Pensar e Amar

A APROPRIAÇÃO PROPÍCIA: PENSAR E AMAR COM HEIDEGGER

1. O artigo explora o vínculo entre pensar e amar como âmbito propício ao acontecimento do novo, defendendo a irredutibilidade da apropriação propícia (Ereignis) à concepção inicial de qualquer objeto intencional, a partir da análise dos poemas de Heidegger enviados a Hannah Arendt, da meditação sobre Nietzsche e da articulação entre amor e pobreza nos textos de meados dos anos 1940.

2. O Ereignis é o acontecimento da mútua e primordial apropriação pela qual o ser, à maneira humana, se institui em guardião e pastor do Ser, no kairós do seu entregar-se um ao outro, sendo o fazer-se obra da verdade no mundo e existência humanos entendido na sua dimensão temporal de acontecimento inaugurador de história no local instantâneo (Augenblicksstätte) de um encontro do ser com o seu aí e do aí humano com o Ser.

3. O termo Ereignis deve ser entendido simultaneamente nos seus três aspectos semânticos: como «acontecimento» (Ereignis), como «apropriação» (Er-eignis) e no sentido ótico de regarder en face (Er-äugen), que põe em relação com o título das conferências de Bremen, Einblick in das, was ist, sendo fundamental pensar a coalescência do sentido temporal e do duplo uso da etimologia, e a escolha do termo «propiciar-se» ou «propício» acentua o carácter cairológico do início, do chegar a «dar-se» quer da apropriação como acontecimento, quer do seu dar-se a ver ao olhar que acolhe.

4. A distinção entre «Heidegger I» e «Heidegger II» só se justifica se se tiver sempre em conta que só partindo do pensado em I se pode aceder ao que deve pensar-se em II, e que I só é possível se está contido em II, requerendo uma consideração «historial» do próprio pensamento heideggeriano que não estude separando, de forma objetualizante, o projeto fenomenológico da Ontologia Fundamental e o projeto aletheiológico e topológico da História do Ser.

5. O poema Uns ereignend manifesta o contexto erótico e revela que o acontecimento da mútua apropriação, que origina ou propicia o «nós» existencial, dá início a uma história, e o local instantâneo assim criado – cume e abismo – não se extingue ao abrir um por-vir que não devém passado porque é guardado no pensar rememorativo; o ato amoroso é passageiro, mas não o vínculo entre os amantes na forma ôntica do amor humano sobre o fundo ontológico do apropriar-se, que não é um tomar posse, mas um fazer-se próprio para ser em plena autenticidade.

6. O poema Das Ereignis joga com a raiz -eign em três variantes – Ereignis, enteignet e geeignet – que no seu conjunto caracterizam o acontecimento enquanto tal, onde o tornar próprio des-faz o próprio em aceitação da diferença, leal à alteridade quer ôntica (entre os dois amantes) quer ontológica (entre o aí humano e o ser ele mesmo), e a intencionalidade da procura des-faz-se no puro «achado», no que vem ao encontro como diferente, na tonalidade do amor, a que se ligam pudor (Scheu) e lealdade (Treu) como abertura ao ser que se dá e se acolhe.

7. Nas lições de 1925, Heidegger distingue o amor da mera pulsão, afirmando que esta ofusca e cega, enquanto o amor faz ver, e em Ser e Tempo cita Pascal através de Agostinho para afirmar que não se entra na verdade a não ser pela caridade, estabelecendo que o conhecimento começa na compreensão amorosa e que esta irrompe como Ereignis, vinculando pensar e amar desde o início do tempo do cuidado, cuja facticidade se manifesta sempre no mundo à maneira do em cada caso meu.

8. Na meditação sobre Nietzsche (1936), Heidegger caracteriza os afetos e as paixões como maneiras fundamentais sobre as quais o Dasein humano descansa, como a maneira como o homem sostém o «aí» em que ele está – a abertura franca e o encobrimento do ente –, e distingue o afeto (ataque irritante e cegador, passageiro e involuntário) da paixão (invasão de clarividência e competenciação no ente, tenaz e intensificada voluntariamente), sendo o amor e o ódio paixões que se entranham no todo do ser, compenetrando e trazendo coesão e durabilidade, tornando capazes de ver e refletir.

9. Em Besinnung (1938-39), o amor é definido como a vontade de que o amado seja, que ache a sua essência e nela se essencie, uma vontade que não deseja nem exige, mas que, benévola, apenas deixa que o digno de ser amado venha a ser o amado sem o criar; o amor-paixão é uma disposição de fundo que persevera na sua determinação e é um sofrer a urgência (Not) do a-fundamento, e este sofrimento (pathos) é o que é chamado pelo Ser, mantendo-se numa via de resolução a alcançar a entrega em propriedade (Übereignung) do homem à verdade do Ser a partir do fundamento do Da-sein.

