BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.
Normalmente, não nos sentimos isolados dos outros, mas antes imersos no mundo juntamente com eles. “E assim, no fim de contas, um eu isolado sem os outros está igualmente longe de ser simplesmente dado” (152/116). Como são os nossos encontros com os outros no decurso da nossa atividade quotidiana? Tal como as parafernálias não são coisas dotadas de valor, também os outros não são corpos dotados de propriedades psicológicas. Normalmente, compreendemos os outros de imediato e sem mais demoras. Quando entro no gabinete do meu departamento, o estudante que está a trabalhar na secretária está a receber um recado. Quando saio para o pátio, o homem no banco está a almoçar. Não tenho de pensar nestas coisas. A maior parte dos outros estão ali, a fazer o que estão a fazer, tal como os martelos e as mesas estão ali, a ser o que são. É isto que Heidegger quer dizer, quando se refere à “inconspicuidade” e à “obviedade” que caracterizam o ser dos outros tanto quanto o ser da parafernália (158/121). Tal como acontece com a parafernália, o que os outros fazem tem sentido em termos do horizonte do mundo.
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Os outros e o que eles fazem são normalmente facilmente inteligíveis para mim, porque partilhamos um mundo. Heidegger chama aos outros “Dasein-com”.
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A pergunta acerca de quem é Dasein conduz à constatação de que, embora cada caso seja próprio e expresso pela forma “eu”, tal indicação formal não determina quem é aquele que está-no-mundo, pois a existência é vivida imersa no mundo circundante e não como ponto de vista isolado.
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A forma gramatical “eu estou-no-mundo” permanece apenas indicadora formal não compromissiva.
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A vida cotidiana ocorre mergulhada no mundo da ocupação e do equipamento circundante.
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A experiência comum não separa o si mesmo do mundo.
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A questão desloca-se do enunciado do eu para o modo de experiência de si.
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A experiência ordinária de si acontece juntamente com outros e não como isolamento, sendo os outros imediatamente compreendidos em suas atividades cotidianas com a mesma evidência discreta com que aparecem os utensílios, segundo Heidegger.
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Um estudante trabalhador anotando recado no escritório é compreendido sem inferência.
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Um homem no banco comendo almoço é entendido diretamente.
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Os outros aparecem com inconspicuidade e obviedade.
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O sentido do que fazem é dado pelo horizonte do mundo compartilhado.
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Os outros não aparecem como utensílios disponíveis nem como objetos presentes-à-mão, mas como entes que estão aí juntamente com Dasein e compreendidos a partir de seus fins, conforme Heidegger.
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Os outros são “aí também” e “aí com”.
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A ação do estudante é compreendida a partir de seu ser-para como estudante.
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A inteligibilidade mútua decorre de um horizonte social compartilhado.
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Em razão desse ser-no-mundo conjunto, o mundo de Dasein é sempre mundo-compartilhado e o ser-no equivale a ser-com outros, cujo modo próprio de ser é denominado por Heidegger Dasein-com.
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O mundo é comum entre os participantes.
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O ser dos outros dentro do mundo é caracterizado como Dasein-com.
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A compreensão ordinária dos outros decorre do compartilhamento do mundo.