, embora Heidegger a considere equivocada, não erra inteiramente o alvo, dado que, em Ser e Tempo, não distinguira suficientemente as dimensões ôntica e ontológica da Angst, e que sua análise fenomenológica trazia, de fato, tom excessivamente “negativo”, ao caracterizar o Dasein como primordialmente unheimlich e unheimisch e ao desdenhar todos os modos “em-casa”, “tranquilizados” e “familiares” de ser-no-mundo como inautênticos.

9. na conferência de 1929, o interesse recai novamente sobre o humor singularmente revelador da Angst, que confronta o Dasein com das Nichts, o Nada, o Não-ente que permite a todas as formas de entes aparecerem — não sendo o Nada a simples negação de todos os entes, mas outro nome para o Ser mesmo, aquilo que permite que os entes brilhem, apareçam, “sejam” —, distinguindo-se, como em Ser e Tempo, medo e angústia, e advertindo-se contra a confusão entre a Angst e a comum “ansiedade” (Ängstlichkeit) redutível ao medo.

10. na descrição da disposição afetiva da Angst, retomam-se os traços já expostos em Ser e Tempo — o “desinstalamento”, a indiferença dos entes, a opressão do recuo dos entes como um todo, o emudecimento do Dasein diante de sua abertura radicalmente finita ao Nada —, sendo, contudo, mais explícita, nesta conferência, a diferença sutil e significativa quanto à ênfase na “calma” peculiar dessa disposição: a Angst não é confusão nem turbulência, mas está “impregnada de uma peculiar espécie de calma [ Ruhe ]”, um “retraimento diante de… que certamente não é fuga, mas sim uma calma perplexa [gebannte Ruhe]” que não se opõe à alegria, vivendo em comunhão secreta com os anseios serenos e suaves da criatividade.

11. essa diferença sutil sugere deslocamento importante no pensamento heideggeriano: se em Ser e Tempo insistia-se (talvez excessivamente) que o Dasein é constitutivamente “desinstalado” por sua finitude irremissível — limitação, carência, incompletude —, em “O Que É Metafísica?” o interesse volta-se antes para o fato de que o Dasein é constitutivamente desinstalado por encontrar-se como o “entre” finito entre o Ser (o Nada) e os entes, sendo, por essa “essência” de ultrapassar os entes rumo ao Nada, que somente o Dasein pode experimentar-se como “desinstalado” precisamente nesse “ultrapassar” — configurando-se a Angst, assim descrita, como fenômeno algo diverso, e o “desinstalamento” do Dasein como bem menos perturbador, uma vez que caracterizado como calma quieta que Heidegger chega a nomear, ao final da conferência, “maravilha” (Verwunderung).

12. levanta-se a questão de saber se essa disposição afetiva assim descrita ainda é Angst, sugerindo o relato de 1929 que o modo como nos encontramos ontologicamente na Angst (calma) difere marcadamente de como nos encontramos onticamente ansiosos (tremor), parecendo Heidegger, nesta conferência, esticar o sentido do termo Angst até seu limite, indício de que já pensava para além desse fenômeno na busca do humor que fundamentalmente define a existência autêntica do Dasein, não sendo de estranhar que, após a publicação de “O Que É Metafísica?” em 1929, nunca mais tenha conferido à Angst status tão singular e privilegiado.

13. tal observação não pretende diminuir a importância e o valor, tanto para a filosofia quanto para a psicologia, da análise heideggeriana da Angst em Ser e Tempo e em “O Que É Metafísica?”, mas apenas suscitar a questão de saber se o foco no fenômeno da Angst jamais constituiu, de fato, sua matéria mais própria de pensamento, especialmente à luz de sua marginalização após 1929, sendo razoável propor que o tema da Angst tenha sido herdado, no pensamento inicial, sobretudo de Kierkegaard, mas também de uma tradição alemã de romantismo antiburguês e da ênfase nietzschiana no heroico e no “trágico”.