10. O pensar originário (Er-denken) do Ser não tem de que «ocupar-se», pois é a apropriação do Ser ele mesmo – e nada mais que isso –, e a filosofia que prepara o outro início não alcança a sua posição fundamental mediante uma transição que parta da metafísica, mas apenas mediante um salto para um perguntar totalmente diferente, que estabelece uma clivagem entre o pensar da história do Ser e a Metafísica.

11. No texto sobre “A pobreza” (1943), Heidegger mostra que a pobreza, longe de ser a carência do necessário para viver, é a disposição a não necessitar de nada que não seja o que tem «de próprio», i.e., o “ser na posse do próprio” (im Eigentum sein), e esta é uma nova definição do Da-seyn, do Aí-Ser enquanto ser o «aí» do Ser, servi-lo para que aí apareça em vez de se orgulhar de o «ter» à sua disposição e sob o seu domínio e poder.

12. A relação (Verhältnis) com o Ser é pensada como o que está sendo em Verhalten (a atitude comportamental), o conter-se em si que suspende na medida em que, reservado, zela por tudo na sua essência, protegendo que aí repouse, e esta relação é o acontecimento (Ereignis) do zelar, que contendo-se em si, junta o que encontra proteção na doçura, libertando porque torna livre, e liberta como o livre, o que se dá gratuitamente, o incólume, o poupado, o que não é utilizado ou explorado.

13. Neste contexto, Heidegger introduz a conexão do amor: libertar (freien) é aquilo em que consiste a essência do amor, e o termo sânscrito correspondente ao germânico «fry» significa «amor» – o liberar da essência, o proteger que une, zeloso e parco, é a essência do amor e do amar, e o amor é o que liberta para o gozo de todo o Ser, procedente da liberdade gratificante, sendo também protector do não-dito.

14. O amor, neste contexto, é o volo ut sis agostiniano (o querer que o outro seja) e o sentido presente no conceito de cuidado (Sorge) em Ser e Tempo, pois o cuidado, bem entendido à maneira ontológico-fundamental, não pode nunca distinguir-se do amor, sendo o nome da constituição temporal ek-stática enquanto traço dominante do Dasein, mais precisamente, a compreensão do ser, fundando-se o amor tão decisivamente na compreensão do ser como o cuidado mencionado em sentido antropológico.

15. O amor é a serenidade do pertencer-se no proteger da pobreza, que prepara para o Ser o que se possui como próprio (Eigentum), de onde nasce a morada (Behausung), a linguagem, para o habitar de um povo, e a pobreza é a abundância, o deixar derramar-se em si mesmo, sem precisar de sair de si, nem de acrescentar nada, sem ter que guardar nem reter para não perder.

16. O pensar, em sua máxima acuidade, como recuperador do fio inicial perdido na era metafísica, não procura senão aquele meditar que a filosofia começou por aspirar a ser antes de entrar em sua própria errância, e a filosofia tradicional, como amor pelo saber (Liebe zum Wissen), esgota-se nos saberes particulares, enquanto o “outro pensar” é o amor do saber (Liebe des Wissens), onde o saber é que é o amante e o amor, e o que o saber ama é o Ser no chegar do seu regresso à apropriação propícia (Ereignis).

17. O amor do saber é a serenidade da saudade (Andenken), que preserva a saga que aclara a verdade do Ser, e a serenidade da memória (Gedächtnis) repousa na apropriação, sendo o diálogo (Gespräch) o propiciar-se da saga que guarda e aclara, o propiciar-se da linguagem na história.

18. O pensar propício, aquele que leva em si o saber do elo, do «entre» que liga «ser» e «aí humano» enquanto mútua apropriação ontologicamente instituinte do Da-sein como tal, não visa nada, sente-se a si próprio em plenitude do estar já de sempre a ser na abertura à Quadrindade, e sabe-se também enraizado na terra, sendo a manifestação em propriedade do habitar.

19. A verdade é o claro albergar do encobrimento do começo; o trespasse do próprio (Vereignung) na luz silenciosa da docilidade de um olhar luminoso que entrega a verdade é o amor; a fundamentação da verdade no reino da terra, no solo do começo, é o pensar e o poetar, cujo diálogo é protegido pela harmonia do amor, e o local da fundamentação da verdade que procede do amor é a terra-mãe (Heimat).

20. O pensar, enquanto gratidão em plenitude de sentido (sich ereignende Dank), desdobra aquilo que se inicia como amor, enquanto docilidade à verdade, permitindo o enraizamento na terra e o começo de uma história, e tudo se entrança a partir da apropriação inicial, achando além do achado “a coroa do Mesmo”.