Tempo feliz

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

1. Objeções contra a confiabilidade dos exemplos

1. Após o estudo da consciência do tempo na tonalidade emotiva da felicidade com o auxílio de três exemplos extremos, é necessário agora extrair resultados sistemáticos no seu significado geral, independentemente das objeções críticas particulares que se podem levantar contra cada um deles, e a principal objeção, de que se trata de estados excepcionais e alterados, de natureza patológica, é considerada já confutada no curso das análises individuais, sendo possível, pelo confronto entre exemplos de causas diferentes, extrair um núcleo geral não mais interpretável em sentido patológico.

2. Confronto resumitivo e direções de prosseguimento da pesquisa

2. A reflexão conduzida até aqui já trouxe a consideração sobre a fecundidade desses momentos para a totalidade da vida, e os estados de embriaguez artificial não tinham função positiva, sendo improdutivos para a vida posterior, o que não confuta a tese, mas é consequência da inautenticidade da felicidade provocada artificialmente, enquanto a capacidade de construir a comunidade, própria da felicidade, geralmente não se verifica nesses casos, marcando nitidamente os limites entre a experiência da felicidade plena e autêntica e os estados meramente patológicos.

3. A questão da potência criativa

3. A grande fecundidade das tonalidades emotivas elevadas para a totalidade da vida já foi estudada, e nesses momentos felizes o homem se sente melhor e mais forte, e esse sentimento se traduz em ação, tornando-o verdadeiramente outro, como mostram as confirmações em Proust, onde o sentimento do aperfeiçoamento da própria existência é particularmente marcado, e esse sentimento não é uma ilusão subjetiva, mas um conhecimento mais profundo da própria essência e do mundo, uma “intuição da verdadeira essência do mundo”.

4. A relação entre felicidade e intemporalidade

4. Das diferentes testemunhas sobre uma condição de felicidade plena e perfeita, resulta um quadro homogêneo: há formas de experiência do tempo nitidamente distintas do curso da vida ordinária, em que a consciência do tempo é totalmente perdida, mas essa evanescência não é percebida como uma falta, mas como o último, extremo compimento da vida, uma “libertação” do “fardo” do tempo, onde o homem se sente numa existência finalmente perfeita, e a intemporalidade adquire o caráter positivo da eternidade.

5. A relação entre o tempo da felicidade e o da existência

5. Questiona-se como a intemporalidade pode ser considerada mais alta e perfeita, se a filosofia da existência afirma que o homem é determinado pela temporalidade, e a resposta é que a intemporalidade não é uma evasão da existência temporal, mas ocorre dentro da própria vida temporal, sendo um estado temporal ligado a um determinado instante, em que o homem está simultaneamente dentro e fora do tempo, revelando-se uma nova “dimensão” suplementar da temporalidade, onde os diferentes momentos dessa experiência podem se encontrar no plano da simultaneidade.

6. Condição de jogado e “sustenção”

6. O trabalho de Oskar Becker, “Da caducidade do belo e da natureza aventureira do artista”, partindo da interpretação dos fenômenos estéticos, constata que na experiência estética há uma forma do comportamento humano que não se explica pela “analítica existencial” heideggeriana, designando esse estado como “sustenção” [Getragenheit] em oposição à “condição de jogado” [Geworfenheit], e desenvolvendo novas determinações fundamentais, os “para-existenciais” [Para-existentiolien].

7. A supratemporalidade do amor

7. As análises de Binswanger sobre a estrutura temporal da experiência do amor, em sua obra “Formas fundamentais e conhecimento da existência humana”, aprofundam esses relações, mostrando que as experiências da eternidade que se abrem aos amantes revelam um estado de duração intemporal, onde a eternidade autêntica não deriva quantitativamente de uma soma infinita de segmentos temporais, mas qualitativamente numa forma temporal completamente diferente, onde a duração eterna é independente da brevidade ou da extensão temporal.

8. O significado do instante fecundo para a vida inteira

8. O significado que esses instantes destacados têm para a totalidade da vida, já observado para as tonalidades em geral, deve ser agora resumido e aplicado aos casos-limite, segundo duas direções: determinar o significado desses instantes em relação ao curso inteiro da vida, e considerar o modo como esses instantes intemporais retornam, através de um movimento contínuo, à temporalidade da vida ordinária.

9. O retorno à vida ativa

9. Quanto à segunda direção, observa-se o processo temporal que desses instantes intemporais conduz a um estado de nova decisão e atividade na vida histórico-temporal, e o simples despertar desiludido do sonho ocorre apenas quando o instante fecundo não se tornou produtivo, mas onde algo realmente se desencadeou, a intemporalidade desse próprio vivido produz a tensão que explode o instante fechado em si mesmo e se descarrega no compromisso ativo de realizar o que foi vislumbrado.