III. Elucidações de Hölderlin (1943) / Posfácio a 'O Que É Metafísica?' (1943)

14. nos ensaios de 1943 sobre os poemas “Regresso ao Lar / Aos Parentes” e “Rememoração”, Heidegger enfatiza como o Ser “saúda” ou “acolhe” o Dasein, caracterizando-o com palavras positivas como o Alegrante, o Mais Jubiloso, a Fonte, a Origem e o Sagrado, decorrendo dessas caracterizações que o Dasein encontra-se fundamentalmente disposto de modo são e ditoso, nomeando ao longo desses comentários humores positivos — serenidade, jovialidade, amor e, sobretudo, alegria — como constitutivos da correspondência autêntica do poeta (Dasein) com o Ser, sendo o tema maior dessas leituras o “estar-em-casa” (heimisch, zu Hauß) do Dasein na proximidade do Ser.

15. contrasta-se essa posição marcadamente com a de Ser e Tempo, em que todos os modos de ser “em-casa” pertenciam ao impessoal e à inautenticidade, sendo, nestes ensaios sobre Hölderlin, o “estar-em-casa” do Dasein na proximidade do Ser entendido como ontológico ou primordial (ursprünglich), contraste que, embora já discutido em capítulo anterior, permite aqui observar como, ao desdobrar esse tema, Heidegger também traz à vista os humores primordialmente positivos do Dasein.

16. no comentário sobre o poema “Rememoração”, identifica-se o “temor reverente” (die Scheu) como humor que talvez melhor defina o comportamento autêntico do poeta e do pensador (Dasein) para com o Ser, sendo descrito como o “humor fundamental [ Grundstimmung ] das festas para os caminhos lentos” que “determina que se vá à origem”, humor fundamental da “rememoração” do Dasein de que todos os entes (claros e sombrios) desdobram-se no Ser, e todos os humores são sintonias com os entes tal como estes se desdobram no Ser.

17. no Posfácio de 1943 a “O Que É Metafísica?”, Heidegger retoma a discussão da Angst e reformula sua significação, insistindo, em resposta aos críticos, que ela não deve ser confundida com o interesse ôntico por “sentimentos” subjetivos, sendo antes disposição afetiva distintiva (entendida ontologicamente) que “reclama o ser humano em sua essência, de modo que aprenda a experienciar o Ser no Nada”, exigindo “coragem” para arriscar-se à “experiência do Ser” — descrição que recupera a ênfase na “calma” da Angst já presente em “O Que É Metafísica?”.

18. no Posfácio, contudo, a Angst já não é privilegiada como o fora na conferência de 1929, parecendo o temor reverente (Scheu) — o mesmo humor destacado no comentário sobre “Rememoração” — ter-se tornado o nome mais adequado à disposição constitutiva da abertura do Dasein ao Ser em toda sua riqueza e ambiguidade, afirmando-se numa passagem-chave que, próximo à angústia essencial (ontológica), no terror do abismo, habita o temor reverente, que clareia e abraça o lugar de ser essencialmente humano no qual se permanece em casa no permanecer.

IV. Introdução a 'O Que É Metafísica?' (1949)

19. na Introdução de 1949, intitulada “O Caminho de Volta ao Fundamento da Metafísica”, o tema da Angst, tão proeminente em 1929, quase desaparece, sendo sua referência breve e críptica, interpretando-a Heidegger agora como a experiência do “esquecimento do ser” caracteristicamente moderno, resposta específica ao desenraizamento do mundo tecnológico contemporâneo.

20. observa-se cuidadosamente que Heidegger já não afirma, como antes, ser a Angst a disposição afetiva definidora da ex-sistência do Dasein, sugerindo antes que a Angst constitutiva da época moderna deve ser resolutamente enfrentada pelo Dasein justamente para atenuar — e talvez superar — seu aguilhão, encontrando o caminho de volta a um pensamento originário rememorante (das andenkende Denken) que restaura a relação entre Ser e ser humano, possibilidade de uma “permanência” (Aufenthalt) transformada dos seres humanos na época presente que ocupará cada vez mais seu pensamento até a morte em 1976.

