A fenomenologia concreta do parágrafo 30 dedica-se sobretudo a discutir diferentes tipos de medo, como pavor e terror, e variações do fenômeno básico, como temer por outrem ou temer junto com outros, sendo mais rica a fenomenologia da sintonia oferecida em Conceitos Fundamentais da Metafísica, parágrafo
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um ser humano de bom humor traz consigo uma atmosfera vivaz, questionando-se se provoca com isso uma experiência emocional transmitida a outros como germes infecciosos que vagueiam entre organismos, dizendo-se que a sintonia é contagiosa
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outro ser humano, presente entre nós, deprime e amortece tudo por seu modo de ser, de modo que ninguém sai de sua concha, mostrando que as sintonias não são efeitos colaterais, mas determinam de antemão o ser-uns-com-os-outros, como uma atmosfera na qual primeiro se mergulha e que então sintoniza por completo
O tom da atividade e a atmosfera em que se está sempre imerso ilustram-se pelo exemplo de um vizinho sempre “na fossa”, que se queixa e se curva de ombros, cuja presença imobiliza a conversa não por contágio de estado psíquico interno, mas por instaurar um tom, uma atmosfera, um modo de sintonia com o mundo e consigo mesmo
O próprio ser está sempre em jogo, o que exige que ele importe, e as maneiras como esse ser importa se abrem na sintonia
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ao contrário de mesas, cadeiras e pedras, pode-se “sentir-se um fracasso” ou estar “em alta”, sendo a vida pesada ou leve, libertada ou enclausurada, culposa ou aliviada, sem que nenhum desses “sentimentos” seja mera “disposição interna”, mas antes modos de se conduzir na vida
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as sintonias tornam manifesto “como se está e como se vai indo”
A sintonia não é apenas o tom da vida, mas também sintoniza para os diferentes importares (imports) das coisas, pessoas e eventos ao redor
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o medo sintoniza para o temível, não sendo a temibilidade uma característica neutra e objetiva dos entes, podendo entes ser objetivamente perigosos mesmo sem se ter consciência deles, como um vírus respiratório circulando sem que se saiba
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uma pessoa “destemida” é aquela que não experimenta o temível, ou o experimenta em grau muito menor, exemplificada por quem enfrenta facilmente superiores e aponta sua injustiça ou insensibilidade, vendo o chefe como um igual, e não como algo temível
O contraste entre uma pessoa destemida e uma medrosa mostra como o próprio ser se abre de certo modo no medo, estando o ser-aí ameaçado pelo ente temível
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há um único fenômeno, o medo, com duas facetas: o ente temível e o ser-aí que teme, rejeitando-se aqui, como alhures, os “modelos em camadas” que distinguiriam uma realidade objetiva neutra em relação a afetos da experiência carregada de valor do temível
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não se constata primeiro um mal futuro (malum futurum) para depois temê-lo, nem o temer toma nota do que se aproxima para só depois descobri-lo em sua temibilidade, mas descobre-o de antemão como temível
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quadrinhos infantis exploram justamente essa tensão quando uma personagem grita só um instante antes de ser atropelada por um trem, o que soa cômico por contrastar com a experiência imediata do trem como temível
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um cão grande e rosnando pode ser objetivamente perigoso, mas julgar o cão perigoso não é o mesmo que experimentá-lo como ameaçador, como mostra o exemplo da pessoa destemida, sendo já a própria descrição do cão como “rosnando”, em vez de caracterizar objetivamente seu som, uma linguagem própria do contexto do medo
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o
ser-no-mundo é fenômeno unitário com três facetas — o mundo e os entes nele, quem está no mundo, e o
ser-em —, identificáveis analiticamente mas inseparáveis conceitualmente umas das outras, sendo a disposição uma faceta do ser-em e o medo um modo ôntico e concreto da disposição
A experiência de passar por um estranho passeando com um cão grande e forte que late viciosamente ilustra como o cão se mostra temível, com seus dentes caninos apropriadamente nomeados e músculos ondulantes em destaque
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o estranho costuma dizer algo como “ah, ele não é nada mau, só late, senta, Sweet Pea”, ao que se aproxima e estende a mão, o cão a fareja e lambe, permitindo acariciá-lo
