A interpretação heideggeriana encontra em
Kant um conceito originário da temporalidade pura como imaginação pura, sem limitar a imaginação ao papel mediador entre sensibilidade, entendimento e razão.
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O segredo do tempo e do ser-si deve ser procurado na própria imaginação, porque o si possui caráter originariamente temporal e o tempo possui uma ipseidade transcendental.
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Fora do sujeito, o tempo nada é, mas com o sujeito ele se torna tudo, razão pela qual a imaginação transcendental pode ser denominada tempo originário.
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Embora a imaginação seja a raiz comum da sensibilidade e do entendimento, essa raiz encontra-se, em última instância, enraizada no próprio tempo.
A fundamentação kantiana da metafísica conduz à imaginação transcendental como raiz comum da sensibilidade e do entendimento e condição da unidade originária da síntese ontológica, mas essa raiz repousa no tempo originário.
A metafísica funda-se no tempo, de modo que sua questão fundamental acerca do ser se converte no problema de Ser e tempo.
A imaginação transcendental pode originar a temporalidade configurada na Estética transcendental somente porque ela própria é, em sentido mais originário, o tempo, pois apenas o tempo pode temporalizar.
A manutenção kantiana do tempo ao lado do Eu penso impede sua absorção no conceito absoluto e manifesta a resistência da temporalidade à identificação hegeliana entre pensamento e ser.
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O tempo impõe sua lei ao entendimento, aos conceitos e ao próprio conceito, abrindo a possibilidade de uma identidade mais profunda entre o Eu penso e o tempo.
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Como o tempo não está no tempo, não passa e não muda, sua identidade imutável pode coincidir com a identidade do Eu penso ou mesmo constituí-la.
A defesa da sensibilidade e da imaginação implica um rebaixamento relativo do entendimento e da razão, pois a sensibilidade passa a fazer ouvir sua voz e aceita submeter-se somente a uma razão que considere seus pareceres.
A teoria kantiana apresenta uma conhecimento simultaneamente humilhado e exaltado, limitado e soberano, pois a revolução copernicana exprime inseparavelmente sua força e sua fraqueza.
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Pensar deixa de significar contemplar e passa a significar determinar, enquanto uma filosofia do conceito e do sentido substitui a filosofia da ideia e da essência.
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O entendimento torna-se ativo, os objetos regulam-se pelo sujeito e a razão conhece apenas aquilo que produz segundo seus próprios planos.
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A soberania assim conferida ao sujeito não supera a finitude, mas constitui sua consagração.
O princípio segundo o qual somente se conhece a priori aquilo que se introduz nas coisas revela a impotência interna da própria razão que parece onipotente.
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A antecipação do a priori denuncia o atraso constitutivo do conhecimento humano, cuja intuição derivada nunca é contemporânea nem criadora do objeto recebido.
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Somente a razão humana, simultaneamente pura e sensível, necessita distinguir conhecimentos a priori e a posteriori, distinção inaplicável ao conhecimento divino.
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O a priori torna possível a experiência, enquanto o conteúdo material da experiência se acrescenta contingentemente às formas necessárias.
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A crítica a
Hume exige conservar a diferença entre a contingência do conteúdo determinado segundo uma lei e a necessidade formal da própria lei.
A finitude do entendimento legislador é ainda mais acentuada que a da intuição receptiva, pois o entendimento carece da imediatez intuitiva e precisa representar o individual mediante o desvio discursivo do universal.
A revolução copernicana esclarece-se pela questão da possibilidade dos juízos sintéticos a priori, nos quais um conhecimento enriquecedor antecipa o encontro empírico com o objeto.
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Para constituir conhecimento verdadeiro, o juízo sintético a priori deve concordar com o objeto antes da confrontação efetiva com ele.
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Excluída a hipótese teológica de uma harmonia preestabelecida, a verdade desses juízos depende da existência, nos conceitos e princípios do entendimento, de condições que garantam antecipadamente sua validade objetiva.
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A hipótese copernicana apresenta-se inicialmente como tentativa a ser comprovada, mas revela-se capaz de explicar o conhecimento a priori e solucionar a antinomia da razão pura.
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A concepção tradicional da verdade como adequação entre intelecto e coisa permanece intacta, embora a conformidade deixe de depender de uma verificação meramente posterior.
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A questão da verdade torna-se a questão da justificação, validade, legitimidade e credibilidade das representações humanas inventadas a priori e aplicáveis verdadeiramente aos objetos.
A interpretação heideggeriana da revolução copernicana é simultaneamente revolucionária e conservadora, pois
Kant não rejeita a verdade como concordância entre conhecimento e objeto, mas procura as condições que tornam essa concordância possível para o entendimento humano.
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A busca de um critério universal da verdade converte-se em conhecimento ontológico da constituição de todo fenômeno, anterior e fundante em relação ao conhecimento ôntico.
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O conhecimento ôntico somente pode adequar-se ao ente quando este já se encontra previamente manifesto em seu ser.
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O a priori kantiano possui, portanto, significado ontológico e finito, porque funda a conformidade empírica entre conhecimento e ente.
O entendimento humano encontrava-se mais próximo do entendimento divino quando era concebido como faculdade contemplativa capaz de receber parcialmente as coisas em seu ser absolutamente verdadeiro.
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A antiga limitação do conhecimento humano ainda permitia sua participação fragmentária no saber divino, pois o espírito humano permanecia concebido como parcela do espírito de Deus.
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Em
Kant, a finitude deixa de ser mera limitação negativa e torna-se finitude originária, capaz de uma extensão infinita sem abandonar seu caráter finito.
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Rompem-se assim as ligações entre o espírito humano e o espírito divino, e Deus deixa de ser sujeito, objeto, princípio, garantia, fundamento ou finalidade do conhecimento.