V. 'O Que É Isso — a Filosofia?' (1955)

21. na conferência proferida em 1955 em Cerisy-la-Salle, Normandia, e publicada em 1956, Heidegger considera que a palavra grega philosophos foi provavelmente cunhada por Heráclito, para quem o sophon significa Hen-Panta, “Um (é) Tudo” (Eines [ist] Alles) — sendo Panta, o múltiplo (“tudo”), entendido como todos os entes, e Hen, o Um, “o único, o que a tudo unifica”, nome para o Ser, que “é” os entes no sentido de que o Ser deixa ser e “recolhe” os entes, sendo o Ser esse “recolhimento”, o Logos primordial.

22. segundo Heidegger, as palavras de Heráclito estavam em correspondência originária (homologein) com o Ser (Logos), correspondência esta harmônica, sendo essa harmonia o traço distintivo do philein, do “amar” no sentido heraclitiano, de modo que o philosophos é aquele que, em harmonia com o Ser, diz “Um (é) Tudo”, isto é, “todos os entes no Ser”, acompanhando essa enunciação um humor ou “sintonia” (Gestimmtheit) fundamental identificado como “assombro” (das Erstaunen) — que os entes se recolham no Ser, que no resplendor do Ser os entes resplandeçam, eis o que primeiramente assombrou os gregos, e somente a eles.

23. discute-se a tradução de das Erstaunen, preferindo-se “astonishment” (assombro) a “wonder” (maravilha, ligada a thaumazein de Platão e Aristóteles), por melhor sugerir a alegria profunda e duradoura que acompanha a descoberta profunda, condizente com a intenção heideggeriana, não tendo os gregos que “amavam” o sophon precisado ainda “anelar” por ele, por estarem em harmonia fundamental com ele, sendo a necessidade de resgatar e preservar essa “coisa mais assombrosa” da superficialidade sofística o que deu origem ao esforço em direção ao Ser, a philosophia, realizada primeiro por Sócrates e Platão, que, a despeito de certo afastamento do pensamento mais originário de Parmênides e Heráclito, permaneceram próximos da origem e, portanto, “afinados” como assombro.

24. tanto Platão quanto Aristóteles nomeiam o pathos definidor do filósofo como thaumazein, “assombro” — lendo-se em Platão (Teeteto 155d) que este é, de fato, o pathos de um filósofo, o assombro, não havendo outra origem determinante da filosofia senão essa, e em Aristóteles (Metafísica A 2, 982b12) que é através do assombro que os seres humanos alcançaram, tanto no presente quanto no início, o caminho determinante do filosofar — entendendo Heidegger que os filósofos gregos compreenderam o pathos do assombro como arché não no sentido superficial de uma causa eficiente que apenas põe em movimento o filosofar, mas como aquilo que inteiramente “governa” o pensamento e jamais é “deixado para trás”: a philosophia começa — e termina — em “assombro”.

25. reconhece-se que a “sintonia” do pensamento após os gregos e ao longo da modernidade foi diversa, não principalmente a do “assombro” que definiu a aurora do pensamento ocidental, lamentando-se que, sobretudo na época presente, estejamos à mercê de humores diversos e aleatórios como “dúvida e desespero” e “medo e angústia [Angst]… misturados com esperança e confiança” — não conferindo aqui Heidegger qualquer status especial à Angst, sendo apenas uma “sintonia” entre outras na época presente, todas revelando profundo desacorde com o Ser, o que, todavia, poderia ser justamente o modo como o próprio Ser sintonizou o mundo contemporâneo.

26. depreende-se do tom geral da discussão que Heidegger considera e estima a correspondência grega originária com o Ser, e sua disposição afetiva acompanhante de assombro, como a relação mais essencial, definidora e autêntica entre o ser humano e o Ser, recusando-se, ao final da conferência, a limitar artificialmente a discussão à questão da filosofia, afirmando não se propor a discussão desenvolver um programa fixo, mas antes preparar todos os participantes para um recolhimento no qual somos interpelados por aquilo que chamamos o Ser dos entes — podendo-se dizer, seguindo essas indicações, que não apenas o filósofo, mas também o poeta e todo ser humano que, de algum modo, contempla e busca habitar a verdade simples do Ser como emergir-aparecer-desaparecer dos entes, encontra-se em assombro (maravilha).

