Nietzsche

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

A DOUTRINA DO “GRANDE MEIO-DIA” SEGUNDO NIETZSCHE

1. O significado do “grande meio-dia” segundo Nietzsche

1. As considerações que Nietzsche resume sob o conceito de “grande meio-dia” trazem um alargamento essencial ao quadro traçado e permitem um passo decisivo para a compreensão do papel fecundo desses estados excepcionais, pois se referem a certas experiências particulares da felicidade que estão estreitamente ligadas à transformação do mundo no estado de embriaguez dionisíaca, e a interpretação metafísica desenvolvida por Nietzsche, no contexto do “Zarathustra”, relaciona o “grande meio-dia” com o anúncio do “eterno retorno”, sendo que a descrição da felicidade do meio-dia no poema “Meio-dia” [Mittags], que representa o ponto culminante da quarta parte, adquire um significado particular porque, embora separada do “grande meio-dia” na obra definitiva, nos projetos esses dois temas se compenetram, revelando uma unidade originária e abrindo uma nova via para a compreensão da teoria do “eterno retorno”.

2. A descrição no Zarathustra

2. Os aspectos que se destacam na descrição da quietude meridiana são, por um lado, a experiência vivida da eternidade, que escorre de dentro da própria temporalidade, e, por outro, a experiência vivida de uma perfeição do mundo, que se revela simultaneamente nesse instante, e trata-se, nessa calma do meio-dia, da experiência de uma felicidade última e suprema, que comporta um caráter próprio, pesado e escuro, inquietante e tenebroso, uma “velha gota morena de felicidade dourada” [alten brune Tropfen goldenen Glücks].

3. O compimento do mundo

3. O instante em que se manifesta a eternidade é também aquele em que o mundo alcança sua plenitude, e a pergunta “O mundo não se tornou perfeito agora?” mostra a importância decisiva dessa plenitude na experiência da felicidade meridiana, sendo essa plenitude definida como “redondo e maduro” [rund und reif], onde “redondo” expressa uma perfeição pura em si mesma e “maduro” indica um desenvolvimento que atingiu o ápice.

4. Grande felicidade e pequena felicidade

4. A aparente contradição entre o desprezo pela felicidade e a atribuição das experiências mais profundas à grande felicidade se resolve pela distinção entre duas formas: a “pequena felicidade” dos “últimos homens”, passiva e indolente, que se contenta com pouco, e a “grande felicidade” da vida ativa, criativa e combativa, mas a felicidade do meio-dia não é nem a pequena felicidade passiva nem a grande felicidade ativa, sendo uma felicidade silenciosa e calma, que “o pouco faz a espécie da felicidade melhor”, onde o “pouco” não é a moderação, mas o que deve ser adicionado para que o imperfeito alcance uma perfeição pura, um dom que acontece ao homem, não como efeito de uma causa, mas pelo motivo mais fútil.

5. A felicidade do meio-dia no “Andarilho”

5. A felicidade do meio-dia e a quietude particular a ela associada são compreendidas mais profundamente através do fragmento “No meio-dia” [Am Mittag], de “O andarilho e sua sombra”, que, como uma versão anterior e sem a influência da teoria do “eterno retorno”, descreve a experiência concreta da quietude do meio-dia, onde o sol arde a pino, o grande Pan dorme e a natureza está adormecida com uma expressão de eternidade no rosto, e o homem, com o coração parado e apenas o olho vivo, experimenta uma “morte de olhos abertos”, vendo muitas coisas que nunca vira, e se sente feliz, mas com uma felicidade pesada.

6. Integrações das poesias

6. Nietzsche ocupou-se continuamente da experiência do meio-dia em suas poesias, onde o meio-dia se torna a hora em que o tempo se desvanece e se experimenta a eternidade, com versos como “O meio-dia dorme sobre o espaço e o tempo” e “tudo lago, tudo meio-dia, tudo tempo sem meta”, e a expressão “Meio-dia da eternidade” se repete em anotações, mostrando a conexão íntima entre esses conceitos, enquanto o “sul” se torna o símbolo da plenitude e da leveza alcançada, uma “grande escola de cura”, onde os deuses se envergonham das vestes.

7. O meio-dia da vida

7. O meio-dia experimentado torna-se metaforicamente o “meio-dia da vida”, onde a quietude da natureza é uma espécie de parada da própria vida, uma “morte de olhos abertos” que permite ao homem conhecer a verdade, pois “muitas coisas vê que nunca vira”, mas essa suspensão da vida, que permite escapar da cegueira da vida, revela a estranheza radical desse estado, pois a vida é considerada uma força cega, e o conhecimento é alcançado ao preço da própria vida.

8. O “grande meio-dia” na história

8. A experiência do meio-dia, como ponto de virada da vida, pode representar, por transposição, a mudança da história em geral, com a doutrina do “eterno retorno” sendo o ponto de virada da história, onde, no instante em que essa ideia se apresenta, todos os cores mudam e começa uma “outra história”, mas o “grande meio-dia da terra e dos homens” se distingue da experiência originária porque, em vez de uma simples pausa, trata-se de uma virada fundamental em que a história entra numa nova fase e a vontade de criar o futuro, o super-homem, nasce no próprio homem.

9. A relação com o “eterno retorno”

9. A relação se torna manifesta quando, do “grande meio-dia”, se retorna à experiência do meio-dia, pois a propagação da ideia do “eterno retorno” é designada como o meio-dia da humanidade, e o conteúdo dessa ideia está em relação direta com a experiência da felicidade do meio-dia, onde o “tempo sem meta” e a experiência da eternidade num tempo imóvel correspondem tão precisamente à doutrina que se pode considerar essa experiência como a origem autêntica da teoria do “eterno retorno”.

10. Nota crítica

10. A teoria do “eterno retorno” é, ao mesmo tempo, uma falsa interpretação da temporalidade que se manifesta nessa experiência, pois mascara o verdadeiro caráter da interpretação subjetiva do tempo, considerando-a cegamente uma expressão do acontecimento temporal objetivo, e a imagem do movimento circular do tempo parecia a única saída para unir a experiência do “tempo sem meta” com o curso do tempo ordinário, mas essa necessidade de conciliar o inconciliável provinha apenas de um mal-entendido sobre a verdadeira natureza da temporalidade interior do homem.