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à medida que o cão perde seu aspecto temível, notam-se outros aspectos dele, o padrão fofo no rosto, a maciez da língua, dizendo-se a si mesmo que seus dentes afinal não são tão grandes assim
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o conteúdo cognitivo supostamente afetivamente neutro da experiência é em parte função do medo ou do conforto sentido, mostrando que o conteúdo da experiência está atravessado pelo importar (import)
Nem todos os modos de sintonia com o modo como as coisas importam são tão imediatos e poderosos quanto o medo, como no gesto natural de alcançar a xícara de café no trabalho porque ela está confiavelmente ali, sendo a confiabilidade também um importar, razão pela qual se fala em “canivete de confiança”
Ser afetado pelo caráter inutilizável, resistente ou ameaçador daquilo que é à-mão só se torna ontologicamente possível na medida em que o ser-em já foi determinado existencialmente de antemão de tal maneira que o que se encontra intramundanamente possa importar dessa forma
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a serviçabilidade ou a resistência são importares que os utensílios podem portar, modos como eles importam na condução dos negócios cotidianos, abertos nas sintonias que caracterizam a circunspecção cotidiana no mundo
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existencialmente, a disposição implica uma submissão reveladora ao mundo, a partir da qual algo que importa pode ser encontrado
A sintonia mostra-se um fenômeno mais amplo que humor, emoção ou afeto, justificando o uso do termo “sintonia” em vez de “humor” (mood), como ilustram dois fenômenos não usualmente considerados estados psicológicos
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a sensibilidade do conhecedor — de vinhos, de arte, de carros de luxo, de café — não constitui uma sensibilidade interna pertencente à constituição psicológica individual, pois o conhecedor traz consigo uma espécie de atmosfera compartilhada, fazendo com que a incapacidade alheia de distinguir um Bordeaux premier cru de um tinto californiano mais barato pareça grosseira até para si mesma, sendo a sensibilidade portanto uma sintonia
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as virtudes, na análise de
Aristóteles na Ética a Nicômaco, desenvolvida por estudiosos contemporâneos, não são meras disposições a agir de certas maneiras, sendo a bondade um modo de ver o mundo, de notar quando compaixão ou ajuda são chamadas, exemplificado por uma pessoa bondosa que intervém para acalmar alguém sujeito a abuso verbal, sintonizando a situação como uma em que o abuso é vicioso e a bondade é exigida, sendo por isso as virtudes também sintonias
Reunindo os elementos da fenomenologia da sintonia: as sintonias abrem importares, os modos como as coisas importam, inclusive a própria vida; são atmosféricas, funcionando como o tenor ou a afinação de uma situação e não como estados privados interiores; revelam “como se está e como se vai indo”; e, ao abrirem os modos como os entes do mundo importam, não “colorem” nem “interpretam” objetos de cognição dados independentemente
Disposição: a Ontologia do Estar-Sintonizado
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As sintonias são fenômenos ônticos, modos específicos como situações particulares são afinadas, sendo o estar sempre sintonizado do ser-aí um traço ontológico seu, sua disposição, implicando existencialmente uma submissão reveladora ao mundo da qual algo que importa pode ser encontrado
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ao estar sintonizado com o modo como as coisas importam, submete-se ao mundo, estando o mundo, os entes e os eventos nele sempre já importando, e o ser do ser-aí, sempre em jogo para ele, sendo assim “entregue” ao seu próprio ser
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o ser-aí é entregue a si mesmo e a seu mundo na medida em que está sempre sintonizado
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Heidegger usa o termo “ser-lançado” (
Geworfenheit) para nomear esse aspecto do ser do ser-aí, o de estar sempre já entregue a si mesmo e a seu mundo
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esse caráter do ser do ser-aí — o “que ele é” — permanece velado quanto ao seu de-onde e para-onde, mas se abre nele mesmo de modo tanto mais desvelado, chamando-se de lançamento desse ente em seu
Aí, lançado de tal maneira que, como ser-no-mundo, ele é o Aí, sugerindo a expressão “lançamento” a facticidade de seu ser entregue
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A facticidade de “seu ser entregue” remete à maneira como o ser-aí é determinado, sendo os objetos físicos ordinários determinados por propriedades como tamanho, forma e cor, ao passo que o ser-aí se determina por ser uma pessoa específica, com projetos, autocompreensões e sintonias específicos, e por sempre se encontrar numa situação particular, falando uma língua específica