27. nota-se, ademais, que a descrição fenomenológica do assombro é virtualmente idêntica à descrição do temor reverente (die Scheu) destacada no comentário de 1943 sobre “Rememoração”, empregando-se em ambas as descrições a palavra Ansichhalten, um reter-se, um retrair-se — comportamento também tematizado, no mesmo ano de 1955, como Gelassenheit —, afirmando-se que, no assombro, nos retemos, recuamos, por assim dizer, dos entes, [assombrados] de que sejam em vez de não serem, não se esgotando o assombro nesse recuo diante do Ser dos entes, mas sendo, nesse mesmo recuar e reter-se, simultaneamente arrebatado e como que retido por aquilo de que recua.

28. constata-se, assim, que as descrições fenomenológicas heideggerianas de “temor reverente” e “assombro” (e mesmo de Gelassenheit) são essencialmente as mesmas, podendo-se reconhecer nelas a “calma perplexa” da Angst já presente em “O Que É Metafísica?” (1929), caracterizando-se, em síntese, a situação do Dasein assim: em calma e reserva pensativa, tomamos conhecimento de nossa abertura frágil e finita na proximidade jubilosa do desdobrar-se assombroso de todos os entes (incluindo nós mesmos) no Ser, aceitando graciosamente e assumindo corajosamente o risco de mantermo-nos abertos ao Aberto, pensando, habitando e criando autenticamente por essa suave resolução.

29. assombro, temor reverente, maravilhamento, admiração — quaisquer desses termos parecem capazes de captar o que o Heidegger tardio frequentemente sugere e indica ser o humor definidor de nossa correspondência autêntica com o Ser, sendo certo, como ele nunca deixa de lembrar em sua obra tardia, que a preocupação contemporânea com modos calculantes e instrumentais de pensar e existir tornou essa correspondência autêntica mais difícil de alcançar — difícil, sim, mas não impossível, permanecendo o pensar e o habitar autênticos, em assombro, sempre uma possibilidade para o Dasein.

Conclusão

30. da Angústia ao Assombro: eis um modo de descrever, numa fórmula, o desenvolvimento do pensamento heideggeriano sobre o humor definidor da existência autêntica, sendo sua ênfase inicial na Angst decisivamente marcada pela discussão de Kierkegaard, mas também pelo romantismo heroico de Nietzsche e por outras perspectivas românticas antiburguesas, elaborando, não obstante, ainda que a problemática da Angst tenha sido mais encontrada do que fundada por Heidegger, um relato distintivo e persuasivo desse fenômeno que permanece valioso para a filosofia e para a psicologia.

31. ao superar essas influências iniciais e desdobrar progressivamente sua matéria mais própria de pensamento, seu foco deslocou-se da Angst para outros humores, em particular o temor reverente (die Scheu) e o assombro (das Erstaunen), podendo-se dizer que, para o Heidegger tardio, a correspondência autêntica do Dasein com o Ser é afetivamente “sintonizada” principalmente como assombro, temor reverente, maravilhamento, admiração.

32. apesar dos obstáculos formidáveis apresentados em nossa época — dominada pelo cálculo e pela mercantilização (das Gestell) —, a existência autêntica permanece sempre uma possibilidade — e uma escolha —, admitindo-se que a importância existencial dessa escolha é frequentemente velada na polêmica vigorosa do Heidegger tardio contra nossa época moderna “voluntariosa”, ainda que sua própria obra de vida continue a testemunhar eloquentemente a liberdade sempre possível aos seres humanos: a escolha de liberar o pensamento ôntico para rememorar, em assombro, que todos os entes — inclusive nós mesmos — se desdobram no Ser; a suave resolução de pensar e habitar em maravilha — a maravilha de que falavam há muito os antigos gregos — na proximidade da Fonte.