O “problema da percepção” aparece como caso particular do problema epistemológico moderno do acesso do espírito ao mundo, formulado como relação entre representação e objeto em
Kant, onde a percepção é tomada como modalidade de acesso cuja possibilidade precisa ser explicada.
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Epistemologia moderna: separação entre espírito e mundo como pano de fundo.
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Kant: relação entre “representação em nós” e “objeto”.
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Percepção como via de acesso que deve “fornecer” objetos.
O acesso em jogo é acesso a objetos como tais, de modo que, seguindo Frege, percebe-se a própria coisa (a “fresa” à beira do caminho) e não sensações indeterminadas sem objeto determinado.
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Frege: exemplo da fresa no caminho.
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Rejeição de “sensações” sem referência clara.
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Percepção como percepção do objeto mesmo.
Uma certa filosofia trata como enigma o fato de a percepção qualificar o percebido como objeto e recorre a uma resposta de espírito kantiano segundo a qual a intervenção do pensamento determina o objeto percebido, como em Frege com a tese de que ver a fresa pressupõe pensar que é uma fresa.
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Enigma: como o percebido aparece como objeto.
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Resposta: pensamento como condição de determinação objetiva.
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Frege: identificação da fresa ligada ao pensar “é uma fresa”.
Atribuir ao pensamento a determinação do objeto desperta resistência por colidir com a originalidade e a originariedade da percepção em relação ao pensar, pois ver uma fresa difere de pensar que há uma fresa e não parece exigir tal pensamento subjacente.
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Originalidade: diferença de tipo experiencial entre ver e pensar.
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Originariedade: ausência aparente de dependência do pensamento na visão comum.
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Dependência do pensamento admitida apenas em casos especiais.
Mantida a independência da percepção em relação ao pensamento, reaparece o problema de como ela permanece percepção de objetos, núcleo do problema pós-fregeano que mobiliza parte da filosofia contemporânea e recebe o nome de “problema da percepção”.
Antes da resposta fenomenológica, ressalta-se o caráter fabricado do problema, pois é estranho perguntar como a percepção “acessa” seu objeto como se precisasse resolver algo por conceitos, quando a percepção já seria o lugar onde isso está resolvido.
A questão moderna do acesso parece pressupor a percepção como acesso dado e inquestionável, de modo que o problema do acesso se aplicaria às formas de pensamento e não à percepção, já que se está sempre no meio das coisas.
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Inversão de perspectiva: percepção como dado primário.
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“Acesso” perde sentido quando não há passo a transpor.
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Problema do acesso deslocado para o pensar.
Uma filosofia que formula o “problema da percepção” aborda a percepção como se viesse de um além ou aquém sem percepção, como se fosse preciso constituí-la como acesso a partir de um não-acesso primeiro, embora tais questões dependam da própria percepção e por isso não façam sentido aplicadas a ela.
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“Não-acesso” hipotético como ponto de partida equivocado.
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Dependência das questões do fato perceptivo.
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Inaplicabilidade do esquema de acesso à percepção.
Uma boa filosofia da percepção exigiria ascese para compreender que o problema é estrangeiro à percepção e por isso não se coloca, pois não há aquisição das “coisas mesmas” já que se está nelas, e a tarefa é pensar adequadamente as coisas, para o que a originariedade perceptiva é condição e ponto de aplicação, não uma forma de adequação.
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Estranheza do problema diante do fato de já estar nas coisas.
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Tarefa: pensamento adequado sobre as coisas, não obtenção delas.
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Originariedade: nada menos que coisas mesmas, nada mais que elas.
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Adequação como trabalho do pensar com base na percepção.