BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.
Assim, os estados de espírito (Befindlichkeit) (1) revelam importações, (2) funcionam como atmosferas, (3) revelam “como nos encontramos”, (4) são passivos, (5) têm objetos, e (6) co-constituem o conteúdo da experiência.
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Assim, não só os estados de espírito e as emoções, mas também as sensibilidades e as virtudes (bem como os vícios), partilham algumas das características críticas em que Heidegger está interessado sob o título disposição e estado de espírito ou tonalidade afetiva. A função reveladora fundamental da disposição é dar o tom da experiência, servir como uma atmosfera na qual a importação de situações e objetos é revelada e através da qual somos informados sobre como “estamos dispostos”. A descrição que Heidegger faz dos estados de espírito não é nítida e cristalina; não distingue corretamente os estados de espírito das emoções e algumas das suas análises parecem artificiais (como a estrutura tripla de um estado de espírito). No entanto, a sua ideia básica é suficientemente clara: uma das facetas básicas da revelação do mundo na nossa experiência é a nossa sintonia com o que se importa e com a forma como a gente se encontra.
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A filosofia heideggeriana rejeita a visão do senso comum de que os humores (
moods) são estados subjetivos internos e psicológicos, argumentando fenomenologicamente que eles não residem “dentro” da consciência.
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Crítica à noção de humor como condição interna projetada sobre as coisas.
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O humor não vem de dentro nem de fora, mas surge do ser-no-mundo.
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Insuficiência da análise em Ser e Tempo comparada aos cursos de 1929/1930.
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A fenomenologia revela que os humores funcionam como atmosferas compartilhadas que determinam o ser-com-os-outros, em vez de serem experiências privadas isoladas ou meramente infecciosas.
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Exemplo de como uma pessoa deprimida altera o ambiente e a conversa.
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O humor como algo que já está lá e no qual nos imergimos.
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Afinação (attunement) prévia da interação social.
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O papel multifacetado do humor na experiência consiste em revelar como o ser importa para nós, distinguindo a existência humana da mera presença de objetos inanimados.
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Diferença entre sentir-se fracassado e ser uma mesa ou rocha.
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Revelação de fardos ou leveza como modos de conduzir a vida.
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O humor não é um objeto de experiência, mas um modo de carregar-se.
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A disposição (
Befindlichkeit) revela o caráter de “jogado” (
thrownness) da existência, onde o ser humano se encontra sempre já entregue a um mundo e a um humor que não escolheu.
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Passividade do ser entregue à vida.
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Impossibilidade de existir sem humor ou afinação.
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A indiferença “cinzenta” também é um modo de se importar.
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Os humores sintonizam o indivíduo com as importâncias diferenciais das coisas e pessoas, determinando o que se destaca ou permanece irrelevante na experiência, como ilustrado pela análise do medo.
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Definição de “import” como o modo como algo importa.
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O medo revela o objeto como ameaçador.
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O destemido não percebe o ameaçador da mesma forma que o medroso.
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A análise da circunspeção cotidiana mostra que mesmo a confiabilidade ou resistência dos utensílios só é acessível porque o ser-no-mundo já está existencialmente determinado para se importar.
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O martelo confiável ou quebrado importa para o trabalho.
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Disposição como submissão reveladora ao mundo.
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O “temperamento” como a afinação com o modo como as coisas importam.
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A tradução de
Befindlichkeit como “disposedness” é preferível a “state-of-mind” porque captura a conotação de “como alguém se encontra” (
Wie befinden Sie sich?) sem carregar a bagagem filosófica de mente e substância.
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A distinção entre humores e emoções, embora imprecisa, sugere que os humores têm um impacto abrangente e difuso sobre uma gama de comportamentos, enquanto as emoções tendem a ter um foco específico.
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Depressão afeta atividades não relacionadas ao evento desencadeador.
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Ódio ou desprezo focam-se em indivíduos específicos.
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O humor define o tom para toda a gama de atividades.
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Uma função crítica dos humores é o automonitoramento, onde o humor revela ao indivíduo “como ele está e como está passando”, característica menos presente em emoções focadas em objetos externos.
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O humor revela a condição geral do indivíduo.
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O medo revela o eu como ameaçado (automonitoramento).
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O amor ou diversão revelam o objeto como querido ou encantador, mas focam menos no eu.
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O medo, utilizado como exemplo principal em Ser e Tempo, é fenomenologicamente problemático como paradigma de humor devido ao seu foco em objetos específicos, sendo a angústia um exemplo mais adequado de afinação difusa.
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O medo revela um objeto ameaçador e o eu em perigo.
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A angústia não tem objeto definido e revela o nada.
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O público conformista substitui a angústia pelo medo.
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O humor não colore ou interpreta dados cognitivos neutros a posteriori, mas co-constitui o conteúdo da experiência desde o início, tornando inseparável o “o quê” percebido do “como” ele importa.
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Impossibilidade de separar conteúdo neutro de modificação afetiva.
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Exemplo do cão: o medo faz os dentes parecerem maiores.
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A mudança de afinação altera a própria percepção visual e tátil do objeto.
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Fenômenos relacionados, como sensibilidades de classe e virtudes, compartilham características da disposição (atmosfera e revelação de importâncias), mas diferem no aspecto do automonitoramento.
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Sensibilidade de “dinheiro velho” cria atmosfera de refinamento ou vulgaridade.
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Virtudes sintonizam a percepção moral (o gentil vê oportunidades de bondade).
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Sensibilidades e virtudes são passivamente adquiridas, não escolhidas.