A fenomenologia aproxima-se da ontologia, tal como Heidegger compreendeu o projeto de
Husserl, tendo a Sexta Investigação Lógica exercido a influência mais profunda sobre ele, ao explorar a intuição categorial (kategoriale Anschauung), termo husserliano para o modo como aspectos modais ou lógicos de um objeto se apresentam
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ver um objeto calico, magro e peludo como unidade não constitui um predicado real nem experiência sensorial
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distinguir um gato de um cão é identificar propriedades reais que diferenciam espécies físicas distintas
A fenomenologia não é apenas um modo de fazer ontologia, mas o único modo possível, pois somente como fenomenologia a ontologia é possível, já que o ser não é ente nem domínio de entes que possa ser objeto das ciências positivas, mas estrutura em termos da qual os entes fazem sentido, exigindo estudo fenomenológico do ser como estrutura de sentido
A fenomenologia é puramente descritiva, sendo a expressão fenomenologia descritiva no fundo tautológica, pois descrever significa a proibição de caracterizar algo sem exibi-lo e demonstrá-lo diretamente, excluindo a teorização construtiva que postula estruturas profundas por trás dos sentidos, como a tese semântica de que sentidos são combinatórios e produzidos pela mente, o que pressupõe indevidamente uma metafísica ou psicologia da mente
A fenomenologia é também interpretativa, pois o sentido da descrição fenomenológica como método reside na interpretação, extraindo dos fenômenos uma estrutura latente que, de modo geral, não se mostra por si mesma e permanece oculta, sendo todo ver pré-predicativo dos entes algo que já compreende e interpreta, e toda descrição orientada por um modo determinado de conceber o descrito, a partir da pré-compreensão
Articular conceitualmente a compreensão pré-ontológica traz à tona traços da experiência inicialmente não salientes, o que se ilustra pela cena televisiva em que um personagem parece desorientado sem razão aparente, esclarecida por alguém com experiência em produção que nota a inversão dos canais sonoros esquerdo e direito, articulando o que se sentia sem se ver, forma de descrição por articulação equivalente à descrição interpretativa
A análise do ser dos entes em termos de estruturas formais ou categoriais assemelha-se ao que
Aristóteles oferece nas Categorias e ao que os filósofos medievais tratam na teoria dos transcendentais, sendo também a Tábua de Categorias kantiana, na Crítica da Razão Pura, um exercício de ontologia, ainda que o ser dos entes permaneça habitualmente encoberto, recaindo e mostrando-se apenas disfarçado, e não apenas este ou aquele ente, conforme mostram as observações anteriores
As primeiras tentativas de ontologia apoiam-se no senso comum ou na tradição filosófica, que incorporam expressão distorcida da compreensão do ser, o que corresponde à infiltração da compreensão média do ser por teorias e opiniões tradicionais
A absorção no mundo cotidiano, no ambiente local de ação, nas tarefas assumidas e nos utensílios com que se lida exige um afastamento de si mesmo, pois o
si-mesmo deve esquecer-se, perdido no mundo do utensílio, para poder efetivamente pôr-se à obra e manipular algo, sendo este um dos sentidos da decadência (
Verfallen), de modo que os entes mais familiares, os artigos de tamanho médio que cercam a vida cotidiana, tornam-se entes paradigmáticos sobre os quais se constrói a ontologia de senso comum e a tradição metafísica ocidental desde a Grécia antiga
A fenomenologia é o método para escavar além das interpretações superficiais do ser que dominaram a tradição ocidental e colonizaram o senso comum, suspendendo essas interpretações tradicionais e descrevendo cuidadosamente o modo como os entes se mostram, propondo-se iniciar as investigações ontológicas pelo estudo do ser do ser-aí (
Dasein), com a ambição de desenvolver uma ontologia geral de todas as formas de ser articuladas pelos traços temporais que estruturam o ser, ambição não completada, restando apenas as Divisões I e II, dedicadas majoritariamente ao ser do ser-aí