HBEP:472-475
O que merece ser considerado como a essência da verdade, Vom Wesen der Wahrheit denomina de liberdade. Daí a frase destacada pelo próprio Heidegger: “A essência da verdade é a liberdade.”1)
Essa fórmula, como já sabemos, está na origem de muitos equívocos. Heidegger afirma tranquilamente exatamente o contrário do que estamos acostumados a ouvir. É verdade, como já repetimos várias vezes, aquilo que está em conformidade com a própria coisa, com [473] o ser do ser, com o ser tal como ele é. Um movimento sempre ao mesmo tempo regressivo e transgressivo da proposição verdadeira. “Tal como é” significa, de fato, tal como já era antes da enunciação e tal como ainda poderia ser fora da enunciação. Todas as filosofias do mundo não poderão mudar nada nisso: o desejo mais caro do conhecimento é um desejo de inocência e de renúncia. Não fazer nada às coisas, não alterá-las, não estragá-las, não “colocar algo de si”. Não, nada disso, mas apenas um olhar um pouco mais atento para preservá-las e mantê-las sãs e salvas. Passividade, se assim se quiser, mas uma passividade deliberada e muitas vezes gloriosa.
E eis que a verdade parece capotar no arbitrário e nos caprichos de uma liberdade puramente humana. A menos, é claro, que Heidegger não esteja aqui acrescentando uma evidência a outra. A evidência inicial definia a verdade como a conformidade de uma proposição com a coisa sobre a qual ela se enunciava; a evidência que poderia completá-la se limitaria a lembrar que sempre permanecemos livres para realizar essa ação, para consentir com uma verdade ou recusá-la, para comunicá-la ou para nos apropriarmos dela.
Mas não, não se trata disso. Nossa primeira surpresa tinha fundamento mais sólido do que essa banalidade óbvia. É preciso aceitar isso: Heidegger subverte todas as evidências do senso comum. Heidegger surpreende, Heidegger retorna ao elementar. E o elementar, aqui, é a própria essência da verdade (e logo também do desvio ou do erro). Como a verdade parece, a princípio, escapar-nos, os filósofos há muito se questionam sobre as possibilidades de uma conciliação entre a necessidade — ou mesmo a eternidade — do verdadeiro e a contingência ou o livre arbítrio da vontade. A controvérsia entre os antigos e os modernos. Uns buscam essa conciliação às custas da liberdade ou de uma forma considerada inferior de liberdade; os outros, às custas da verdade e de sua aparente ingenuidade. Nem uns nem outros são muito convincentes. Os primeiros sacrificam a liberdade; os segundos, a verdade. Para uns, só existe “verdadeira” liberdade no reconhecimento da verdade ou da necessidade. Para os outros, ao contrário, a verdade não passa de um satélite da subjetividade pensante, única constituinte de uma objetividade fundamentalmente subjetiva: revolução copernicana, rebaixamento do conhecimento e reerguer do sujeito conhecedor, ascensão do niilismo, exaltação da vontade de poder.
A afirmação heideggeriana de que a liberdade é a essência da verdade não tem o significado moderno — e, se assim se quiser, existencialista — que se deseja atribuir-lhe. Longe de [474] pensar a verdade a partir da liberdade, Heidegger logo relacionará essa própria liberdade a uma verdade mais originária do que a da proposição: a verdade ou o esclarecimento do ser, o deixar-ser do ser do existente. Já se intui que a liberdade como deixar ser respeita mais o ser das coisas do que o poder plástico de um entendimento constituinte ou de uma vontade legisladora. Alheia a qualquer ideia de criação, a teoria heideggeriana da liberdade não o é menos a qualquer ideia de constituição. Mas, por outro lado, obviamente também não se trata de retornar às formas ultrapassadas do realismo dogmático ou ainda àquela ingenuidade que Nietzsche qualificava de hiperbólica. A liberdade tal como Heidegger a entende escapa às definições tradicionais de liberdade. Ela não se define nem em termos de contingência, nem em termos de necessidade, nem em termos de espontaneidade. Ela deixa ser: esse “deixar ser” é, de fato, um deixar, mas é também um deixar ser. “A liberdade”, escreve Heidegger, “não é apenas o que o senso comum gosta de fazer passar por esse nome: o capricho que às vezes surge em nós de inclinar nossa escolha para um lado ou para outro. A liberdade não é uma simples ausência de coação em relação às nossas possibilidades de ação ou inação. Mas a liberdade também não é, em primeiro lugar, uma disponibilidade em relação a uma exigência ou a uma necessidade (e, portanto, a um ser qualquer). Antes de tudo isso (antes da liberdade “negativa” ou “positiva”), a liberdade é o abandono à revelação do ser como tal. »2)
A estranheza dessa liberdade nos permite compreender também a contestação necessária de certas evidências que, desta vez, não se referem mais à verdade, mas ao erro. Até agora, de fato, todos atribuíam ao homem e à sua liberdade a falsidade e a hipocrisia, a mentira e o engano, a ilusão e a aparência. Não sendo livre e, de certa forma, não sendo responsável perante a verdade e sua própria necessidade, o homem deve ser responsável por seus erros. Nessa perspectiva, a liberdade não seria a essência ou o fundamento da verdade, mas a essência ou o fundamento do erro. Assim, para Descartes, por exemplo, não depende de nós saber tudo, pois nosso entendimento é finito [475], como todo ser criado. Mas depende de nós nunca nos enganarmos, pois, por mais finito que seja nosso entendimento, ele é, no entanto, perfeito em sua espécie, como todas as coisas que saíram das mãos de Deus.
O erro é considerado o contrário da verdade. O erro é fruto da liberdade. Não seria essa uma prova a contrario de que a essência da verdade não pode, de forma alguma, depender da liberdade? Mas a correção heideggeriana do conceito de liberdade revelar-se-á tão importante que nos conduzirá a conclusões totalmente diferentes. Balanço provisório e ainda ambíguo de *Vom Wesen der Wahrheit*. Dupla novidade: Heidegger reconduz a verdade para uma liberdade que nos possui mais do que nós a possuímos; por outro lado, Heidegger nos livra das formas primitivas e essenciais do erro, do errar ou da errância. Essa nova teoria da verdade é, portanto, também a primeira grande teoria de um erro originário e indelével.