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A teoria kantiana torna-se uma teoria ateia do conhecimento e uma teoria agnóstica de Deus, substituindo o problema teológico da criação pelo problema transcendental da cognoscibilidade do mundo.
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A questão decisiva passa a ser como o ser humano pode conhecer entes que não criou e com cuja existência não mantém relação produtiva.
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A presença das coisas para o sujeito e a possibilidade de sua manifestação pressupõem uma cumplicidade originária entre homem e mundo que não pode ser explicada apenas pelas capacidades intelectuais humanas.
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A subjetividade transcendental abre uma dimensão de encontro situada aquém do homem e além das coisas, na qual se tornam possíveis tanto sua concordância quanto seu confronto.
Hegel recusa a novidade do problema kantiano e acusa a filosofia crítica de atribuir ao espírito humano a responsabilidade pela deformação de um mundo verdadeiro em si mesmo.
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A comparação com
Zenão favorece a dialética antiga, para a qual o próprio mundo fenomenal é falso, em detrimento da dialética kantiana, na qual as determinações projetadas pelo sujeito arruínam o mundo para o conhecimento.
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A limitação kantiana representa, para
Hegel, uma humilhação indevida do espírito, cuja dignidade residiria precisamente em sua natureza pensante.
A filosofia kantiana exprime simultaneamente a exaltação e a humilhação do conhecimento ao instituir uma verdade relativa e uma verdade absoluta, correspondentes a dois absolutos distintos.
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O absoluto finito e humano reside na unidade sintética originária da apercepção transcendental, enquanto o absoluto infinito e divino permanece na coisa em si, no númeno e no Deus criador.
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O primeiro é o absoluto da relação, da correlação transcendental e da mediação imediata; o segundo é o absoluto da substância e da imediatez sem mediação.
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Ao excluir de si o absoluto verdadeiro, o conhecimento transfere para fora de seu alcance aquilo que reconhece como sua forma suprema.
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A oposição entre filosofia e religião, saber e fé, interioriza-se na própria filosofia, permitindo que o filósofo permaneça homem de fé dentro dos limites da razão.
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A fé racional não é um saber provisório apoiado em motivos razoáveis, mas um ato pelo qual a própria razão acredita, quer e espera sem possuir razões demonstrativas.
A ruptura kantiana da antiga adequação entre ser e conhecer faz com que o conhecimento imponha suas condições ao ser fenomenal, mas também ameaça desvalorizar o conhecido justamente porque ele se torna obra do sujeito.
Nietzsche explicita a errância essencial do conhecimento humano ao localizar sua finitude não em deficiências ocasionais, mas na própria força produtora de suas verdades.
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A crítica nietzschiana radicaliza a transformação kantiana do ser em valor e da ontologia em axiologia, fazendo do valor atribuído a uma coisa o verdadeiro equivalente de seu ser.
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O erro torna-se pressuposto do pensamento, pois toda atividade cognitiva depende de uma composição poética anterior.
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Diferentemente da imaginação transcendental kantiana, essa composição é poético-prática e funciona como vontade de potência orientada à dominação.
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A produção imaginativa perde sua inocência ontológica e cai no domínio vital da ação.
A vontade de potência recusa o ideal de conhecer e substitui-o pela esquematização que impõe ao caos a regularidade e as formas necessárias à satisfação das exigências práticas.
A razão, a lógica e as categorias formam-se segundo a medida da necessidade vital de subsumir, esquematizar, compreender e dominar, e não segundo uma necessidade pura de conhecer.
O poder plástico da razão ou da imaginação deixa de ser poético-ontológico, como em
Kant, e torna-se caótico-prático, colocando toda criação artística e toda esquematização a serviço da vida e da vontade de potência.
O duplo jogo do conhecimento permanece necessário tanto em
Kant quanto em
Nietzsche, pois o ser humano reencontra nas coisas aquilo que ele próprio introduziu e deve continuar exercendo de bom grado tanto a ciência da descoberta quanto a arte da produção.
A ignorância necessária inscrita no conhecimento obriga-o a impor sentido onde desejaria apenas descobrir essência, instaurando uma duplicidade em que a violência continua a simular inocência.
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Verdadeiro já não é simplesmente o que é verdadeiro, mas aquilo que se considera, avalia e acredita como verdadeiro.
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A fé não desaparece diante do saber, mas apodera-se secretamente de seu ser, de sua substância e de sua própria concepção de verdade.
A desmistificação nietzschiana não elimina a verdade, mas reconhece a necessidade vital do valor de verdade, ainda que esta seja definida como um gênero de erro indispensável à conservação de determinada espécie.
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A verdade necessária à vida contém, contudo, um princípio mortal, pois a vontade de verdade pode ocultar uma vontade de morte.
Ao esquecer que a manutenção precária da vida constitui a condição da verdade, o ser humano transforma o valor condicionado da verdade em realidade incondicionada e absoluta.
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As condições humanas de conservação são projetadas como predicados do ser em geral, e a vontade de verdade converte-se em vontade de verdade a qualquer preço.
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A ingenuidade hiperbólica consiste em tomar o ser humano como sentido e medida do valor das coisas, ignorando a origem projetiva dos valores.
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O antropomorfismo é necessário para a vida, mas o antropocentrismo permanece aberrante, porque as formas procedem do ser humano sem que ele seja o centro ou o sujeito do mundo.
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Em lugar da oposição entre homem e mundo, há um caos inserido no caos e uma embriaguez interna à própria embriaguez, cuja potência formadora produz as configurações do conhecimento.
O jogo infantil e desmascarado do conhecimento deve prosseguir com leveza, pureza e coragem, mediante a mesma vontade de potência que se manifesta alternadamente nos momentos fortes e fracos da atividade cognitiva.