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captura-se esse conceito central como situacionalidade, estar situado significando sempre encontrar-se em meio a um conjunto particular de entes, com um grupo particular de pessoas, dispondo de um conjunto particular de conceitos numa língua particular para perseguir projetos particulares em vista de para-o-bem-de-si-mesmo particulares
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o traço distintivo da concepção heideggeriana de situacionalidade é que ela se abre na sintonia, submetendo-se ao mundo, sendo a ele entregue, na medida em que ele sempre já importa de modos determinados
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O estar sintonizado “não se relaciona em primeira instância com o psíquico”, fazendo sentido esse comentário se se entender “psíquico” no sentido filosófico tradicional, como domínio de interioridade, privado e inacessível de fora, esquema
sujeito-objeto que Heidegger rejeita por razões fenomenológicas
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caracterizar toda a experiência segundo o esquema sujeito-objeto distorce a experiência, sendo as sintonias resistentes à divisão entre dentro e fora, estando tanto os “sujeitos” quanto os “objetos” do mundo enredados na mesma afinação
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em Conceitos Fundamentais da Metafísica (
GA29-30), afirma-se que uma sintonia não está de modo algum “dentro” de alguma interioridade, para depois aparecer num piscar de olhos, mas por essa mesma razão também não está de modo algum fora
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A negação de que o medo seja um fenômeno psíquico “em primeira instância” não implica que psicólogos não devam estudar o medo nem que psicoterapeutas não devam tratar fobias
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os diferentes modos de disposição e seus entrelaçamentos fundamentais não podem ser interpretados no âmbito da investigação presente, sendo os fenômenos há muito conhecidos onticamente sob os termos afetos e sentimentos, sempre considerados pela filosofia
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há uma rica variedade de sintonias das quais os filósofos há muito se ocupam, sobretudo na psicologia moral, não sendo o argumento que o medo não seja uma condição psicológica tratada pela psicologia, mas que há uma dimensão do medo em virtude da qual ele é uma sintonia, uma afinação da situação em que se encontra, podendo a psicologia se desviar ao ignorar essa dimensão e tratar o medo como algo puramente interno e privado
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Essa leitura ajusta-se ao restante da passagem, na qual
Aristóteles, em sua Retórica, é apontado como quem ofereceu “a primeira hermenêutica sistemática da cotidianidade do ser-uns-com-os-outros”
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oradores criam estados emocionais na audiência, mas sobretudo o fazem ao afinar a situação compartilhada de modo a sintonizar a audiência para os modos como as coisas importam, podendo um orador demagogo ou odiento afinar a situação para que alguns, “eles”, apareçam como ameaça a “nós”
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o medo sentido por membros individuais da audiência participa desse tom público e é por ele afinado, podendo os indivíduos nem sentir qualquer medo ocorrente, fundindo-se antes numa “mentalidade de horda” que os envolve e arrasta, mentalidade essa que não se pode reconstituir a partir dos estados mentais internos e privados individuais da audiência
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A sintonia não constitui uma categoria de estado psicológico sob a qual se ordenariam humores, emoções e sentimentos, tendo Matthew Ratcliffe argumentado que os humores governam não apenas “como se sente o mundo”, mas também quais oportunidades estão abertas
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o humor não é responsável apenas por um sentido de “estar aí”, sendo também essencial ao sentido do que o mundo pode oferecer
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os humores possuem uma dimensão de compreensão, não apenas de disposição, pois ao estar sintonizado o ser-aí “vê” possibilidades em termos das quais ele é
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todos os modos concretos de ser exibem simultaneamente as três facetas da abertura — disposição, compreensão e discurso —, exibindo assim os humores, como depressão, ansiedade, alegria ou euforia, essas três facetas, razão pela qual é importante não traduzir “Stimmung” por “humor” (mood), pois os humores são sintonizados, e a sintonia não é humor